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E se eu tivesse continuado à frente do Diário do Grande ABC?

  DANIEL LIMA - 27/04/2010

Para fazer suspense, vou responder ao final deste texto à pergunta do título. Antes, porém, aviso aos navegantes: a partir de amanhã, quarta-feira, vou postar neste CapitalSocial os 90 mil caracteres do Planejamento Estratégico Editorial que preparei num final de semana no Interior de São Paulo para ser aplicado na Redação do Diário do Grande ABC entre julho de 2004, quando assumi o cargo, e julho de 2009, quando deveria completar cinco anos de jornada. Fui demitido após nove meses porque não aceitei jogar aqueles pressupostos na lata do lixo. Carreirismo é a última coisa que nutre minha vida profissional. Não me dedico tanto ao jornalismo para ser vaquinha de presépio.

Sob o título “Cinco anos para Diário se adaptar aos conceitos de regionalidade“, transfiro integralmente aquele trabalho aos leitores. Mais que uma densa proposta de recuperação do principal veículo de comunicação da região, o Planejamento Estratégico Editorial era um apanhado contextualizado da situação social, cultural e econômica do Grande ABC. Acreditava que um grupo de profissionais de comunicação poderia colaborar imensamente para mudanças de rota.

A decisão de levar aos leitores aquele conjunto de proposições que serviriam de norte para a empreitada de um regionalismo que não tem seguidores igualmente fervorosos decorre da transparência com que sempre trabalhei. Já perdi a conta das vezes em que fui questionado sobre o plano que desenhei para o Diário do Grande ABC e, também, os motivos de minha saída.

Tanto para uma questão quanto para outra tenho respostas simples. Sobre o plano de recuperação daquele jornal, em nove meses em que atuamos com o comprometimento de uma equipe de redação, os resultados começaram a aparecer. Quanto à demissão, experimentem construir as bases de um projeto e avaliem se seria justo que distribuíssem granadas no alicerce. As granadas que pretendiam (e mais tarde acabaram por fazê-lo, mas sob outro comando) derrubar a sustentabilidade das propostas ganharam a forma de demissões. Rejeitei-as porque os encaminhamentos preliminares que culminaram com o Planejamento Estratégico Editorial valorizavam os ativos profissionais, com investimentos permanentes.

A decisão de transferir o Planejamento Estratégico Editorial para este endereço eletrônico foi pensada durante muito tempo. Acho que chegou a hora de desovar o que entendo como importante; inclusive, mais adiante, reproduziremos um outro tipo de material, no caso os textos do boletim eletrônico que endereçava diariamente ao quadro de jornalistas e à diretoria da empresa.

“Capital Digital” era o instrumento ao qual recorria para completar o corpo-a-corpo com colaboradores de Redação. O boletim eletrônico complementava ações pessoais no dia-a-dia na Redação. Jamais aceitei transferir meu bunker de trabalho ao sexto andar da Rua Catequese, embora o presidente Ronan Maria Pinto insistisse no assunto. O terceiro andar, da Redação, era meu campo de batalha. Quem entende que lidar com informação, que é poder, não é uma disputa por espaço na sociedade, de jornalismo não entende bulhufas.

Reproduzir o Planejamento Estratégico Editorial que formulei à direção do Diário do Grande ABC como condição primária para assumir o cargo ao qual fui insistentemente convidado é uma oportunidade a mais para que os leitores e também os detratores possam avaliar o grau de compromisso deste jornalista com a sociedade do Grande ABC.

Confesso que relutei em aceitar a proposta do Diário do Grande ABC. Sabia de antemão que a bucha era pesada. Havia conflitos societários. Ronan Maria Pinto acabara de adquirir o controle societário da empresa, mas havia um rebuliço com a família Dotto, que também se sentia dona do pedaço. Os Polesis insistiam em continuar participando. Chegaram a promover uma ação que adiou minha posse. Um inferno.

Talvez devesse ter ouvido com mais atenção meu velho pai que naquele domingo, 18 de julho de 2004, véspera de minha posse e poucas horas antes de sofrer fulminante ataque cardíaco, me recomendou “cuidado com aquele pessoal”. Sabia a que se referia. Nove meses depois, em abril de 2005, estava eu de volta ao cotidiano da revista LivreMercado, publicação que comandei paralelamente ao peso do Diário do Grande ABC.

Para ser mais preciso, retornava à revista LivreMercado mas de forma diferente: durante mais de um ano, até que a publicação retomasse autonomia de endereço, dirigi a redação de meu escritório domiciliar, enquanto a equipe se mantinha num dos andares da sede do Diário do Grande ABC, submetida a lances vexatórios de estreitamento do espaço de trabalho até praticamente ser despejada. Um final melancólico para quem acreditou que, ao levar a revista para a Rua Catequese, a junção dos dois produtos, como foi prometida e alardeada em reuniões, culminaria com um letreiro em neon logo abaixo da marca Diário do Grande ABC.

Assumi a direção do Diário do Grande ABC sem qualquer exigência. Mais que isso: dispensei carro blindado, carro da diretoria, salário que fugisse ao que praticamente recebia à frente de LivreMercado (cujos valores foram suspensos enquanto me dedicava ao Diário, apesar de continuar à frente da publicação) e tudo que o leitor imaginar como contrapartida a um executivo supostamente importante. Fui de coração aberto, de alma limpa. Sai de coração aberto, de alma limpa, de dignidade mantida.

Por isso, respondo à pergunta do título:

Se eu tivesse continuado à frente do Diário do Grande ABC, o jornal teria dado um salto de qualidade enorme, como mostrarei no Planejamento Estratégico Editorial que postarei amanhã, mas provavelmente eu já teria batido com as 10. Peguei um jornal na Série C do Campeonato Brasileiro de Imprensa, precisava de cinco anos para, com a equipe, botá-lo na Série A e hoje, infelizmente, o produto é de Série D.

O mais importante mesmo é que, embora esparramem que estou morrendo, continuo vivo e incomodando quem detesta ser incomodado.

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