Administração Pública

Acabou a lua de mel do Diário
com Morando. O que muda?

  DANIEL LIMA - 27/05/2019

Não importa a ordem dos fatores, ou seja, se o Diário do Grande ABC rompeu relações editoriais com o prefeito Orlando Morando ou se o prefeito Orlando Morando rompeu relações editoriais com o Diário do Grande ABC. O que interessa é que há ruptura declaradamente pública que, de alguma forma, menos intensa que em tempos passados, pode alterar o roteiro eleitoral em São Bernardo. 

Tanto não teremos mais o entrosamento de antes que o jornal já sinaliza bondades editorais aos petistas e também ao deputado federal Alex Manente, eterno pêndulo entre a direita e a esquerda na Capital Econômica do Grande ABC. E começa a bater forte no prefeito até outro dia escancarado amigo da casa. 

Antes de prosseguir, não custa explicar o conceito de pêndulo envolvendo Alex Manente: o congressista que votou pelo impeachment de Dilma Rousseff, entre outras medidas contrárias aos interesses do PT, faz sempre jogo casado com os petistas na região. Mais precisamente, desde que a ambição de crescer na hierarquia política sobrepôs-se a qualquer outro objetivo. Alex Manente tem fama de baixa fidelidade a quem lhe dá a mão. Há entre ele e o PT um jogo puramente de interesses.  

Com Manente como aliado é sempre possível ter mais votos em São Bernardo numa disputa pela Prefeitura. O PT nunca o subestimou e conta com o reforço sempre disponível porque existe entre o deputado federal e o Orlando Morando uma disputa aparentemente inconciliável. 

Guerra sem fim? 

Agora, voltemos à guerra entre Diário do Grande ABC e Orlando Morando. Nem todos os leitores decifram o ambiente de hostilidade entre a Redação do jornal mais tradicional da região e a liderança local de confiança do governador João Doria. 

É claro que oficialmente nem o jornal nem o prefeito vão se manifestar sobre a origem do entrevero. Mas é certo que os desencontros passam, entre outros motivos, pela possível troca do modal que vai ligar São Bernardo, Santo André e São Caetano à Estação Tamanduateí do metrô, em São Paulo. 

O Diário do Grande ABC promove a maior campanha de marketing travestida de jornalismo ao comprar a briga pelo traçado já licitado do monotrilho. Como se trata de peças de marketing com pitadas de jornalismo, o Diário do Grande ABC trata o monotrilho por metrô, que é algo muito diferente, mais nobre, mais desenvolvimentista. 

O pomo da discórdia 

Orlando Morando virou adversário do jornal ao não se engajar na campanha que há mais de dois meses ocupa espaços nobres do Diário do Grande ABC. Dia sim, dia sim de novo, lá está uma manchete, quando não uma manchetíssima (manchete principal de primeira página) dando o metrô (monotrilho) como a salvação da lavoura da economia regional. 

Até Sociedade Civil o Diário adicionou à tentativa de representatividade da demanda. Sociedade Civil na região é apenas força de expressão. Uma chave-mestra de ilusionismo. 

O prefeito Orlando Morando preferiu, segundo informações de bastidores, manter-se fiel a um grupo que domina o transporte rápido sobre rodas no Grande ABC, liderado pela empresária Beatriz Braga, dona da concessão do trólebus desde o fim do século passado. O monotrilho poderia comprometer a rentabilidade do trólebus. E atrapalhar as relações com a concessionária do transporte público de São Bernardo, concentrado no grupo de Beatriz Braga. 

O Diário do Grande ABC pretendia que Orlando Morando fosse o embaixador da causa junto ao governo João Doria, garante uma fonte próxima aos combatentes. Não conseguiu também porque o governador não quer colocar a mão na cumbuca da licitação do monotrilho, vencida pelo Consórcio Vem ABC durante o governo de Geraldo Alckmin. 

