Imprensa

Diário do Grande ABC continua a mesopotâmica guerra contra PT

  DANIEL LIMA - 06/04/2010

E o Diário continua na mesopotâmica guerra contra o PT do Grande ABC! Calma, calma leitores. Vocês não estão consumindo a versão online do Macaco Simão, o impagável colunista da Folha de S. Paulo.

Fiz apenas uma colagem para dizer o seguinte, curto e grosso: como jornalista e, principalmente, como assinante do Diário do Grande ABC, estou cheio, muito cheio, da guerra de guerrilhas do jornal contra o PT no Grande ABC, principalmente o PT de São Bernardo do prefeito Luiz Marinho, primeiro-amigo do presidente Lula da Silva.

Estaria igualmente incomodado se o alvo do jornal fosse o grupo de aliados de José Serra.

Afinal, se é para perseguir, que se faça com inteligência.

Não pensem que sou ingênuo, que não sei o que pode estar por trás de cada manchete quando se pretende pegar alguém supostamente de calças curtas, mas, tenham a santa paciência: não abusem de minha inteligência. Nem dos leitores em geral.

Se é para continuar esfolando o Partido dos Trabalhados, do qual não tenho nem quero procuração de advogado de defesa — primeiro porque não sou advogado, segundo porque nem tudo que é criticado tem o vício da perseguição, embora assim o pareça — que o Diário do Grande ABC reserve no alto da primeira página um comunicado aos navegantes. Que dê conta da linha editorial incondicionalmente contrária a tudo que se refere ao partido do presidente da República no Grande ABC. É um direito inalienável da publicação, tanto quanto a contrapartida dos custos à imagem decorrentes das medidas que tomar.

Afinal, se é para perseguir, que se faça com inteligência.

Ou estaria este jornalista enganado, equivocado, ao propor visibilidade explícita à linha editorial do Diário do Grande ABC?

Seria mesmo dispensável qualquer iniciativa de imprimir espécie de selo na primeira página, demarcando-se publicamente as vontades da direção empresarial do Diário do Grande ABC?

Será que a linha editorial do Diário do Grande ABC estaria sendo observada sob valores tão escancaradamente amadorísticos no tratamento dispensado ao PT do Grande ABC e tão azeitada em favor dos aliados tucanos a ponto de se tornar dispensável qualquer iniciativa em forma de selo informativo das vontades da direção empresarial?

Afinal, se é para perseguir, que se faça com inteligência.

A coleção de matérias e chamadas de primeira página que meus arquivos registram do relacionamento entre o Diário do Grande ABC e administrações petistas que assumiram São Bernardo, Diadema e Mauá em janeiro do ano passado é um atestado do quanto o jornalismo perdeu-se na nebulosidade de interesses particulares.

Choca-me como jornalista e como leitor o despudor com que sou tratado. O Diário do Grande ABC faz por aqui, mas com muito menos qualidade, discernimento e competência, o que a revista Veja edita em âmbito nacional. Faltam arte, cérebro e engenhosidade que a Veja, pelo menos para o leitor comum, esbanja. O eventual direito de partidarizar e politizar o noticiário torna-se, portanto, caricatura — no caso do Diário do Grande ABC. Alguém precisava dizer essa verdade para Ronan Maria Pinto, dono da publicação.

O mesmo Ronan Maria Pinto que nos tempos de apenas leitor, de apenas empresário do setor de transportes, tanto sofreu na mão de maus jornalistas durante o caso Celso Daniel, no qual, como se sabe, não encontrou apoio de ninguém. Exceto deste jornalista, que não o conhecia pessoalmente, mas sabia que a história construída pelo Ministério Público, juntando crime e supostas propinas, não dava cola porque, entre outros motivos, se há algo de que não pode ser acusado Ronan Maria Pinto é de otário.

Afinal, se é para perseguir, que se faça com inteligência.

Diria, sem medo de errar e sem medo de represálias, que, enquanto o Santo André, também de Ronan Maria Pinto, é uma equipe de Primeira Divisão com amplos méritos de consagração inclusive com o título estadual, o Diário do Grande ABC flerta com o rebaixamento à Série D do Campeonato Brasileiro de Jornalismo de Qualidade.

Embora não concorde, mas admita em última instância que um veículo de comunicação seja observado sob lentes de empreendedorismo capitalista, mesmo assim, repito, o Diário do Grande ABC tomou o bonde errado porque lhe falta competência gerencial na área editorial. Nada pior para um produto editorial do que a fragilidade editorial. Um boteco que resolva sustentar os custos de um veículo de comunicação para divulgar sua marca já sofre se a publicação for de má qualidade. Imagine então uma empresa de comunicação.

Afinal, se é para perseguir, que se faça com inteligência.

O jornal que recebo todos os dias não tem arte sequer para dissimular as vontades do sexto andar.

Será que não há um consultor sequer, desses que aceitam qualquer empreitada, para colocar nos eixos os desejos de Ronan Maria Pinto, algo como Sérgio Soares na direção do futebol da equipe?

Ou será que já existiria informalmente no organograma do Diário do Grande ABC um consultor de conteúdo que de conteúdo só entende se for o líquido de alguma garrafa de uísque?

Será que Ronan Maria Pinto ainda não se apercebeu que, como no futebol, quando achou que entendia do riscado, o time foi rebaixado à Série B do Campeonato Brasileiro, também no mundo editorial há especialistas que podem dar uma remodelada geral para escantear o amadorismo e evitar novos rebaixamentos?

Afinal, se é para perseguir, que se faça com inteligência.

Acho que demorei um bocado para, sempre como jornalista e como leitor, mais como leitor do que como jornalista, botar a boca no trombone contra os atentados quase diários de mau-gosto informativo em que se transformou a política de tratamento jornalístico às administrações petistas do Grande ABC. Teria a mesma disposição para um combate semelhante se as baterias fossem direcionadas aos aliados do governador José Serra.

Aliás, como tive no passado no caso do mesmo Diário do Grande ABC, sob outra direção, quando o jornal liderou os triunfalistas de ocasião para pavimentar um Grande ABC de mentirinha em pleno período de rebaixamento drástico da riqueza econômica regional. Como provam meus escritos gerais, alguns dos quais sistematizados nos livros República Republiqueta, Meias Verdades e Na Cova dos Leões.

Portanto, para que não vejam fantasmas, não há nada de pessoal nessas queixas legítimas de leitor e jornalista.

Essencialmente, falta talento para não escancarar de forma tão despreparada as portas de interesses extra-jornalísticos, os quais, repito, repito, repito, admito em última instância, desde que se fundamente em fatos consistentes, graves e comprometedores à sociedade como um todo.

Afinal, se é para perseguir, que se faça com inteligência.

Acreditem os leitores que esse desabafo não tem nenhum vínculo com qualquer um dos administradores públicos atingidos ao longo dos últimos 15 meses. É apenas um desabafo, nada mais que um desabafo.

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