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Diário do Grande ABC deixa de ser jornal e vira agência partidária

  DANIEL LIMA - 01/07/2010

Escrevo única e exclusivamente com a força e a determinação de quem não se conforma com os destinos do jornalismo no Grande ABC, eu que atuo como profissional de comunicação há 45 anos. É triste e lamentável dizer, mas tenho de dizer: esqueçam o Diário do Grande ABC como suposto patrimônio cultural da região, porque isso faz parte do passado. Aliás, de um passado bastante distante. O Diário do Grande ABC está cada vez mais credenciado a requisitar registro de partido político. Mais que isso: de uma abusiva agência político-partidária, que, inédita na morfologia institucional do País, subscreveria demandas de diferentes siglas partidárias. Algo que nem o múltiplo PMDB conseguiria imaginar.

O jornal fundado há mais de meio século é uma agência político-partidária na qual o que menos importa é a responsabilidade social, cláusula pétrea do jornalismo. Os queridinhos da redação, que não passa de extensão da presidência, são os mesmos de sempre. Aos aliados, tudo. Aos adversários, porradas.

O Diário do Grande ABC virou um vendaval de interesses difusos, mas objetivamente claros: quer exercer um poder econômico e político asfixiante numa região despudoramente sem cidadania. Só falta combinar com os adversários, é claro.

Estamos caminhando para a derrocada absoluta no jornalismo regional. Não sobreviverá nada que alguém possa relacionar a compromissos com o amanhã.

O Diário do Grande ABC mantém como aliados na empreitada de subjugar consciências da região gente da pior espécie da política. São raias miúdas nas esferas estadual e federal. Alguns integram tropas de choque locais. A eles o Diário do Grande ABC está aliado para impor o controle da gestão pública sob perspectiva exclusivamente privatista de benefícios. A sociedade é mero adereço a referendar as vontades de quem se acha acima do bem e do mal.

O senhor Ronan Maria Pinto, concessionário de transporte público de Santo André, é um mandachuva sem limites. Avança sobre todos com o destemor dos ignorantes e a sem-cerimônia de quem se sente com as costas largas para qualquer tipo de enfrentamento.

Cego na obstinada decisão de controlar todos os cordéis da região, do futebol à política, do jornalismo às concessões públicas, entre outras iniciativas, Ronan Maria Pinto ainda não se apercebeu que o Grande ABC não é uma reserva social de covardes. Há vida e indignação por aqui, ainda. Muitos se calam mas não se conformam. Outros trocam a dignidade pela coluna social. Os tapinhas nas costas de hoje podem ser as rasteiras de amanhã.

Ronan Maria Pinto está redondamente enganado quando imagina que terá reconhecimento social por comandar o Diário do Grande ABC, o futebol do Santo André e tantas outras coisas. Seus métodos não são aceitos, apenas suportados. Ronan Maria Pinto não é um agente social, é um manipulador grupal.

Antigos inimigos que se aproximaram dos tentáculos de Ronan Maria Pinto não veem a hora da canoa virar. Ele coleciona desafetos, apesar de especializar-se na arte da sedução. Desconhece que o pior sedutor é o sedutor que acredita na magia da sedução a qualquer custo e por todo o tempo.

O escândalo que envolve a relação do Diário do Grande ABC e a administração de Luiz Marinho, em São Bernardo, é a demonstração mais evidente de que o jornal da Rua Catequese está acusando os golpes da fragilidade econômica que o abate há quase duas décadas. Uma situação de insolvência superada numa operação ainda cercada de nebulosidade. Ronan Maria Pinto adquiriu as ações com suporte de gente que hoje, direta ou indiretamente, exerce poder paralelo na condução da empresa. Está subordinado, também, a injunções de cunho judicial. Ronan Maria Pinto sabe quanto custa a liberdade.

A desmoralização editorial do Diário do Grande ABC frente a uma administração sem receio de enfrentar a fúria financeira de Ronan Maria Pinto está cada vez mais evidente nas páginas do jornal. Foram para o beleléu manchetes maltrapilhas que ao longo de 18 meses pretenderam nocautear o primeiro-amigo do presidente da República. A sequência de idiotices publicadas em forma de notícia, numa perseguição maluca, agora cede lugar a um andar cuidadoso sobre o que ocorre em São Bernardo. De vez em quando lança-se uma manchete mais hostil. Tudo jogo de cena. O Diário do Grande ABC perdeu feio a disputa para Luiz Marinho. Se não bastasse ter perdido as eleições de 2008, quando apoiou descaradamente o candidato tucano Orlando Morando. Um jornal, qualquer jornal, pode ter preferências. Só não pode fazer os leitores de imbecis.

Ronan Maria Pinto descobriu que a vitória de Serra já não está no radar dos tucanos aliados e que resta o grupo de Geraldo Alckmin para oferecer-lhe garantias de que precisa. Mas que não custa nada também ter a tiracolo Frank Aguiar, vice-prefeito de São Bernardo, para uma reaproximação com Lula, apesar do veto de Luiz Marinho, de quem tem ódio.

O Diário do Grande ABC perdeu a envergadura moral para continuar atacando tresloucadamente a administração de Luiz Marinho. Submete-se à desmoralização pública de matérias editadas sob a doutrina financeira de contratos de publicidade.

Existisse um organismo que controlasse a qualidade ética dos produtos vendidos como jornalismo no Brasil, o Diário do Grande ABC seria sumariamente expurgado do mercado, a bem do interesse público.

Cada centímetro de matéria publicada em algumas editorias-chave tem o significado de cartas marcadas. Chega-se ao despudor de programarem nas próprias páginas do jornal quem será um dos próximos candidatos a prefeito em Mauá. Coincidentemente, o homem do dinheiro da Prefeitura de Santo André, a quem Ronan Maria Pinto domina de cabo a rabo e a quem acaba de ser entregue o título de cidadania andreense.

Se no passado o jornal pecava sordidamente pela manipulação de informações econômicas e também mergulhava na tentativa de dominar as ondas políticas, agora o noticiário é de primarismo aviltante e os interesses político-eleitorais arrogantes.

O Diário do Grande ABC é uma agência político-partidária que infringe o código de ética da classe política, porque atua irregularmente em forma de jornal de circulação diária que não se submete à legislação eleitoral, protegido constitucionalmente pela liberdade de expressão.

O Diário do Grande ABC jamais deverá oficializar na Justiça Eleitoral o direito de atuar formalmente como partido político porque a medida significa um tiro no próprio pé, já que, pois, deixaria de gozar das vantagens atuais. A competição é desigual no campo partidário e um atentado no âmbito jornalístico.

Os conservadores de Santo André, que odeiam Ronan Maria Pinto mas se refestelam nas páginas sociais do jornal, já começam a se preocupar com os rumos do Paço Municipal. A guerra por territórios que o Diário do Grande ABC pretende protagonizar na ânsia de dominação absoluta faz água. Nada, entretanto, que faça o empresário recuar. Por sorte, Ronan Maria Pinto conta com a tradição de uma marca para dar sobrevida aos planos megalomaníacos. Até que os adversários caiam na real de que marcas também desaparecem, devagar, mas desaparecem. Ainda mais no mundo jornalístico. Em outros tempos, Luiz Marinho teria entrado para o catálogo de vítimas do Diário do Grande ABC. Hoje, é seu algoz.

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