Imprensa

Vai começar 1999. É melhor
se preparar para o melhor

  DANIEL LIMA - 22/04/2019

Vamos iniciar na edição de amanhã a recuperação do ano de 1999 do melhor jornalismo regional que o Brasil já produziu. Vou dar sequência à coleção imperdível da revista LivreMercado com mais um capítulo de uma série que só vai terminar quando acabar e não tenho a menor ideia de quando vai terminar porque não sei até onde vou. 

Trocando em miúdos: quem não viveu aqueles tempos, que agora não passam de 20 anos de intervalo de completo desconhecimento, ou quem viveu e precisa refrescar um passado importantíssimo, que passe colírio nos olhos para suportar a massa de novas análise que virão. É preciso ser um atleta visual e cognitivo para entender o que virá. E se preparar melhor para o futuro que já chegou.

Colocar à disposição dos leitores todo o núcleo conceitual da revista LivreMercado é o mínimo que minha função profissional exige. Entenda-se por núcleo conceitual as matérias que selecionei sob alguns prismas editoriais em caráter de certa emergência para consulta permanente dos leitores. 

Na temporada de 1999 que se inicia amanhã teremos 170 matérias de um total superior a 600 que foram publicadas na revista LivreMercado.

Direto ao consumidor 

O critério central que me orientou a selecionar as matérias que virão a conta-gotas porque é assim que será possível saboreá-las, deriva do interesse mais amplo da sociedade consumidora de informações. 

LivreMercado era um produto amplo já naquele final de século e se tornou ainda mais diversa sem perder o foco econômico nos anos que se seguiram. 

Observarão os leitores que, desatentos, não registraram as transformações de LivreMercado nos anos anteriores, já capturados nestas páginas: a Economia sempre foi o abre-alas editorial. 

Por conta de uma visão que jamais se fixou exclusivamente no desenvolvimento econômico em sentido estrito, demos plasticidade temática àquela publicação e surpreendemos a todos com uma articulação rumo ao social que desembocou inclusive em premiações que contemplaram mulheres da periferia do Grande ABC, chamadas de Madres Terezas. 

Aliás, sobre isso, para se ter a percepção do significado de LivreMercado como produto diferenciado, busquem nos arquivos das principais revistas do País e mesmo internacionais e comparem se em alguma havia espaço físico-editorial permanente para agentes sociais? E também para cases governamentais e não governamentais que tratavam diretamente de ações em defesa dos desvalidos? Fomos criticados por alguns obtusos porque decidimos colocar essas instituições no palco editorial. 

Tripé temático 

Por enquanto, não estão no foco de transferência do acervo de LivreMercado para CapitalSocial textos voltados a questões sociais que se tornaram tradição. Ao desenhar o processo de enriquecimento do acervo de CapitalSocial com o legado de LivreMercado me preocupei essencialmente com aspectos ligados à Economia, à Sociedade e à Administração Pública, guarda-chuva de regionalidade que nos move. 

Esse trio temático esquadrinha em larga escala o espectro reformista de LivreMercado. Somente os leitores que tiveram acesso ao passado de LivreMercado se surpreendem com o presente de CapitalSocial. 

A única diferença entre as duas publicações é que a impressa que encerrou atividades em dezembro de 2008 era coletiva, com vários profissionais, e desde janeiro de 2009 CapitalSocial é autoral, feita pelo formulador do projeto vitorioso de LivreMercado.

“História do melhor jornalismo regional do País”, como se idêntica esta série, não é um slogan de marqueteiro em busca de mistificação. É a prova provada de que, mesmo numa Província, é possível fazer o melhor jornalismo possível. Basta não ter Complexo de Gata Borralheira. Como assim? 

Gataborralheirismo puro 

Vou contar um a historiazinha breve sobre Complexo de Gata Borralheira no jornalismo regional, cujo berço esplêndido é o Diário do Grande ABC. A alegria dos diretores do jornal era contar aos amigos que haviam perdido mais um profissional para jornais da Capital. Seria a prova de que o Diário do Grande ABC era uma fábrica de talentos. 

Não era necessariamente nada disso. O jornal perdia profissionais porque não conseguia competir com o mercado paulistano nos bons tempos de jornalismo impresso. O jornal também perdia profissionais porque muitos profissionais formados na região, sobretudo na Metodista, consideravam o máximo ter a carteira profissional assinada por uma empresa de comunicação da Capital.

Ou seja: talentosos ou não, os profissionais batiam as asas porque a Província do Grande ABC não era uma boa companhia no currículo. Houve também em determinados períodos de brilho do jornalismo regional profissionais da Capital que fizeram o caminho inverso, ou seja, desembarcaram nestas paragens. Aí os motivos eram outros. Na maioria dos casos tornou-se uma maneira de driblar portas que se fecharam por motivos variados, um dos quais, o mais impactante, a greve dos jornalistas no final dos anos 1970. 

Dedetização psicológica 

Embora tenha trabalhado no Jornal da Tarde, em São Paulo, durante um tempo, muito pouco tempo, atuei durante muitos anos no Grupo Estado, especificamente na Sucursal da empresa em Santo André. E jamais fui picado pela mosca branca da Capital entre outros motivos porque não tinha e não tenho saco para suportar a Paulicéia Desvairada.

Há bom e mau jornalismo em qualquer canto. Seja a Cinderela Paulistano seja na Província do Grande ABC. Trouxas são os leitores, ouvintes e telespectadores que caem na armadilha do gataborralheirismo. Aliás, as redes sociais estão contribuindo muito para desmascarar falsos grandes profissionais, cujos desempenhos chegam a ser patéticos nestes tempos de polarização ideológica emburrecedora.

O que quero dizer com isso é que mesmo com passagens por aqueles dois grandes jornais da Capital (o Jornal da Tarde era o melhor do período) não os coloco como peças principais de meu currículo. Tampouco o Diário do Grande ABC, a quem servi por mais de uma década e meia em dois períodos. 

Minha vida profissional não tem rupturas que pretenderia esquecer. É um amalgama do qual me orgulho muito, mas os últimos 30 anos, de LivreMercado e de CapitalSocial, são os que me rendem mais satisfação. Não porque sou o dono do meu próprio nariz, porque ninguém jamais me colocou canga; apenas porque pude e posso colocar tudo aquilo com que sempre sonhei no papel quando bem entender, do jeito que bem entender, pelado com a mão no bolso ou brincando com minhas cachorras.

Não esqueçam: 1999 começa amanhã. Qualquer comparação com os veículos que circularam na região naquela temporada seria covardia. 

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