Esportes

Santo André sobe, Água Santa
dança e São Caetano espera

  DANIEL LIMA - 22/04/2019

O Santo André está de volta à Série A-1 (Primeira Divisão) do futebol paulista, o Água Santa de Diadema dançou no esnobismo de franco favoritismo e o São Caetano rebaixado dentro de campo vai esperar o Conselho Técnico para ver o que o Red Bull vai fazer com a vaga que sobra depois de juntar-se ao Bragantino num negócio que lhe rendeu a Série B do Campeonato Brasileiro desta temporada. Eis o resumo de uma ópera que requer algumas explicações. 

Para começar, quem afirma que o Água Santa chegará à Primeira Divisão por ter feito a melhor campanha na Segunda Divisão, quando se somam todos os pontos de várias fases, tem parte de razão. 

É preciso mesmo considerar a possibilidade de eventualmente a equipe de Diadema ocupar uma vaga na Primeira Divisão. Não seria, claro, a vaga do Red Bull. Basta que o Santo André ou o Internacional de Limeira, o outro finalista da Segunda Divisão, anuncie no mesmo Conselho Técnico previsto para o fim do ano que estaria desistindo da competição. 

É isso que diz o regulamento da Segunda Divisão. Profissionais de Imprensa ignoram porque não leram o Artigo Nono, Parágrafo Primeiro. Está claro que sobem apenas os dois primeiros classificados (Artigo Nono) e que se um dos primeiros classificados entre os semifinalistas desistir da Primeira Divisão à qual se qualificaria, subiria o terceiro colocado – entre os semifinalistas (Parágrafo primeiro).  

O custo do menosprezo 

O Água Santa perdeu o acesso possível à Primeira Divisão dentro de campo em dois jogos contra o Santo André. A empáfia no primeiro jogo (“Viemos aqui achando que o jogo era fácil”, disse o zagueiro Luizão a caminho dos vestiários, com dois a zero no lombo) custou muito caro não só naquela derrota como na eliminação na semana seguinte com a vitória diante do Santo André por três a dois no Estádio do Inamar. Uma vitória inútil e que não espelha o que foi o jogo. O empate teria sido mais apropriado.

Apontado como favoritíssimo a uma das vagas por nove entre 10 dos treinadores que dirigiram as equipes da Segunda Divisão, o Água Santa perdeu a humildade e foi uma presa fácil para um Santo André muito organizado, cortante e com personalidade de vencedor. 

O mesmo Santo André que só se classificou à fase de mata-mata na última rodada, quando se instalou em sexto lugar entre os oito primeiros. O mesmo Santo André que, como há três anos, flertou com a possibilidade de ter de correr do rebaixamento nas rodadas finais. 

Depois da vitória no Estádio Bruno Daniel por dois a zero, quando poderia ter feito mais, o Santo André tratou de administrar o jogo em Diadema. E o fez com qualidade. Não se assustou com a campanha do adversário, não deixou o jogo entrar em ebulição que sempre favorece o mandante, não passou sufoco e ainda se deu ao luxo de até perder quando perder poderia por um gol, já nos acréscimos do tempo final. 

Um time com personalidade

O técnico Fernando Marchiori confirmou a fama de organizador e fez do Água Santa gato e sapato quando se leva em conta que a tendência do time da casa era ter o controle tático e técnico do jogo. Mas o Água Santa não teve. 

O Santo André não passou por sufoco. Marcou agressivamente até perder parte do fôlego, fechou os espaços defensivos quando entendia que era a melhor saída contra um adversário sem intensidade e contragolpeou de forma suficiente para não deixar o adversário empolgar-se. O Santo André reduziu e alargou os espaços quando mais lhe interessava. E soube superar inclusive os erros de posicionamento da dupla de zagueiros, por onde o Água Santa fez os gols. 

O Água Santa fez efetivamente uma campanha de campeão na fase classificatória. Fosse uma competição de pontos corridos teria comemorado o acesso com cinco rodadas de antecedência. Tanto que poupou escalonadamente vários titulares. Mas o regulamento que transforma mata-mata em nova competição estava no meio do caminho. 

Rumo ao título? 

E quem se apresentou bem melhor que os demais concorrentes nas semifinais foi o Santo André. Tanto que pode ser considerado favorito diante do Internacional. A equipe de Limeira arrancou um empate heroico de dois a dois no fim do jogo em Piracicaba com o XV, e venceu nas cobranças de penalidades máximas. Os quatro primeiros colocados da fase de classificação ficaram no meio do caminho. 

Mata-mata é um sistema que fabrica surpresas. Não faltam exemplos de times que chegam aos tropeços entre os classificados à etapa e depois deslancham. E de times que sobram na competição e depois fracassam. Uma bolsa de apostas teria tornado milionário qualquer torcedor fanático do Santo André.  

Escrevi antes do mata-mata começar que somente o Sobrenatural de Almeida possibilitaria ao Santo André passar pelo Água Santa. Que Sobrenatural de Almeida coisa nenhuma. O que tivemos nos 180 minutos foi um exemplo de dedicação, competência e efetividade como contraponto à estupefação de ver os espaços a triangulações, ultrapassagens, dinamicidade e tudo o mais desaparecerem. 

O Água Santa não perdeu para si mesmo o acesso à Primeira Divisão como alguns pretendem fazer crer. Foi a arrumação do Santo André que pesou para valer a partir da confiança que o grupo ganhou ao derrotar o grande favorito da competição num primeiro jogo de fato fora da normalidade porque somente o Santo André entendeu a mecânica de dois jogos entrecruzados.  

Terceira vaga não existe 

Vamos voltar a escrever nesta semana sobre o que os incautos trataram de “terceira vaga” da Série A-2. Não existe terceira vaga. O que existe é a possibilidade de o Red Bull não encontrar saída jurídica para negociar a vaga da qual terá de abrir mão porque se juntou ao Bragantino na Série A-1 do Paulista. 

Os desinformados de sempre citam algumas jurisprudências esportivas que permitiriam a ocupação da vaga por algum clube endinheirado. Esquecem que jamais houve uma situação semelhante que possa servir de ancoradouro à negociação legítima. É a primeira vez que dois times de uma mesma divisão se fundem e um dos quais precisa abrir mão do direito para não incorrer em irregularidade. 

E aí que o São Caetano entra na parada. Desde que o presidente Nairo Ferreira, claro, não cometa mais nenhuma patetice de assinar um documento tecnicamente perfeito sobre os direitos regulamentares do São Caetano, reconhecidos no regulamento do campeonato e, em paralelo, desancar a Federação Paulista de Futebol pela aprovação do mesmo regulamento, considerando-o equivocado a dano do São Caetano. Durma-se com um barulho desse.  

Leia mais matérias desta seção: