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Vaga da discórdia: RBB pode
colocar ponto final com venda

  DANIEL LIMA - 24/04/2019

Não faltaram e não faltarão bobagens ingênuas e bobagens eticamente condenáveis produzidas por gente que não se deu ao luxo de ler o regulamento para se posicionar sobre a possibilidade de ocupação de vaga na Primeira Divisão (Série A-1) supostamente aberta pelo Red Bull Brasil, após incorporar o Bragantino.

A cada santo dia surge uma nova-velha informação, enquanto a direção da Federação Paulista de Futebol, cuidadosíssima, prefere jogar com o tempo.

O Água Santa é a peça móvel da vez para roubar os direitos regulamentares do São Caetano.

É verdade que por ser o Água Santa o que é, e todo mundo sabe o que é o Água Santa, mas ninguém tem garantias do Estado para escrever o que deve ser escrito aos consumidores de informações, a pressão em favor da roubalheira regulamentar diminuiu.

Enchendo a bola

Fosse qualquer time do Interior, representadíssimo em determinados sites que enchem a bola de todo mundo porque encher a bola de figurantes e protagonistas do futebol é uma missão mais que explícita, haveria muito mais gente disposta a fabricar alucinações interpretativas.

Ainda vou escrever mais e mais sobre esse assunto porque não há indicativo algum de que mesmo com o Água Santa sendo o que é, e principalmente porque dançou dentro de campo depois de desempenho invejável na faz de classificação, dificilmente haveria recuo à sanidade mental desejada para quem lidar com informação.

Quem ousa contestar a clareza do regulamento, sobretudo do Artigo Nono e do Parágrafo Primeiro, ingressou naquele espaço sideral de malucos extremistas que chegam ao estágio de ver que aquele animal que late sem parar é uma galinha. Quando se chega a esse quadro de embaralhamento cognitivo, não há remédio que resolva.

Extremo do extremismo

Talvez o extremo desse extremismo seja os normais entenderem que estão enganados, porque a força coercitiva de informações inconsistentes pode chegar ao paroxismo de fazer da mentira verdade.

Discutir a legitimidade de o São Caetano seguir na Primeira Divisão por conta da mediocridade em campo é tão estúpido quanto justificar um assassinato a sangue frio porque a vítima ousou ofender o criminoso. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Mas os sabichões éticos mentalmente alucinados nem desconfiam disso.

Na verdade, são sabichões éticos de araque porque fecham os olhos, ouvidos e tudo o mais para ignorar o negócio envolvendo o Red Bull e o Bragantino, uma trama que levou o time empresarial à Série B do Campeonato Brasileiro sem estar habilitado numa das quatro divisões nacionais. O Red Bull incorporou o Bragantino por R$ 45 milhões e assumirá o controle total da agremiação em cinco anos. Nada que o impede de mandar e desmandar desde já, como se observa no noticiário, embora os dirigentes dos dois clubes tenham anunciado ontem que o Red Bull será apenas patrocinador da equipe na Série B do Brasileiro que começa nesta sexta-feira.

Processo cuidadoso

Na verdade, iniciou-se processo cuidadoso de absorção societária cujas filigranas jurídicas ainda são desconhecidas, embora não possam camuflar a maquinaria estratégica que se condensa exatamente no salto quádruplo na hierarquia do futebol brasileiro.

De qualquer modo, no caso do regulamento da Segunda Divisão Paulista, criou-se gambiarra interpretativa tão devastadora à lucidez que não falta quem tenha comprado a ideia de que uma terceira vaga seria transposta à Primeira Divisão.

Gente de leitura apressada nestes tempos de mídias múltiplas perdeu a capacidade de reflexão. As redes sociais, principalmente, industrializam versões e declarações de dirigentes da Federação Paulista de Futebol como forma de induzir um desenlace que desmoralizaria a própria FPF.

O terceiro colocado em pontos gerais entre os dois finalistas com direito a acesso à Primeira Divisão só chegaria ao topo do futebol de São Paulo se um dos dois primeiros classificados (Santo André e Internacional de Limeira) desistir do acesso. Ignorantes que leem o Parágrafo Primeiro esquecem de ler o Artigo Nono, que condiciona os limites de independência deliberativa do acesso à Primeira Divisão.

Questão de autonomia

Nenhum deputado estadual tem autonomia para decidir a sorte dos paulistas caso decida invadir a jurisdição legal do Congresso Nacional. A Primeira Divisão é o Congresso Nacional do futebol paulista. Não à toa chama-se Divisão de Elite. 

Quando escrevo sobre esse assunto remeto a memória aos tempos já longínquos em que denunciava com base em dados irrefutáveis a desindustrialização já preocupante do Grande ABC. Enfrentei adversários tão obtusos quanto nesse caso. A diferença entre uma causa e outra, reconheço, é que quanto à desindustrialização não houve jeito de a semântica estar certa. No caso específico do futebol, a solidez do regulamento pode parecer insuficiente diante de pressões irracionais ou delinquenciais. 

