Sociedade

Uma contradição escandalosa
do Datafolha sobre militares

  DANIEL LIMA - 09/04/2019

Há uma contradição escandalosa, porque de origem viciada, na pesquisa do Instituto Datafolha publicada e analisada pela Folha de S. Paulo envolvendo os militares do passado, do chamado golpe que também pode ser considerado contragolpe, em 1964, e os militares de agora.

O leitor vai entender porque recorro ao título acima, contundentemente forte. Antes, porém, uso uma vacina providencial para evitar estridências de militantes da extrema esquerda que, como os de extrema direita e os ignorantes em geral, adoram subterfúgios com o uso de semântica para rotular quem não comunga necessariamente com suas avaliações. Em muitos casos a tortuosidade de caráter explica. Em outros casos, pura má-fé.

Vou direto ao ponto. Como é possível que o Datafolha tenha detectado na mesma pesquisa em todo o País que 57% dos brasileiros optaram pela alternativa de que o 31 de março de 1964 deve ser desprezado em forma de comemorações e que 60% dos mesmos entrevistados, em outra questão, consideram positiva para o País a atuação dos militares no governo de Jair Bolsonaro?

Fidelidade aos fatos

Vou ser absolutamente fiel às duas reportagens, a primeira de sábado e a segunda de segunda-feira, ontem. Mas antes de revelar o ovo da serpente da manipulação que levou a resultados estranhamente antagônicos, lembro que não sou jornalista militante, não acho o governo Bolsonaro um exemplo de praticidade e resolutividade e tampouco coloco em outro patamar senão no escurinho do cinema do vexatório o que a classe política em geral, petistas, tucanos e emedebistas em particular, legaram à sociedade brasileira durante a chamada Nova República.

Mais que isso: digo sem pestanejar que a eleição de Jair Bolsonaro, de perfil reconhecidamente modesto como parlamentar e também longe de qualquer avaliação que o coloque como exemplo de brilho intelectual, se deve basicamente aos estragos que os corruptos que ocuparam os mais destacados postos de comando do País perpetraram contra a sociedade desorganizada.

Posto isso (desnecessário, não fosse a multiplicação da audiência por conta da tecnologia digital), vamos à inconsistência da pesquisa do Datafolha.

O ponto de desequilíbrio avaliativo da atuação dos militares quando se comparam os acontecimentos de 31 de março de 1964 e a densidade de patentes no governo de Jair Bolsonaro neste 2019 está no enunciado apresentado aos entrevistados pelo Datafolha. Ou seja: a pesquisa já nasceu morta do ponto de vista de sustentabilidade cientifica, por assim dizer.

O vício de origem

Vejam os leitores qual foi o enunciado dessa questão-chave. Trata-se de indução explícita, descarada, à execração do movimento de 31 de março de 1964:

 O dia 31 de março de 1964 marcou o início da ditadura militar no Brasil. Na sua opinião, essa data deveria ser comemorada ou desprezada?

Leram com atenção? Não se trata, portanto, de uma pergunta que fundamentaria a definição por uma das alternativas propostas, mas uma condenação àquele movimento.

Ora, diante disso, ou seja, do deslocamento da resposta da zona da equidistância expositiva para a turbulência sentencial, 36% dos entrevistados responderam que a data deveria ser comemorada, enquanto 57% optaram pelo desprezo e 7% não souberam responder.

Como deveria ser

Agora, me respondam se falta nexo no que sugiro como algo isento à geração de resposta com valor histórico. Já imaginaram se a pergunta fosse exatamente essa?: 

 O dia 31 de março de 1964 marcou o início de um novo regime político no País, com a chegada dos militares ao governo federal. Na sua opinião, essa data deveria ser comemorada ou desprezada?

Trocando em miúdos: para ter respaldo técnico-científico, o Datafolha jamais poderia dar o apito inicial ao jogo de obtenção de resposta dos entrevistados partindo de um juízo de valor controverso. Tão controverso que, mesmo com a intromissão opinativa imposta, mais de um terço dos entrevistados não se dobraram à premissa do instituto.

Resolvida essa questão, embutida como disse na edição de sábado passado, eis que chego à edição de ontem, segunda-feira.

A Folha de S. Paulo afirmou que a maioria da população apoia a presença de militares em cargos estratégicos do governo federal. “Levantamento do Instituto entre os dias 2 e 3 aponta que 60% dos entrevistados consideram positiva para o país a atuação de militares no governo Jair Bolsonaro, ante 36% que a consideram mais negativa. Outros 2% se disseram indiferentes e 3% não souberam responder”, escreveu a Folha.

Efeitos colaterais

O jornal não reproduz, diferem tente do caso anterior, o enunciado que levou os entrevistados a colocarem os militares atuais em alta cotação. Mas o que retratou é suficiente para aumentar mais que a suspeita, a certeza de que o questionamento e os resultados da edição de sábado não se sustentam no conjunto da obra.

A dúvida que fica refere-se à ordem cronológica das questões apresentadas aos entrevistados. E isso tem uma importância extraordinária à avaliação da pesquisa.

Se os dois enunciados seguiram rigorosamente a ordem de resultados apresentados pela Folha de S. Paulo, ou seja, primeiro os entrevistados responderam sobre o 31 de março de 1964 e em seguida sobre os militares no governo Bolsonaro, não haveria dúvida de que os números da segunda questão foram prejudicados. Seriam maiores à aprovação de militares no governo Bolsonaro, claramente. E não coloquem juízo de valor ideológico ou de qualquer natureza nessa conclusão.

Ou alguém tem dúvidas de que o enunciado sobre a ditadura militar, contido na supostamente primeira pergunta, não afetou a percepção de resposta no segundo enunciado?

Sem virgindade

Talvez volte ao assunto porque há outras provas provadas de que o Datafolha alimentou um bicho estranho de avaliações na redação da Folha de S. Paulo. Não só estranho, porque esconde resultados que contrastariam com o tom alarmista do jornal sobre os três primeiros meses do governo federal, como também maliciosamente camuflados ou minimizados tanto em posicionamento gráfico (a chamada edição) como de abordagem jornalística.

O mundo de sondagens político-administrativas não é diferente do mundo de pesquisas eleitorais. Aliás, são filhotes do mesmo ventre de alquimias tanto na produção dos questionários quanto na interpretação bastarda dos dados. Tenho os dois pés atrás em relação ao Datafolha, conforme exponho em alguns links logo abaixo.

Não estou aqui, diferentemente do que podem imaginar os extremistas de todas as causas fantasmagóricas ou não, perfilando em defesa do governo federal. Não é a primeira nem será a última vez que me dedicarei a essa invenção maquiavélica e apaixonante. No caso do Datafolha, os efeitos colaterais são mais deletérios. O ramal jornalístico que o avaliza em todas as circunstâncias de produção de abracadabras políticos e sociais é, apesar dos mais recentes despautérios, de credibilidade e de formadores de opinião.

O resumo da ópera é que vai ser muito difícil, quase impossível, convencer alguém de que os entrevistados que querem e aprovam os militares no poder neste 2019 (e eles são muitos) abominam os militares que ocuparam os poderes da República a partir de 31 de março.

Entre a edição de sábado e a de ontem o Datafolha (e a Folha de S. Paulo, por consequência ou conveniência) foi pego de calças curtas. Seria ótimo se tudo significasse perda de virgindade. Mas esse estupro vem de longe.

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