Esportes

Ética seletiva glorifica RBB
e discrimina São Caetano

  DANIEL LIMA - 12/04/2019

Os hipócritas de ocasião são os principais agentes de defesa de uma tese furada disseminada pelos ignorantes que abundam nichos do jornalismo esportivo de torcida organizada e o mundo diretivo do futebol vocacionado ao ressentimento clubista. 

É claro que estou me referindo mais uma vez a algo que ainda vai longe: os direitos legítimos do São Caetano permanecer na Primeira Divisão (Série A-1) do Campeonato Paulista, caso se confirme a vacância de uma vaga na competição por conta do negócio envolvendo Bragantino e Red Bull, que estão virando uma única agremiação. 

Quem deve sobrar legalmente na Primeira Divisão Paulista é o Red Bull. Mas só para inglês ver, porque a identidade do Bragantino passará a ser dupla, incorporando o clube-empresa até outro dia mandante de jogos no estádio Moisés Lucarelli, em Campinas. 

Peço a paciência dos leitores (jornalismo fast-food é uma praga que precisa ser combatida, porque simplifica o que é complexo) para explicar de que se trata essa nova abordagem. 

Arautos da moralidade 

Os fingimentos éticos que marcam o caso em que se coloca no tabuleiro da baiana de idiossincrasias a ocupação da provável vaga de integrante da Série A-1 estão por trás da falsidade discursiva dos cegos de plantão que fazem papel de arautos da moralidade esportiva.

O São Caetano, visto por esses bandoleiros de subjetividades escandalosamente frágeis, não pode continuar na Série A-1 do Campeonato Paulista e, portanto, deve perder o espaço para o terceiro colocado da Série A-2, porque foi rebaixado dentro de campo como penúltimo colocado da competição. Entendido?

Então, se o São Caetano medíocre que todos vimos nos 12 jogos da Série A-1 não escapou ao rebaixamento técnico, tudo o que o impacta de ilegítimo no encadeamento de eventual ocupação da vaga que seria herdada do Red Bull deve ser canonizado. A sentença de morte de permanência na Série A-1 deve ser executada a qualquer custo, sobretudo com o sacrifício da lei. 

Traduzindo: não interessa que o regulamento da Série A-2 seja meridianamente claro e objetivo ao condicionar a subida do terceiro classificado à desistência de um dos dois finalistas da própria competição. Isso pouco importa. Como o São Caetano virou a equipe bandida da temporada por ter cometido o pecado capital de não se acertar dentro de campo, porque não se acertar dentro de campo é um crime hediondo, qualquer coisa que se faça para desbancá-la estará diagramada na jurisprudência dos bandoleiros como legítima. Instaurou-se, portanto, um tribunal de exceção. 

Esse é o naco que poderia ser chamado de absurdo regulamentar que os justiceiros de plantão, também hipócritas, pretendem fazer sentença final com pressões junto ao Departamento Técnico da Federação Paulista de Futebol. 

Corrigindo o erro 

O mesmo Departamento Técnico que, cautelarmente, após anos seguidos de cometimento de equívoco que não se traduziu em prática por obra do acaso, decidiu enquadrar a disputa da Série A-2 nos rigores da legislação esportiva, ou seja, não estender poderes imperiais do REC, Regulamento Específico de Competição, à Série A-1.  

Os fanfarrões da ética de perna quebrada que excomungam a legitimidade dos direitos do São Caetano a seguir na Primeira Divisão porque ocuparia o posto de uma equipe desistente (é isso que o Red Bull ou o Bragantino terá de fazer após a fusão que o envolve) são usurpadores da mesma ética que professam. Afinal, eles negam o inegável sob o pretexto de uma moralidade manca. 

Para esses éticos seletivos, quem caiu dentro de campo não pode continuar na competição. Uma besteira sem tamanho. 

