Imprensa

Voltando (de brincadeira) aos tempos de Ouvidoria do Diário

  DANIEL LIMA - 22/04/2010

Se voltasse aos tempos de ouvidor do Diário do Grande ABC, função que exerci apenas como tática para assumir a direção de Redação em julho de 2004, o que teria escrito de bom, de bom mesmo, e também de crítica azeda, azeda mesmo, nos últimos dias?

Antes que os leitores saibam o que se passa na minha caixola, uma ressalva providencial: sou muito grato à oportunidade que o Diário do Grande ABC do passado remoto de acionistas que não estão mais na Rua Catequese, e mesmo do passado recente de novos dirigentes, pelas possibilidades para exercer a função social de jornalista durante 16 anos divididos em duas etapas.

Entretanto, como não devo fugir da verdade íntima, nada, absolutamente nada se compara aos 20 anos da Editora Livre Mercado, quando concebi o melhor produto regional do País, quando me foi apresentada a possibilidade de aprofundar o sentido de jornalismo.

Minha vida profissional sempre foi encarada como atividade muito além de interesses particulares. Por isso coleciono adversários e detratores, muitos dos quais ex-admiradores. Não retenho amizades quanto visto a parafernália jornalística, à qual me submeto com tamanha lealdade que não tenho dúvida de, se tiver que romper relacionamentos em nome da informação daquilo que considero mais pertinente, rompo mesmo. Da mesma forma que sei separar privado de público.

Feita essa rapidíssima explicação, vou surpreender quem acredita que estou aqui para distribuir bordoadas no Diário do Grande ABC.

Duas matérias da edição de hoje encaixaram golpes certeiros. O Diário do Grande ABC dos bons tempos parece redivivo, mesmo sem linguagem mais clássica.

A primeira matéria refere-se à Cidade da Criança, em São Bernardo. Desta vez, ao contrário de tantas outras em que essa mesma pauta ganhou corpo, impressão e distribuição, não cheira à perseguição. Ao informar que de 17 brinquedos mostrados em folhetos da Cidade da Criança, apenas dois estão funcionando, o Diário repassa solidez de que está escrevendo a verdade.

E sabem por que é possível acreditar no Diário do Grande ABC?

Porque mandou uma jornalista a campo para ver com os próprios olhos, cheirar com as próprias narinas, caminhar com os próprios pés, ouvir com os próprios ouvidos, os frequentadores da Cidade da Criança.

Não se fiou em informações de terceiros intimamente interessados em desgastar a imagem da administração pública do PT, com a qual o diretor-presidente Ronan Maria Pinto vive às turras.

Foi lá a repórter Bruna Gonçalves e, sem mistificação, acredito nisso, entregou um trabalho informativo ao qual o editor responsável e a diretora de Redação Lola Nicolás deram tratamento adequado. No caso, a manchete principal de primeira página.

Ponto para o Diário do Grande ABC. Ainda mais que o espaço reservado à manifestação da Administração Municipal não tem sustentação contestatória. Promete-se, sim, botar aquele centro de lazer e entretenimento na linha em pouco tempo.

A lamentar apenas a ausência do contraponto, sem encenações, do estado da Cidade da Criança entregue pela administração anterior, do agora tucano William Dib. Sabe-se que estava longe do imaginado. Há contradições que precisariam ser esclarecidas sem sofisticações semânticas.

Vizinho residencial da Cidade da Criança, o que posso dizer é que a onça mecânica que tanto andou atrapalhando meus sonos já não permanece ligada a noite toda. E que a frequência popular baixou um bocado nos últimos tempos, certamente por conta da frustração de tantos brinquedos fora de uso.

A segunda matéria de destaque no Diário do Grande ABC refere-se ao trecho sul do Rodoanel. A denúncia de que aquele traçado esquece vários municípios da região revela certo descaso do governo estadual com a obra, depois da festiva inauguração à qual, todos viram, o deputado estadual Orlando Morando rivalizou-se nos flashes com o então governador José Serra. Santo André, São Caetano e Diadema não estão nas placas indicativas do Rodoanel, vejam só. Até parece que apenas São Bernardo e Mauá fazem parte do trajeto.