Muito mais que cheiro

Há mais que cheiro, há rastros de roubalheiras que teriam sido levantadas pela força-tarefa da Polícia Federal destacada para devassar a área de transporte no Estado de São Paulo. O lobista em forma de executivo Paulo Preto já está preso. Cumprirá pena de 140 anos de prisão, mas é possível que atenue o castigo com pormenorizada delação premiada que estaria em fase de gestação. 

Ao interromper o circuito de garantidor público da gestão de Orlando Morando, com sequência que parecia interminável de manchetes e notícias sempre favoráveis ao tucano, o Diário do Grande ABC coloca uma pedra no caminho de quem pretende a reeleição. 

Do outro lado da trincheira o prefeito estaria disposto a enfrentar qualquer tipo de hostilidade editorial. Ele teria pesquisas que revelariam efeitos quase que residuais da influência do jornal nos formadores de opinião. A infinidade de mídias oficiais e sociais teria fragmentado o poder outrora expressivo do Diário do Grande ABC. Nada diferente de outras publicações diárias, inclusive de grande porte das principais capitais. Os veículos tradicionais não batem à toa nas redes sociais. Descredenciá-las como fontes exclusivas de fake news faz parte do show.  

Portanto, Orlando Morando já teria medido as consequências do enfrentamento que já começou nas páginas do jornal. O titular do Paço Municipal entenderia, segundo fonte muito próxima dele, que o futuro tratará de organizar as peças do tabuleiro da disputa por espaço na mídia regional e da Grande São Paulo. E também no posicionamento estratégico que poderia ocupar diante da perspectiva de João Doria dar saltos mais altos, notadamente rumo à Presidência da República. Além do que já mantém, de governador do Estado mais importante da Federação.

Uma coleção de manchetes 

Para que os leitores desatentos não interpretem equivocadamente o ambiente regional que coloca a obra do monotrilho como salvação da lavoura econômica, repasso algumas das manchetes dos Diário do Grande ABC. São apenas algumas, porque há mais de 60 disponíveis, sempre no mesmo tom grandiloquente, salvacionista, implacavelmente definidor de que bom mesmo é o metrô que é monotrilho, não o BRT pretendido pelo governador João Doria. Leiam: 

 1º de abril: “Corredor ABD é alvo de reclamações por parte de usuários” 

 1º de abril: “Metrô ganha apoio das câmaras da região” 

 2 de abril: "Regionais do Ciesp são a favor do Metrô”

 3 de abril: “Paulo Serra pleiteia vagas em comissão da Linha 18”

 4 de abril: “Metrô impulsiona mercado de trabalho”

 5 de abril: "Trocar o Metrô pelo BRT é um retrocesso, diz Auricchio”

 6 de abril: “Dirigentes endossam campanha por Metrô no Grande ABC”

 7 de abril: “Linha 18 valoriza bairros do Grande ABC em até 70%”

 9 de abril: "Consorcio inicia debate sobre modal da Linha 18”

 10 de abril: “Consórcio aguarda Estado indicar nomes a grupo da Linha 18”

 11 de abril: “Consórcio aguarda sexto aditivo de contrato para a Linho 18-Bronze”

 12 de abril: “População do Litoral reprova ônibus no lugar de transporte por trilhos”

 13 de abril: “Monotrilho trará ganhos profissionais aos moradores”

 17 de abril: “Consórcio capacita técnicos para integrar discussões da Linha 18”

 6 de maio: "Metrô é melhor opção para 64% dos moradores de Santo André”

 8 de maio: “Trocar modal da Linha 18 será um retrocesso, diz especialista”

 9 de maio: “Estudo aponta que viário de São Bernardo é empecilho ao BRT”

 10 de maio: “Troca de modal pode inviabilizar construção de aeroporto regional” 

 11 de maio: “Monotrilho é modal com maior atração para abandono do carro”

 12 de maio: “Metrô deve aumentar PIB regional em até 1,7% por ano” 

13 de maio: “Câmara de São Caetano cobra Estado por Metrô em vez de BRT”

 15 de maio: "Consórcio aguarda convite para discussões sobre Metrô”

