Sociedade

Atleta de Deus no
exercício da fé

  VANESSA DE OLIVEIRA - 05/01/2003

Quando o cardeal-arcebispo de São Paulo Dom Cláudio Hummes foi nomeado para o cargo, há seis anos, deixou em seu lugar não apenas outro bispo, mas um general da fé. Não que Dom Décio Pereira recorra a armas para impressionar fiéis. Tampouco atribui à voz cadenciada e de dicção irrepreensível o poder de preservar na Igreja Católica a unidade na diversidade. Mas esse senhor de 62 anos — 35 só de sacerdócio — se agiganta quando a pauta é religião. Dom Décio não se intimida nem mesmo quando a própria CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) antevê momentos difíceis porque, apesar da democracia e dos propalados direitos humanos, a sociedade parece saber menos o que exigir da instituição. 

Na contramão da crise de valores que acomete as principais entidades do País, o sucessor do ex-bispo gaúcho Dom Cláudio Hummes se arvora do lema ut vitaem habeant — para que todos tenham vida — desde que atendeu ao chamado divino aos 11 anos. E foi imbuído desse espírito que se despediu da comunidade paulistana do Bairro Belém, onde nasceu, foi batizado, crismado e ordenado padre em 1967, para em 1997 tomar posse como o terceiro bispo da Diocese de Santo André, que congrega todo o Grande ABC. Da missa de adeus na Igreja de São Paulo Apóstolo, revive um dos momentos inesquecíveis. Um grupo de crianças do Colégio Doutor Antonio de Queiroz Teles, onde o bispo estudou da 1ª à 4ª série, o presenteou com a ata das provas finais da época, acompanhada de uma lista com nomes de professores e colegas do passado. Considerado ótimo aluno com sua média final 98, Dom Décio revela ser dono de memória invejável ao recordar da primeira professora, Elvira Verri. Dom Décio é formado em Filosofia pelo Seminário Central de Aparecida e em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, na Itália. 

O fato do antecessor Dom Cláudio ser cotado como um dos candidatos à sucessão papal poderia impressionar missionários de menor envergadura. Mas não é o caso de Dom Décio, operário da fé que cedo conheceu a tragédia e a injustiça social. Aos quatro anos, viu a mãe, Zilda, morrer com leucemia. Dois anos mais tarde, perdia o pai, Henrique Pereira, tragicamente morto em acidente de trabalho em uma caldeiraria. Se a máxima de que a vida imita a arte sempre fosse seguida à risca, provavelmente esse neto de imigrantes portugueses não teria optado pela carreira religiosa para corrigir injustiças. Embora católicos praticantes, ninguém na família havia demonstrado qualquer vocação religiosa. “Da infância como órfão não tenho mágoas. Fui muito bem criado pelos meus avós maternos, Piedade e Manoel, e por quatro tios que foram como irmãos, já que eu era filho único” — recorda emocionado. Apenas lamenta o fato dos avós não terem assistido sua ordenação como bispo, o avô por falecimento e a avó porque não pôde ir a Roma. 

A perseverança, em alguns confundida com teimosia, faz parte do temperamento do bispo diocesano do Grande ABC. E talvez seja esse traço, aliado ao fato de respirar religiosidade 24 horas, o vetor que o move no comando de 89 paróquias. Para ajudar a Igreja a conduzir o rebanho de 125 milhões de católicos no País, de acordo com o IBGE, mesmo em tempos inglórios o bispo da Diocese de Santo André faz uso do pulso firme sem abrir mão do carisma largamente empregado no exercício da fé. O fato de ser designado para um Grande ABC onde a igreja durante bom tempo apoiou o movimento operário não intimidou o bispo de perfil mais conservador. Inútil querer classificá-lo entre os adeptos da Teologia da Libertação, da liturgia dançante dos carismáticos ou do clero progressista. Dotado de sensibilidade social, Dom Décio tenta não realçar no corpo eclesial um membro em detrimento do outro. “Quando cheguei, fui pessoalmente visitar todas as paróquias durante dois anos e em 1999 lançamos o Ano Missionário, apelo para que as comunidades não atuassem isoladamente” — acentua. 