A cobertura que o Diário do Grande ABC reserva ao sistema viário que envolve a região, sobremodo o trecho sul do Rodoanel, consagra minha iniciativa de, ao assumir a direção de Redação em 2004, montar o Conselho Editorial com especialistas de várias áreas. O Diário exterminou aquele organismo de suporte à Redação. Tempos depois, contratou especialista em mobilidade urbana, Cristina Baddini. As declarações da profissional, que também é colunista do jornal, conferem credibilidade às informações. Despolitiza a pauta, vício por demais pecaminoso do Diário do Grande ABC.

Tivesse o Diário do Grande ABC um especialista ou fontes diversas e insuspeitas do mercado imobiliário, a manchete da página de Economia de quarta-feira — “Preços dos imóveis disparam nas cidades do Grande ABC” — possivelmente seria jogada no lixo e o texto igualmente descartado. Não que a autora da matéria seja em princípio incompetente ou maliciosa, ou esteja a serviço de cenaristas de plantão. O problema é estrutural do jornalismo no mercado de imóveis, assediado e estuprado por interesses econômicos.

O empresário Milton Bigucci, presidente de uma quase inútil entidade de classe da qual é eterno presidente, no caso a Acigacb (Associação dos Construtores, Imobiliárias e Administradoras do Grande ABC) continua a deitar e a rolar toda vez que lhe é dada a palavra para discursos triunfalistas.

Base informativa da maioria das matérias da área, Milton Bigucci deveria ser responsabilizado pelos excessos, porque infla impiedosamente os números. Faz análises superficiais, descontextualizadas e flagrantemente interesseiras. Fala muito mais alto o empresário de uma atividade mais que reconhecidamente industrializadora de ilusões do que o suposto integrante de uma sociedade que exige de quem ocupa funções de liderança maior compromisso social.

Chegou Milton Bigucci ao ponto de afirmar ao Diário do Grande ABC que a economia da região cresceu “em torno de 40% nos últimos três anos. Um verdadeiro acinte, uma trapaça numérica que causa inveja a chineses e indianos. Já imaginaram se o PIB do Grande ABC crescesse tanto em três anos? Nem nos últimos 20 anos o PIB do Grande ABC cresceu tanto. Ou melhor: os ganhos ínfimos do Grande ABC nos últimos anos são resultado de recuperação parcial de uma economia abaladíssima nos anos 1990 pela abertura econômica, pela descentralização industrial e por tantas outras causas que já cansei de esmiuçar.

O mercado imobiliário do Grande ABC, quando visto em retrospectiva e em perspectiva, que é que de fato precisa ser avaliado, é um chute no traseiro de opção de investimentos.

Esperar que um representante do setor transmita esse tipo de informação é sonhar acordado. Daí a importância de os veículos de comunicação oferecerem contrapontos que preservem a verdade.

Houvesse espécie de Procon para maus interlocutores da mídia, Milton Bigucci não escaparia de duras advertências. Aliás, no caso dele, já estaria respondendo a inquérito judicial por improbidade informativa. Afinal, se jornalista que exagera na dose tem de responder na Justiça, por que quem ocupa a presidência de uma entidade de repercussão social não sofre qualquer tipo de ação?

De qualquer forma, não seria Milton Bigucci que comprometeria os dois pontos mais positivos do Diário do Grande ABC nos últimos dias.

Agora, que o mercado imobiliário não pode ficar solto, livre e desimpedido, isso não pode. Milton Bigucci representa uma classe desmedidamente ambiciosa e materialista, que pouco se lixa com o futuro de incautos investidores ou com os tomadores de empréstimos regulares para aquisição da casa própria. As exceções confirmam a regra.

Leia mais matérias desta seção: