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Diário volta a atacar Marinho. Jogo de cena ou pressão dos tucanos?

  DANIEL LIMA - 24/06/2010

O Diário do Grande ABC que leio bem cedinho nesta quinta-feira por conta de insônia provocado por uso de medicamento quebrou a rotina dos últimos 30 dias, poucos menos de 30 dias, após um ano e meio de massacre. O Diário do Grande ABC voltou a recarregar baterias contra a administração petista de Luiz Marinho, em São Bernardo.

Coincidentemente, a medida é adotada dois dias depois de CapitalSocial denunciar a política editorial hostilizatória do Diário do Grande ABC contra o primeiro-amigo do presidente da República. O naco de publicidade milionário da cidade mais rica e problemática da região é o núcleo estratégico da questão.

A reação do Diário do Grande ABC é um despiste ou tem funda participação de tucanos e aliados que há muito tempo tomaram conta da linha editorial do jornal, apesar dos disfarces de praxe?

Façam as apostas, senhores: o Diário voltou a bater em Luiz Marinho porque quer dissimular o acordo publicitário de São Bernardo ou a explicação é outra, diríamos, mais rebuscada, mais complexa?

Qual? O acordo longevo com tucanos de São Bernardo, aos quais Ronan Maria Pinto deve muito. Tudo teria sido mobilizado a toque de caixa após análise deste CapitalSocial na edição de anteontem sob o título “Diário acerta contas com Marinho e alivia a longa perseguição editorial“.

Não é preciso prender-se a juízo de valor do conteúdo da manchete principal de primeira página desta quinta-feira para reconhecer o tamanho dos punhos da notícia e seu objetivo explícito: dar uma esmurrada teatral ou verdadeira no prefeito de São Bernardo, estremecendo e rompendo ou fingindo estremecer e romper o acordo comercial de canalizar às páginas do Diário do Grande ABC verbas publicitárias que fazem a concorrência midiática local morrer de inveja, de raiva, de estupefação e de outras coisas mais.

Querem ler a manchete principal da primeira página do Diário do Grande ABC desta quinta-feira? Então leiam:

  • Câmara deixa Marinho contratar quanto quiser.

Agora, o texto da chamada de primeira página, que remete à leitura na página 3:

  • A Câmara de São Bernardo aprovou ontem projeto de lei que autoriza o prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho (PT), a contratar quantos funcionários temporários — de qualquer área — quiser. Indignada, a oposição classifica a medida como um “cheque em branco” ao prefeito e cogita inconstitucionalidade da matéria. Liderança do governo no Legislativo se defende alegando que o projeto é destinado para situações temporárias e emergenciais como combate a surtos epidêmicos e realização de censo socioeconômico. No entanto, opositores rebatem novamente e dizem que já existe legislação para este tipo de contratação.

Só enxerga dúvida na interpretação da decisão do Legislativo de São Bernardo quem não entende nada de jornalismo, ou seja, quem é péssimo leitor. Quem lê apenas como quem escaneia uma página.

Insisto em retirar qualquer poção de juízo de valor pessoal da notícia, porque há fragilidade de informações. Ficou-se apenas no trivial, e o trivial, nesses casos de peso de manchete principal de primeira página, é o caminho da perdição interpretativa. Visa voluntariamente ou não mais embaralhar a leitura do que decifrar a decisão legislativa.

Fixo-me, por isso mesmo, apenas no tratamento editorial aplicado, notoriamente condenatório à decisão do Legislativo.

Algo feito sob medida com o propósito explícito de desgastar a imagem do prefeito, como nos 18 meses que antecederam o armistício de menos de 30 dias — do final do mês passado e todo este mês.

Na página 3 de Política, sob o título “Luis Marinho poderá contratar à vontade”, e subtítulo “Câmara autoriza prefeito de São Bernardo a chamar temporários, sem limite de quantidade”, as explicações, sólidas ou não, dos governistas, são atiradas no acostamento.