A veia social o acompanha desde a passagem pela Paróquia Imaculado Coração de Maria, em Perdizes, na Capital, em meio aos anos de chumbo em que os militares, no governo desde 1964, atropelavam tentativas de organização oposicionista e a Igreja Católica era uma das poucas vozes dissonantes. Na época em que o presidente-general Emílio Garrastuzu Médici mandava no País, Dom Décio, então pároco, lecionava na PUC Programas Filosóficos e Teológicos do Homem Contemporâneo e vivenciou as invasões dos militares na universidade, em represália ao movimento estudantil. “Uma vez um delegado me confidenciou que eu fôra fichado no Dops. Igrejas eram depredadas, pessoas presas e torturadas, todos eram suspeitos como subversivos” — declara. O Dops (Departamento de Ordem Política e Social) foi criado com a missão de manter sob controle as ações dos cidadãos e tinha como alvo principal o comunismo.

Entre as aulas e a paróquia, o bispo coordenava um trabalho social com menores de rua. Através da ação batizada de Aprocima (Associação Promocional Coração Imaculado de Maria), alugaram um imóvel no Jardim Princesa, um dos rincões da pobreza na Zona Leste paulistana. No local, jovens carentes recebiam reforço escolar, alimentação, banho quente e estudavam artesanato, pintura e música. O espaço funciona até hoje. Antes de Perdizes, o religioso recebeu o batismo de fogo no santuário da Penha, famoso centro de peregrinação que atendia fiéis de todo o País. A rápida incursão pelo magistério teve continuidade com a nomeação para a catequese de São Paulo e em seguida atuou como chanceler na Cúria Diocesana de São Paulo, cargo que exigia função mais burocrática. Logo depois, Dom Décio foi escolhido para ser um dos bispos auxiliares que ajudariam o então arcebispo na época Dom Paulo Evaristo Arns a tornar a igreja de São Paulo mais evangélica, servidora e promotora dos menos favorecidos, incentivando os movimentos sociais.

Quem o acompanha no dia-a-dia descobre que somente alguém movido por um dom sobrenatural é capaz de tamanha disposição. A rotina de Dom Décio começa às 5h30 da manhã, com meia hora de esteira, hábito incorporado após sérios problemas de saúde no ano passado que o afastaram por um semestre do cargo. O homem que sempre priorizou o espírito teve de dar um pouco mais de atenção ao físico. Passado o susto, Dom Décio voltou mais firme do que nunca. Depois da ginástica e do rápido café da manhã, celebra a missa das 7h na Igreja do Carmo e mergulha na administração da Cúria até a hora do almoço. Trinta minutos de descanso após a refeição do meio-dia e lá vai novamente o religioso, de volta à Diocese e a inúmeros compromissos que se prolongam muitas vezes até tarde. 

50 anos de Cúria — Se alguém imagina que com isso o bispo sexagenário pensa em desacelerar, se engana. Um dos milicianos que encabeça a megacampanha da CNBB Mutirão Nacional Contra a Miséria e a Fome, Dom Décio relembra o sociólogo morto Betinho, um dos principais combatentes de uma das mais cruéis formas de opressão: a fome. A ação da CNBB vem ao encontro da prioridade social número um do presidente eleito Luís Inácio Lula da Silva. “Já prevíamos a vitória da esquerda por causa da reação do povo. É uma resposta contra a pobreza e o desemprego. O povo é sábio” — filosofa. 

Neste 2003 começam os preparativos do Ano Jubilar em comemoração ao cinqüentenário da Cúria de Santo André, além da campanha da fraternidade cujo foco será o idoso. A ação integra uma série de diretrizes que fizeram parte do relatório secreto entregue neste mês ao papa João Paulo II durante a visita episcopal que ocorre a cada cinco anos e da qual Dom Décio fez parte. Escritor nas raras horas vagas, autor do livro de crônicas Eu Te Louvo, Pai, Dom Décio guarda 15 cadernos com poemas e crônicas do tempo de seminário, hobby que pretende retomar, quem sabe, com a aposentadoria obrigatória aos 75 anos. Até lá, se o papa deixar, é claro, não pretende abrir mão de pastorear seu fiel rebanho no Grande ABC.

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