 16 de maio: "Câmaras da região se mobilizam por Metrô”

 17 de maio: "BRT da Capital tem intervalo médio cinco vezes maior que o monotrilho”

 18 de maio: "Futuro da Linha 18 pode parar na Justiça”

 19 de maio: "Metrô deve elevar em até 30% movimento de hotéis”

 20 de maio: "Processo para licitar obra do BRT pode levar até dois anos”

 21 de maio: “Relatório aponta demanda de monotrilho na Linha 18"

 22 de maio: "Estado admite que Linha 18 pode ir para empresa que já atua no transporte paulista”

 23 de maio: “Avenida dos Estados deve abrigar base da Linha 18”

 24 de maio: “Troca de modal da Linha 18 deixa PPPs nas mãos de único grupo”

 25 de maio: “Assembleia quer ouvir presidente do Metrô”

 26 de maio: “Indústria automotiva crê na importância do Metrô”

Falta de contraditório 

As manchetes do Diário do Grande dizem tudo sobre a importância do novo tratamento a Orlando Morando. Durante esse período, não faltaram também editoriais (espaço nobre no qual a publicação expressa posicionamento institucional) que elevaram a obra à quintessência do Desenvolvimento Econômico. 

Em nenhuma edição o Diário do Grande ABC deu espaço ao contraditório, ou seja, ao outro lado de argumentos e estudos que reduzem o monotrilho ao devido espaço de transporte típico de áreas suburbanas. E que quando utilizado em áreas mais valorizadas, causam estragos econômicos e sociais imensos. Imaginem o elevado, espécie de Minhocão de dimensões muito maiores, cortando avenidas do centro de São Bernardo?  Imaginem, só imaginem. 

Ponto do rompimento 

A data simbólica de que o Diário do Grande ABC e o prefeito Orlando Morando estão declaradamente às turras é 18 de maio, um sábado. Na página de “Política”, com destaque num fundo azul, abaixo da matéria principal que anunciava a chegada de uma unidade do SESC em São Bernardo, um título chamava a atenção: “Ao boicote do governo de S. Bernardo responderemos com mais jornalismo”. 

Raramente uma publicação adota a medida anunciada pelo Diário do Grande ABC fora do espaço de “Editorial”. A iniciativa não deixava margem a dúvidas: todas as eventuais tentativas de apaziguamento deram com os burros nágua. Vale a pena reproduzir alguns trechos do desabafo do jornal:

 O Diário precisou de esforço extra para noticiar, com o profissionalismo e a ética que lhe são peculiares, a informação da parceria entre SESC e São Bernardo. Explica-se. Os profissionais desta Casa, e consequentemente seus milhares de leitores, estão, desde o início do mês, sendo boicotados pelo governo Orlando Morando (PSDB), que decidiu vetar o envio de quaisquer dados para o jornal. Julgando-se dono da informação e acreditando que o Diário dependeria única e exclusivamente de fontes oficiais para fazer seu trabalho, o chefe do governo são-bernardense determinou aos subalternos da Comunicação que deixassem de avisar à Redação sobre a agenda oficial da administração, além de ignorarem totalmente os questionamentos feitos pela equipe de reportagem. (...).  Não é a primeira vez que este jornal entra na mira de governantes de turno. Pelo contrário. Por causa de sua independência editorial, a serviço do leitor, é bastante comum quererem-no manietado. Um ex-prefeito da região, aliás, dizia aos quatro cantos que não descansaria enquanto não fechasse suas portas. Faz dois anos e meio que ele deixou o cargo. O Diário acaba de completar 61 anos. Momento oportuno para reafirmar que, diante de mais um boicote, responderemos com jornalismo. Puro e simples – subscreveu “A equipe do Diário do Grande ABC”. 

Processo de retaliação 

No dia seguinte à publicação, em 19 de maio, o Diário do Grande ABC iniciou processo que o entorno de Orlando Morando chama de retaliação. A manchete “PT coloca peso na eleição de São Bernardo e Diadema” mostrava pela primeira vez uma obviedade que, sobretudo em São Bernardo, estamos cansados de analisar. Morando e Marinho farão o grande duelo deste século na política regional. 

