Economia

São Bernardo perde famílias
de ricos e industrializa pobres

  DANIEL LIMA - 22/04/2019

Perdas, perdas e mais perdas. O novo século iniciado em 2000 é uma sucessão de infortúnios para o Grande ABC. E São Bernardo lidera escandalosamente a derrocada que já se dera nas duas últimas décadas do século passado. Entre 2000 e 2019 (ironicamente, período comandado no governo federal pelo petismo que emergiu na região), São Bernardo viu desapareceram 7.763 famílias de classe rica, enquanto, na contramão da mobilidade social, 33.014 famílias engrossaram a lista de pobres e miseráveis. 

Em termos relativos, São Bernardo perdeu escandalosos 41,24% das famílias ricas e ganhou um presente de grego de 119,80% de crescimento de deserdados. Quer um conselho? Volte à leitura do parágrafo que acabou de acabar. Não há engano numérico-estatístico. Há descaso sobretudo dos administradores públicos que passaram pelo Paço Municipal – e das autoridades públicas estaduais e federais de maneira geral. 

Quem tiver a curiosidade de perguntar a algum agente público da região alguma coisa que diga respeito a problemas superlativos da economia local terá como resposta um impactante silêncio. A explicação é simples: os gestores públicos de hoje e do passado (exceto Celso Daniel) não estão nem aí com o futuro econômico da região. Eles se perdem no varejismos que a Imprensa descuidada adora porque dá manchetes, embora precárias. 

Rabo de foguete 

Eles sabem mesmo é correr atrás do rabo do foguete de uma montadora aqui que decide fechar as portas ou de uma montadora ali disposta a também fechar as portas. As pequenas e médias indústrias que se danem, porque não têm visibilidade marquetológico. 

Um monotrilho transformado em metrô é apenas um sintoma da dislexia do ambiente de engana-que-eu-gosto que virou tradição na região. E quem ousa denunciar é perseguido, quando não criminalizado. 

A situação econômica de São Bernardo de avanço dos desvalidos e de enxugamento da classe rica que não é tão rica assim está exposta na nova rodada anual da Consultoria IPC, do pesquisador Marcos Pazzini. Os dados formam o Índice de Potencial de Consumo, calhamaço que agrega múltiplas fontes primárias da União. 

A Consultoria IPC atende a centenas de prefeituras, empresas e organismos estatais no País. Potencial de Consumo é Poder de Consumo. Significa o que cada localidade tem de acumulado de riqueza ao longo dos tempos. E por isso mesmo deve ser avaliado também levando em conta a cristalização dos tempos. 

Movimentos sazonais não são recomendáveis para se construírem teorias. O Grande ABC, e particularmente São Bernardo, é um Titanic em potencial.  

Nada semelhante 

Estou vasculhando os dados da Consultoria IPC e não encontro nada a rivalizar com a situação de São Bernardo em qualquer canto do País cuja economia seja relevante. Perder tantas famílias de classe rica e ganhar tantos pobres e miseráveis significam duplo prejuízo. 

Mas nada surpreendente. Há muito tempo venho escrevendo que a mobilidade social na região, sobretudo em São Bernardo, virou sucata de teorias acadêmicas mal-ajambradas.   

Miserável virar pobre, pobre virar classe média baixa, classe média baixa virar classe média-média, classe média-média virar classe rica é uma corrente para a frente que particularmente São Bernardo não serve como exemplo. 

Bem diferente do passado de industrialização centralizada nas montadoras de veículos. Tempos em que o Grande ABC deitava e rolava no setor. Ditava regras. Impingia direitos trabalhistas adicionais e privilegiados que o Brasil inteiro pagava. A biruta virou com a descentralização produtiva.

Inoperância histórica 

Vou deixar os dados dos demais municípios do Grande ABC para outro texto, assim como comparações com os municípios mais ricos do Estado de São Paulo, que formam o G-22. 

O foco é a badalada São Bernardo. A ficha ainda não caiu para seus dirigentes públicos. Eles não sabem o quanto são inoperantes ao não promoverem um choque de transformações. Saborearam uma mentira travestida de verdade, a de que o trecho sul do Rodoanel seria uma benção. Virou uma maldição para o setor de transformação. Uns poucos foram beneficiados com o traçado. A maioria dançou o tango. E caiu fora.  

Se entre as famílias de classe rica São Bernardo viu o estoque murchar em 7.763 moradias, no Grande ABC como um todo, inclusive São Bernardo, a perda durante as duas últimas décadas somou apenas 791 unidades. Ou seja: não fosse São Bernardo, Capital Econômica da região, o Grande ABC teria registrado saldo positivo. 

De qualquer modo, o congelamento geral de famílias de classe rica já é um caso a ser estudado. A mobilidade social em direção ao topo da pirâmide se esvaiu neste século de perdas cumulativas do PIB (Produto Interno Bruto), espécie de parente muito próximo do Potencial de Consumo da Consultoria IPC. 

E, entre as famílias de pobres e miseráveis, como se comportou São Bernardo neste século em relação à média dos demais municípios do Grande ABC?

Muito mais desvalidos 

O estoque dos desvalidos em 1999 (base dos estudos da consultoria) totalizava 150.002 famílias. Os dados desta temporada apontam que agora são 195.686 de um total regional de 948.800 residências. 

São Bernardo conta com 60.571 das quase 200 mil famílias de pobres e miseráveis. Internamente, ou seja, dentro do próprio Município, são 21,3% desses representantes, um pouco abaixo da média regional. Mas a situação foi muito melhor porque o estoque dos deserdados em São Bernardo cresceu 119,80% neste século (de 27.557 para 60.571) Muito acima da média regional. 

Em 1999 o Grande ABC registrava 150.002 pobres e miseráveis e agora, em 2019, são 195.686. Uma variação de 30,45%. Um terço, portanto, da variação de São Bernardo. Se São Bernardo for retirada da conta do Grande ABC, a diferença será ainda menor.  

Menos 60,80% de ricos 

Por qualquer ângulo que se observe a discrepância e a gravidade dos dados de acúmulo de riqueza de São Bernardo neste século haverá sempre um grito de exclamação, ou melhor, de estupefação. 

Ainda sobre ricos e pobres, em 1999 São Bernardo registrava que a cada 100 moradias, 9,95 eram de famílias de posses no topo da pirâmide social. Neste ano, são apenas 3,90%. Uma queda de 60,80%. Uma brutal diferença. Não fosse a Capital Econômica da região, com 40% do PIB, a inquietação se circunscreveria à própria cidade. São Bernardo é espécie de metástase que se alastra pelo debilitado corpo regional. 

São consideradas famílias ricas nos estudos da Consultoria IPC domicílios com renda mensal de mais de R$ 23.345,11. Pobres e miseráveis recebem até 0,80 salário mínimo, ou R$ 708,19. 

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