Escrevo este texto às 7h da manhã desta quinta-feira, por conta, repito, do desarranjo biológico provocado por um comprimidinho muito do sem-vergonha ingerido para conter eventual infecção pós-cirurgia dentária. Normalmente neste horário estou dormindo. Pareço, entretanto, esperto o suficiente (quem sabe a receita que me passaram é de algum anabolizante psicológico que um dia, daqui duas décadas, passe a adotar mais frequentemente) para aclarar as ideias.

Não tenham dúvidas que há coelho no meio desse mato de retorno da virulência crítica do Diário do Grande ABC à administração Luiz Marinho.

Embora não descarte a possibilidade de jogo de cena, porque não faltam amadores e atravessadores a infiltrarem-se na redação do Diário do Grande ABC em passadas físicas ou intervenções tecnológicas para dar tratos à bola de sandices editoriais, acredito mais mesmo em recarga da artilharia de tucanos e aliados. Legitimamente dentro do jogo de pressões que políticos exercem nas redações. Eles procuram desempenhar o papel que lhes competem. Escrevi a respeito do assunto no livro “Na Cova dos Leões”, que retrata parte dos nove meses como Diretor de Redação do Diário do Grande ABC, entre 2004 e 2005, depois de 15 anos ocupando todos os cargos possíveis, entre 1970 e 1985.

O jornal cinquentário que outrora mantinha sem susto e solavancos o monopólio da informação no Grande ABC — tempos sem a multiplicidade de meios de informação, especialmente do bom jornalismo que viceja na Internet regional e que ajuda a fazer a cabeça da classe média — sabe que seus limites estreitaram-se. Somente em situações muito específicas o Diário aproxima-se dos velhos tempos de guerra de controle da informação. Antes era estrutural; agora é circunstancial.

Há compromissos do presidente do Diário do Grande ABC com forças políticas e partidárias do PSDB e aliados. Nada anormal no jornalismo brasileiro, inclusive ou principalmente nas grandes mídias. A diferença é que Ronan Maria Pinto não se contenta em ficar com os dois pés no mesmo barco de negócios do jornalismo, porque não tem ideologia nem institucionalidade que o sustentem. E aí é que pode afundar de vez.

Há pendências sobre as quais prefiro não escrever, por enquanto, situação que o torna refém dos tucanos do Grande ABC e também do governo do Estado. Ou os leitores acreditam que as denúncias que o envolveram na gestão do prefeito Celso Daniel não custaram e ainda lhe custam montanha emocional? E me custaram o cargo de Diretor de Redação daquele jornal, do qual não tenho saudade alguma.

Foi por essa e por outras razões que, ao me referir, no artigo anterior, às condicionalidades do acordo provavelmente precário com Luiz Marinho, não havia profundidade de compromisso que pudesse assegurar que o prefeito de São Bernardo continuaria a contar com um Diário do Grande ABC menos seletivamente implacável. Aliás, quanto à tonalidade crítica, isso vale igualmente aos também petistas que comandam Diadema e Mauá.

Está claro, e faz muito tempo, que São Bernardo é a batalha da ponte da disputa que tem o Diário do Grande ABC como aríete. Os tucanos querem ganhar a disputa eleitoral à presidência da República no reduto mais simbolicamente petista do Brasil. Isso faz parte da política, mas não deve ser sonegado aos leitores.

As próximas edições do Diário do Grande ABC, após breve lua-de-mel que causou frisson entre petistas e tucanos, possivelmente fornecerão mais insumos de análise.

Entretanto, não tenho dúvida em afirmar que Ronan Maria Pinto não pretende mesmo abrir mão dos azulados, acreditando na provável vitória de Geraldo Alckmin ao governo de São Paulo e, possivelmente, duvidando do sucesso de José Serra à Presidência da República.

Aliás, por falar nisso, a chamada de primeira página do resultado da nova pesquisa do Ibope, que coloca Dilma Rousseff à frente do ex-governador de São Paulo, ficou escondidinha no Diário do Grande ABC. Já no Estadão e na Folha, menos ostensivamente tucanos, mas tucanos com mais arte jornalística, alçaram a informação ao topo de primeira página.

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