Imprensa

Diário dá sinais de que pode
recuperar equilíbrio informativo

  DANIEL LIMA - 16/07/2010

Talvez seja cedo demais para conclusões mais agudas, mas a bem da verdade, principalmente depois do que escrevi recentemente sobre as relações entre o Diário do Grande ABC e a administração de Luiz Marinho, em São Bernardo, não é exagero dizer que há fortes sinais de que o jornalismo equilibrado estaria em curso na Redação do principal veículo de comunicação da região.

Não vou dar exemplos que me fazem crer na premissa acima, até porque é preciso mais tempo para reflexões, mas pelo andar da carruagem parece que uma embocadura mais compatível com o que se espera do bom jornalismo está em curso. Pelo menos quando se trata da administração do principal governo petista da região.

Ainda precariamente, como se estivesse pensando com os meus botões, diria que o acordo publicitário que provocou a reviravolta no tratamento do Diário do Grande ABC à administração Marinho tenha obedecido a um conceito que deveria ser padrão às demais ações editoriais do jornal: nada de privilégios nem de discriminação, que se faça o bom e velho jornalismo de ouvir as partes envolvidas, de questionar mesmo, mas de esclarecer sobretudo os pontos obscuros que incomodam os leitores mais exigentes.

No livro “Na Cova dos Leões”, coletânea de artigos da coluna “Contexto”, espaço fixo reservado nas páginas do Diário do Grande ABC durante o período em que estive ali como Diretor de Redação, entre julho de 2004 e abril de 2005, escrevi uma “apresentação” que, acredito, explica as dificuldades de comandar um veículo de comunicação tradicional, respeitado pela média de público que o consome, apesar de todos os pecadilhos, e, sobretudo, num momento de dificuldades acionárias e econômicas da empresa que o editava.

Eis alguns trechos daquela síntese com que pretendia esquadrinhar o que os leitores encontrariam nas páginas seguintes:

 Vou traduzir o que parece um raciocínio esnobe: as redações, principalmente de jornais diários, são, em larga escala, pontos preferenciais em que os piratas econômicos, sociais, políticos e culturais atracam barcaças e interesses que parecem legítimos a mentes e olhos descuidados, supostos reprodutores de uma maioria silenciosa. Por isso que me senti na cova dos leões no Diário do Grande ABC e jamais, em tempo algum, passei pela mesma sensação em 16 anos de LivreMercado.

 A diferença entre uma situação e outra é que peguei andando o bonde do Diário do Grande ABC e, embora fizesse de tudo para me ajeitar na guerra de guerrilhas por espaços, tenho sérias dúvidas se de fato consegui. Já o bonde de LivreMercado se pauta por um conjunto do que chamo de cláusulas pétreas editoriais às quais recorro persistentemente para impedir que minorias barulhentas e interesseiras de profanadores de projetos e propostas de grandes transformações da sociedade tomem o leme.

 É verdade também que, em contraposição à realidade de as redações se tornarem covas de leões de desfechos dissociados da mensagem bíblica, não faltam no cenário nacional empresários da mídia que sabem exatamente o que estão patrocinando. Conluios se estabelecem geralmente por meio de medidas táticas que, mais à frente, para estupefação de leitores mais atentos, se desmancham como bolhas de sabão. Dessa forma, por algum tempo, por tempos intermitentes, ou quase sempre, os animais oportunistas acabam por devorar a relevância da função social do jornalismo, dificultando quando não impedindo a oxigenação da sociedade.

 Diferentemente de chefetes de redação que se travestem de cães perdigueiros a acompanhar todos os passos varejistas de subordinados, transformei minha estada no Diário numa ação de evangelização pró-regionalidade, em vez de lhes impor presença asfixiante no cotidiano de produção editorial.

 Do dia-a-dia do jornalistamo emburrecedor e embrutecedor não tenho saudade alguma. E olhem que não me submeti à ordem unidade de permanecer o tempo todo na redação. Preferi um cantinho da Editora Livre Mercado, então no mesmo edifício-sede do Diário, longe do burburinho e da possibilidade de ser interpretado como capataz.

Não acredito, sinceramente, que o Diário do Grande ABC reveja alguns pontos do Planejamento Estratégico Editorial com o qual desembarquei para um trabalho que deveria ter durado cinco anos.

A recomposição de um Conselho Editorial com representantes da sociedade, como aqueles 101 membros que tomaram posse num concorridíssimo evento no Teatro Municipal de Santo André, possivelmente nem passe pela cabeça da direção do jornal.

Muito menos contar com integrantes desse mesmo Conselho Editorial nas reuniões de pauta que definiam a estrutura de informações que os leitores receberiam no dia seguinte.

Nada disso está no meu radar de exigências de leitor à direção do jornal.

Entretanto, o redirecionamento editorial em relação à administração petista de São Bernardo deve ser comemorado, independentemente de motivações que o sustentam, porque, quem sabe, sirva de farol para a própria Redação do Diário do Grande ABC encontrar o foco de profundidade mínima e pluralidade máxima. A sociedade regional agradeceria imensamente.

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