Esportes

Água Santa deixa de subir em
campo e quer atalho improvável

  DANIEL LIMA - 17/05/2019

Não fosse o futebol um caixote de alquimias permanentes nos bastidores, diria sem pestanejar que o Água Santa é carta fora do baralho da Primeira Divisão (Série A-1) do Campeonato Paulista do ano que vem. A vaga que até prova em contrário pertence ao Red Bull não estaria ao alcance da equipe de Diadema, como pretende o presidente Paulo Sirqueira. Há muitas alternativas, mas nenhuma viabilidade. 

Apenas porque futebol tem um jogo de bastidores muitas vezes indecifrável não cravo derrota fragorosa do Água Santa em apropriar-se fora de campo do que deixou escapar pelos vãos da soberba diante do Santo André na fase decisiva da Segunda Divisão recém-encerrada.

Disse ontem que três pontos nucleares precisariam ser analisados com todo o cuidado para consubstanciar a situação da equipe de Diadema. Acho que me enganei. Seriam quatro pontos. A considerar:

1. A intromissão na Justiça Esportiva.

2. A intromissão na Justiça Comum.

3. A negação da legitimidade da vaga conforme os desígnios do Red Bull Brasil.

4. A legitimidade da reivindicação da vaga.

Isto posto, vamos então a cada um dos pontos mencionados. Sem antes deixar de reafirmar que a direção do Água Santa, especialmente o presidente Paulo Sirqueira, parece ter dado um passo em falso, fora do tom da diplomacia adotada pela Federação Paulista de Futebol. 

Em situações assemelhadas que se colocam em dúvida alguns aspectos originários de decisões da entidade, aconselha-se que se procure a direção máxima para tratativas que não causem ruídos. Não foi o que o Água Santa decidiu fazer. Ou se o fez, não deu o resultado esperado, daí partiu para o ataque. Não acredito nessa segunda versão, embora também não duvide fervorosamente. O Água Santa não é flor que se cheire em bola dividida. 

Talvez o dirigente da equipe de Diadema tenha perdido a paciência no debate em torno da vaga na Primeira Divisão. A FPF tem tolerância quase extravagante a respeito do assunto. Prefere jogar com o tempo. E o tempo limite é o Conselho Técnico, previsto para setembro-outubro. Até lá há muita lenha de expectativas a queimar. 

1. Sobre a intromissão na Justiça Esportiva.

Duvido que o Água Santa, regulamento em punho, encaminhe algum recurso à Justiça Esportiva. Se o fizer, vai ajudar tremendamente o São Caetano. Para garantir a vaga precisará convencer aquele tribunal sobre dois vetores que se complementam e compulsoriamente eliminam o pretendente. 

O primeiro trataria de eventual ilegalidade de o Red Bull consumar a negociação da vaga com um dos muitos clubes interessados. Sim, há mesmo muitos clubes decididos a seguir a trilha da produtividade esportiva e cortar o caminho semelhantemente ao Red Bull para chegar à Série B do Campeonato Brasileiro travestido de Bragantino. 

Há muito dinheiro em jogo. E mesmo que o Água Santa prove que focinho de porco não é tomada, terá de, em seguida, sensibilizar os julgadores a respeito do regulamento que supostamente o premiaria.

2. Sobre a intromissão na Justiça Comum.

O presidente do Água Santa, em entrevista ao Diário do Grande ABC, abordou enfaticamente o que seria um desrespeito à meritocracia caso o Red Bull leve vantagem ao preencher a vaga na Primeira Divisão de São Paulo com base em negociação financeira com um parceiro. O dirigente deveria ler com mais cuidado e atenção o regulamento das competições esportivas no País. Há encaminhamento legal no mundo esportivo, ditado pela FIFA, de que quem se meter a besta na Justiça Comum adentro, será severamente punido. Coisas do futebol são resolvidas na esfera do futebol. 

3. Sobre a negação da legitimidade da vaga conforme os desígnios do Red Bull Brasil.

É muito tênue a fronteira legal que confirmaria ou impediria a transferência da vaga do Red Bull a quem oferecer melhor proposta financeira. O Red Bull pode simplesmente seguir como dono da vaga caso insumos das negociações com o Bragantino sejam tão bem amarrados a ponto de ultrapassar essa dificuldade regulamentar. 

Nada impediria o Red Bull de permanecer com personalidade própria na Série A-1 de São Paulo caso prove que a parceria com o Bragantino no Campeonato Brasileiro não opõe resistência legal.

Se a ação do Red Bull em composição com o Bragantino está definida como algo semelhante ao que a Parmalat executou com o Palmeiras, ou seja, como patrocinadora, o que não é muito diferente do que a Crefisa mantém com o mesmo Palmeiras, nada impediria aquele clube empresarial de atuar no Campeonato Paulista com identificação própria, mas com o patrocínio de algum grupo de empresários que tenha relações ou não com algum time de futebol. 