Nas edições seguintes o Diário do Grande ABC seguiu com a dieta de esterilizar a importância do prefeito Orlando Morando. Uma política editorial inteiramente contrastante com o exposto nos últimos anos de lula de mel. 

Na edição de 22 de maio, ao noticiar que a Scania anunciou investimento de R$ 1,4 bi em São Bernardo, num encontro entre a cúpula da empresa, o governador João Doaria e o prefeito Orlando Morando, não se viu praticamente nada do titular do Paço. Foi ignorado na foto que ilustrou a matéria. E mencionado de forma tangencial apenas uma vez na reportagem: “Também participaram do evento de anúncio de investimentos o prefeito de São Bernardo...”. Nada mais minimizador. 

Na mesma edição, de 22 de maio, a manchete principal da Editoria de Setecidades era emblemática dos novos tempos editoriais do Diário do Grande ABC: “Falhas na marcação de consultas causam crise em S. Bernardo”. Em outros tempos a reportagem seria suprimida ou ocuparia espaço mais discreto. 

Já na última quinta-feira, dia 23, “Abandono e descaso marcam tradicional Parque da Juventude”, saltou de novo para a manchete principal de “Setecidades”, com a seguinte linha auxiliar: “Celeiro de skatistas renomados, Città di Marostica, em São Bernardo, tem equipamentos fechados e deteriorados por falta de manutenção”. 

Outra matéria da edição do dia 23, sob a manchete “MP irá apurar idade de ônibus em S. Bernardo” é mais que esclarecedora. Leiam os primeiros trechos: “O Ministério Público foi acionado para apurar suposta negligência da Prefeitura de São Bernardo sobre o fato de ônibus com idade acima da permitida pelo contrato rodarem na cidade. A peça foi protocolada pelo vereador Julinho Fuzari (Cidadania), que cita nominalmente o prefeito Orlando Morando”. Julinho Fuzari é um empedernido aliado do deputado Alex Manente. Pau para toda obra de denúncias que, invariavelmente, morrem na praia por razões sempre inexplicáveis. 

No dia seguinte, sexta-feira, 24 de maio, a manchete também não deixava dúvida sobre o que Orlando Morando vai ter de administrar: “Famílias reinvadem área verde do antigo lixão do Alvarenga”.  Um trecho da reportagem: “A promessa era que o terreno passaria por processo de remediação – a partir de 2013 – e, depois disso, receberia espécie de reserva ecológica e usina para geração de energia a partir da incineração do lixo, em 2015. Passados quatro anos, o local segue contaminado e, diante da falta de fiscalização, foi reocupado”. 

PT ganha espaço 

Na edição de ontem, domingo, num espaço nem tão destacado, mas suficientemente nobre na página de “Politica”, a manchete “Para Luiz Fernando, Morando tem medo de enfrentar Luiz Marinho” era impensável até recentemente. 

Há indicações de que Diário do Grande ABC e Orlando Morando vão proporcionar uma guerra nos próximos tempos. O prefeito se sente suficientemente protegido pelo governador do Estado. E o governador do Estado não estaria interessado em aproximar-se do jornal mais tradicional da região se o preço para tanto for manter o modal de monotrilho em forma de bomba relógio deixada por Geraldo Alckmin. 

Tudo indica, portanto, que a Administração Orlando Morando poderá caminhar para um tratamento quimioterápico do Diário do Grande ABC. As manchetes, as reportagens, os editoriais e, algumas vezes, as entrelinhas, iluminam o caminho de quem pretende acompanhar os próximos passos. 

Há outras versões sobre a animosidade entre as partes. Não faltariam questões que teriam levado ao rompimento. Mas o caso do monotrilho que virou metrô e que vai virar BRT é o mais ajuizadamente concreto segundo garantem fontes próximas. 

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