Se querem saber, no fundo no fundo acho que não existirá vaga alguma a preencher no sentido regulamentar exposto. Por mais complicadas que sejam as questões envolvendo o Red Bull no desvencilhamento da vaga por conta do negócio com o Bragantino, o clube multinacional dará um jeito de, pressionado aqui, pressionado ali, fazer um arranjo com algum clube endinheirado e ceder o espaço na elite do futebol paulista. Isso ficou evidenciado nas declarações de um dirigente daquela multinacional esportiva.

Bases legais?

Resta saber, entretanto, se haverá bases legais para tanto. Tenho elementos jurídicos que bombardeariam eventual negociação, mas esse não é o momento para exposições. Se a FPF não tem pressa, porque teria eu?

Aliás, não é só a Federação que não tem pressa. O Red Bull também não, já que teve adiada para o ano que vem, por razões não explicadas, a incorporação legal que se previa para a Série B do Brasileiro que vai começar.

Ora, se oficialmente não pode ser Red Bull Bragantino ou algo semelhante, mas apenas a exposição de uma marca como patrocinadora da equipe de Bragança Paulista, tal qual a Parmalat nos tempos de Palmeiras, algo impeditivo legal ocorreu.

E que será superado nos próximos meses de decantação legal do negócio, iniciando-se a fusão ou algo que o valha na próxima temporada. Com tempo suficiente para o Red Bull vender o espaço que ocupa na Primeira Divisão de São Paulo, porque redundante, já que estaria acoplado ao Bragantino, que já tem seu espaço na divisão.

Resta saber como vai ser esse leilão em torno da vaga excedente. E, repito, os contornos legais dessa substituição.

Vácuo histórico

Jamais houve nada semelhante na história do futebol paulista e brasileiro, embora alguns desinformados já tenham recorrido a falsas premissas para criar uma jurisprudência esportiva de araque.

O ineditismo deve estar a queimar as pestanas dos dirigentes do Red Bull e também da Federação Paulista de Futebol, que tem todo o interesse do mundo em coordenar mesmo que nos bastidores esse troca-troca que poderia significar um novo salto hierárquico cabeludo no futebol.

É claro que nada parecido com o salto quádruplo do Red Bull no calendário do futebol brasileiro. Ou algum clube da Quarta Divisão de São Paulo estaria pronto para algo tão extraordinário?

No fundo, o Red Bull está encalacrado. Já está certo e definido que tomou o corpo físico do Bragantino, que é o Bragantino em campo, mas que ainda falta tomar o corpo legal para que as bases do negócio não sejam contestadas. E isso vai ocorrer nos próximos meses. Aí, terá de entregar a vaga na Série A Paulista.

O risco é a parceria que se teria de realizar, porque a simples substituição incorreria em irregularidade regulamentar. O Red Bull do próximo Campeonato Paulista terá de renunciar à vaga de forma direta e, portanto, sem parceria, ou então permanecer com a vaga abrindo mão da operação. Tal qual o Bragantino na Série B do Brasileiro.

No primeiro caso, o São Caetano permaneceria na Primeira Divisão Paulista, porque a desistência do Red Bull significaria rebaixamento previsto no regulamento.

No segundo caso, o Red Bull teria de arcar com eventuais consequências administrativas do clube ao qual se associaria por conta de monetização da vaga da discórdia.

Mas, mesmo assim, essa segunda alternativa estaria condicionada à formulação legal do negócio com o Bragantino.

Se até a realização do Conselho Técnico da Primeira Divisão Paulista,  em setembro ou outubro deste ano,  o Red Bull virar para valer Red Bull Bragantino, compulsoriamente estará impedido de disputar a Primeira Divisão Paulista diretamente ou em nova parceria. A FIFA proíbe que uma mesma agremiação ocupe mais de uma vaga na mesma competição.

Como se observa, muita água há de passar sob essa ponte de complexidades jurídicas até que o Conselho Técnico da Primeira Divisão seja realizado.

O noticiário de ontem proporcionado por dirigentes do Bragantino e Red Bull teria, portanto, derivado de uma manobra estratégica desses parceiros. Que tipo? Segurar a incorporação do Bragantino pelos próximos meses até que o Red Bull se locuplete da venda da vaga na Primeira Divisão Paulista.

Uma medida que em nada prejudicou os planos do Red Bull no Campeonato Brasileiro, porque sua marca estará estampada na camisa do Bragantino e provavelmente a imprensa tratará de chamar de Bragantino RB um dos representantes paulistas na Segunda Divisão do Nacional.

O que não seria contraproducente porque de fato, para valer, o Red Bull já tornou o Bragantino tradicionalmente um clube comunitário apêndice de clube empresarial multinacional.

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