Quer dizer então que, em nome de um jogo de cena, pode-se desfraldar a bandeira insana de dar ao Artigo Nono e ao Parágrafo Primeiro do regulamento da Série A-2 uma leitura enviesada, imprecisa, incorreta e tudo o mais? Tudo em nome da ética e da moralidade esportiva, vejam só. As regras regulamentares, portanto, que se danem.  Mais que isso: que tenham uma leitura ordinariamente manipuladora, sob o manto da esperteza ética de ocasião. 

Mais incoerências 

Quem acha que chegamos ao topo das incoerências dessa turma de desordeiros metidos a justiceiros precisa ter um pouco mais de paciência para entender o conceito deste texto sintetizado no título acima. E qual é esse ponto?

Ora, se prevalecesse uma nesga sequer de legitimidade ética no discurso em defesa do acesso do terceiro colocado da Série A-2 porque, definitivamente, não teria cabimento um penúltimo colocado da divisão superior ser beneficiado com a desistência do Red Bull, por que então não se escreve um único parágrafo, unzinho sequer, em defesa da mesma moralidade avocada para contestar o catapultar do Red Bull em direção a uma vaga na Série B do Campeonato Brasileiro? Uma vaga alcançada no tapetão, caso se siga a linguagem pejorativa da crônica esportiva que nega a clareza do regulamento da Série A-2 quando se trata dos direitos do São Caetano. 

Repetindo: por que não se contesta com alguma veemência a negociata esportiva que vai catapultar o Red Bull à Série B do Campeonato Brasileiro enquanto se centraliza fogo no inalienável direito de o São Caetano preservar a vaga na Série A1 do Paulista respaldado pelo regulamento? Por que em linhas gerais se discrimina o São Caetano a ponto de a legitimidade intocável da vaga potencial ser vista como um acinte e se cala diante do RBB? 

Negócio ou negociata? 

Vou explicar para os leitores que não têm intimidade com o futebol de que se trata esse negócio entre o Bragantino e o Red Bull que a Imprensa em geral, e o mundo esportivo como um todo, trata com a maior naturalidade, quando não com o espocar de fogos de modernidade. 

O Red Bull é um clube multinacional de futebol. Está em vários países, inclusive no Brasil. E decidiu que precisava cortar fora dos gramados o caminho para chegar o mais rápido possível à Série A do Campeonato Brasileiro, a maior vitrine do futebol nacional. 

O que fizeram, então, seus dirigentes? Compraram o direito federativo do Bragantino, que tem uma vaga na Série B do Brasileiro. 

A transação ainda não foi completamente explicada. O que se sabe é que na prática o Red Bull vai absorver o Bragantino. Entretanto, como quem detém a vaga na Série B do Brasileiro é o time da família Chedid, será feito um arranjo contratual que, ao mesmo tempo que permite uma dupla identidade esportiva com o CNPJ do Bragantino, estabelece o controle de fato e de direito da agremiação pelo Red Bull. A nova equipe se chamaria RB Bragantino ou Bragantino RB. Talvez até uma outra combinação, desde que Bragantino e RB estejam na vitrine da mídia. 

Então, ficamos assim: enquanto há gritaria organizada e insidiosa contra um São Caetano que não daria salto algum na hierarquia do futebol paulista, já que usufruiria potencialmente da desistência compulsória do Red Bull, o mesmo Red Bull travestido espertamente de Bragantino daria um salto triplo na esfera esportiva nacional sem sequer se ouvir um gemido crítico em defesa da ética e da moralidade esportivas. 

Repetindo: o São Caetano é caçado pela intolerância dos falsos éticos que de fato são jornalistas despreparados e dirigentes esportivos fanatizados por interesses próprios, enquanto do outro lado do muro da vergonha do mundo do futebol um Red Bull invade a área da Série B do Brasileiro sem ter passado sequer por qualquer uma das divisões do calendário nacional. 

Quem quer entender o Brasil que elegeu Jair Bolsonaro não pode jamais deixar de entender o Brasil do futebol. E ai daqueles que têm o dever profissional de opor-se a uma quase unanimidade mais que burra, completamente despudorada. 

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