Imprensa

Ninguém topa ser acionista de
CapitalSocial. Alguma surpresa?

  DANIEL LIMA - 23/05/2019

Prometi a mim mesmo que, uma vez por ano, sempre em maio, vou reproduzir a parte mais substantiva de um texto que publiquei em 11 de maio de 2011. Trata-se de espécie de hibridismo que envolve esperança e deboche. Ou poderia ser interpretado de outra forma algo que já começa abusado no próprio título? Que título? Leiam: 

 “Quer ser acionista de CapitalSocial? Então se prepare para as cláusulas”.

Iniciei aquele artigo com a sapiência compulsória de quem já não tem tempo para perder tempo com ilusões. Reparem na franqueza obrigatória de quem conhece o pedaço regional: “Embora não acredite no sucesso da empreitada, porque há condicionantes que afastam a maioria de eventuais investidores, decidi tornar público o resultado de um assédio aqui, outro ali, sobre a possibilidade de transportar CapitalSocial à plataforma de revista impressa” -- escrevi naquele 11 de maio. 

O trecho seguinte daquele artigo explicava aquela premissa:

 Descrente da possibilidade de reunir um grupo de investidores que tenham a cidadania e a regionalidade do Grande ABC como prioridades, vou em frente nessa proposta mais como descargo de confiança. Ninguém poderá dizer que não teve oportunidade para participar de um projeto já vitorio” – escrevi. 

Plataforma digital 

Transformar CapitalSocial num veículo impresso naquele 2011 tinha muito mais sentido que hoje. Eram tempos em que a materialidade física de produtos editoriais parecia indispensável à consecução de projetos que contemplassem os interesses da sociedade como um todo, não de grupos de interesses de sempre e geralmente nada republicanos.

Hoje, entretanto, e cada vez mais no futuro próximo, as plataformas digitais vão continuar a tomar fatias relevantes de publicações impressas. A avalanche aparentemente é incontrolável. Os jornais físicos perdem mercado publicitário, perdem profissionais de jornalismo competentes e perdem credibilidade. 

Metidos a besta, os jornais impressos têm a mania de jogar no colo de terceiros digitais a bomba de fake news como que não fizessem uso sistemático desse desvio informativo. Fake news, caros leitores, se dividem em vários pedaços que são inteiros quando se pretende ludibriar os consumidores de informações. 

Ou seja: fragmentos informativos carregam estilhaços aparentemente residuais de manobras de conteúdo ilegítimo sob o ponto de vista ético; entretanto, quando se monta o mosaico do conjunto da obra editorial, tem-se o retrato do maquiavelismo que degenera os princípios do jornalismo profissional. 

Descobre-se nas redes sociais o quanto a maioria dos jornais, principalmente dos jornais, mas também das revistas, é vulnerável a contestações. Mais que isso: são duramente combatidos porque há um tiroteio fraudulento de fatos e de versões nessa guerra insana que envolve a mídia tradicional e as redes sociais. 

Reavivar propostas 

Mas não é sobre isso que vou enveredar esse texto. O que decidi mesmo é repassar as propostas que elenquei, com 16 pontos cardeais, aos eventuais e sempre fugidios investidores que poderiam participar desse projeto editorial cada vez mais consolidado no mundo digital. 

CapitalSocial, com o acervo adicional da revista LivreMercado, durante duas décadas a maior referência de jornalismo regional acima, muito acima da média, segue com característica autoral com que a concebi e da qual não abro mão. 

Aqui, neste espaço, sou escravo da coerência, não da memória. O que quero dizer com isso? Que em absoluto preciso reler diariamente ou mesmo de vez em quando as proposições para o chamamento de investidores. Todos os pontos estão imantados nas ações que desenvolvo como profissional de comunicação. Não abro mão, jamais, dos pressupostos que vou reproduzir logo abaixo. 

Custa muito caro, em todos os sentidos, manter CapitalSocial com o estofo ético e moral como que a concebi como revista digital. Não me atenho ao dia a dia da superfície de assuntos que a imprensa impressa e digital e tampouco as redes sociais exploram. A metabolização das informações, com agregado de valor, é nosso dogma. Assim o fora com LivreMercado. 

Sem expectativa 

Sigo não tendo a menor expectativa de que um dia um grupo formado por gente que quer levar o Grande ABC a um novo patamar de relações interdisciplinares se apresentará com o que se segue à mão e me contemple com uma resposta economicamente desbravadora nesta mesma plataforma digital ou no campo impresso. 

Quem topa fazer de CapitalSocial um produto que fuja do quase messianismo deste jornalista?  Vejam as propostas que apresentei em maio de 2011. Nada que não seja digno e obrigatório a algo que não existe, infelizmente; ou seja: uma sociedade que trate de valorizar-se.

 Aspectos sociais

1. Olhar permanente aos desvalidos, principalmente agentes sociais que atuam nas periferias do Grande ABC. As chamadas Madres Terezas e Freis Galvão.

2. Desprezo absoluto ao colunismo social de celebridades, uma fonte eterna de badulaques egocêntricos.

3. Construção de biografias de gente que faz o Grande ABC principalmente longe das manchetes sempre seletivas, protecionistas e compensatórias.

4. Tratamento responsável à infraestrutura social do Grande ABC.

5. Produção de reportagens e análises que desvendem e ajudem a solucionar problemas crônicos da sociedade.

 Aspectos econômicos

1. Desbaratamento completo de falsas mensagens que procuram vender a economia do Grande ABC pela ótica do triunfalismo.

2. Comedimento e equilíbrio nas questões que envolvem capital e trabalho.

3. Desenvolvimento de estudos e análises econômicas que deem suporte a políticas públicas e privadas.

4. Avaliação criteriosa de anúncios de investimentos de forma a não ser levado pela onda de interesses nem sempre claros.

5. Análise crítica de investimentos públicos e suas consequências no tecido social e econômico da região. Sem salvacionismos do tipo trecho sul do Rodoanel.

6. Reconstrução de um processo de coletivismo que tenha nas entidades empresariais e sindicais agentes de modernização das relações com a sociedade como um todo.

 Aspectos políticos

1. Menos protagonismo de siglas partidárias e prioridade total a uma agenda que valorize tanto as atividades econômicas quanto sociais e institucionais.

2. Análises eleitorais baseadas em ferramentais estatísticas confiáveis, entre outros elementos.

3. Fuga da rede de intrigas que trabalhe com subjetividades.

4. Enquadramento de informações estatísticas que deem sustentação a análises fora da órbita do governo de plantão.

5. Prioridade total a tudo que se referir à regionalidade do Grande ABC, sem deixar-se cair na rede de grandiloquências que já se provaram frágeis.

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