Portanto, o Red Bull poderá ser no Campeonato Paulista o que é o Bragantino no Campeonato Brasileiro. Manda no primeiro caso porque pagou para tanto em contrato privado e seria mandado no segundo caso também em decorrência de contrato privado. 

Sei que é difícil explicar essa alternativa, mas recorro a um exemplo que durante cinco anos se instalou no Santo André. Naquele período, o Esporte Clube Santo André foi comandado de fato e de direito pelo Saged, empresa formada especificamente para gerenciar o futebol. O Santo André seguiu oficialmente como representante esportivo na competição, porque era detentor da vaga na Série A-2 do Campeonato Paulista. O presidente Jairo Livolis assinava todos os papeis oficiais junto a entidades esportivas, mas quem comandava para valer a equipe era a direção do Saged, liderada por Ronan Maria Pinto, dono do Diário do Grande ABC. 

Se o mesmo grupo de empresários que assumiram o controle contratual do Santo André decidisse envolver-se com outra equipe naquelas mesmas condições jurídicas, ou mesmo se assumisse a direção dessa mesma equipe dentro das condições esportivo-estatutárias, não haveria como impedir a duplicidade de atuação. 

O que o Red Bull não pode fazer na Primeira Divisão Paulista do ano que vem, porque perderia o direito à vaga, é sair juridicamente da competição em favor de outra equipe. O CNPJ identificatório do Red Bull não pode ser substituído, como não o foi o CNPJ do Bragantino na Série B do Brasileiro. A saída, portanto, para fugir da armadilha da ilegalidade, é associar-se e delimitar as responsabilidades de cada lado.  

Se o Osasco/Audax de Osasco decidir mesmo comprar a vaga do Red Bull no Campeonato Paulista, como tanto se fala, terá de se contentar com a identidade do Red Bull. Aliás, por ter comprado a vaga do Grêmio Osasco no futebol paulista, o Audax identifica-se como complemento da denominação daquela equipe. O Red Bull não o faz em relação ao Bragantino na Série B do Brasileiro porque a incorporação será gradual. Tanto que segue a participar de competições de divisões de base da Federação Paulista de Futebol. 

Há muitos outros exemplos que poderia citar para transmitir a ideia concreta de que o Água Santa vai encontrar dificuldades enormes se tentar inviabilizar juridicamente a participação formal do Red Bull na competição. 

Há uma banda larga a dar consistência à viabilidade de o Red Bull seguir na Primeira Divisão Paulista como protagonista ou coadjuvante da vaga que detém. 

Só existiria mesmo uma alternativa à abertura da vaga na Primeira Divisão: que o Red Bull simplesmente desistisse da competição porque assim estaria satisfeitíssimo com a parceria com o Bragantino e não se sensibilizaria com alguns milhões de reais que já lhe ofereceram. 

4. Sobre a legitimidade da reivindicação da vaga.

Exceto para uma maioria mal informada, incapaz de ler o regulamento com isenção e discernimento, é inteiramente improvável que o Água Santa, vencida a batalha contra o Red Bull, se acomode como 16º integrante da Primeira Divisão do ano que vem, após colocar-se em terceiro lugar na Segunda Divisão. 

O regulamento é de clareza meridiana: sobem apenas as duas primeiras equipes classificadas da Segunda Divisão. Uma terceira classificada entre os quatro semifinalistas seria contemplada com a Primeira Divisão desde que um dos dois primeiros colocados da competição desistisse do acesso. Ou seja: vagas de verdade são duas. Nada mais. 

Qualquer interpretação diferente é sabotagem contra os potenciais direitos do São Caetano, penúltimo colocado na Primeira Divisão, rebaixado dentro de campo, mas que pode ser salvo com a desistência ou inviabilidade de o Red Bull seguir na competição. 

O presidente do Água Santa fala tanto em meritocracia, e o faz com razão no sentido de que a bola deve premiar mesmo quem tem méritos obtidos dentro de campo. Só não pode esquecer que méritos obtidos dentro de campo estão vinculados ao regulamento da competição da qual faz parte, não de competição alheia, caso da Primeira Divisão. Portanto, está completamente equivocado sobre as razões que alimentariam as pretensões de ocupar a vaga que seria deixada pelo Red Bull. 

Não custa nada o presidente do Água Santa ler e reler o Artigo Nono, Parágrafo Primeiro, do regulamento da Série B do Campeonato Paulista. E boa parte da Imprensa também.  Quanto aos dirigentes que decidem na Federação Paulista de Futebol, não creio que a sugestão deve ser levada adiante. Eles sabem a criatura que pariram. Uma criatura saudável, desde que não lhe injetem alguma substância que a transformaria em monstro de ilegalidade. 

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