Imprensa

Comandar redação é como dirigir time de futebol. Sem tanta pressão

  DANIEL LIMA - 30/03/2010

Sabem os leitores qual é a maior diferença entre ser técnico de futebol e responsável pela redação de um veículo de comunicação? Os técnicos sofrem muito mais. Se os resultados não aparecem, logo são dispensados sem dó nem piedade, porque a torcida e a imprensa não costumam aliviar. Os comandantes de redação têm mil maneiras de fugirem de incômodos. O principal mesmo é tornarem-se subservientes aos acionistas. Nesse caso, por pior que seja o produto, a sustentação no cargo será compulsória. O alinhamento automático de interesses do negócio, que invariavelmente não são os interesses da sociedade nesse segmento capitalista demais para os pressupostos de responsabilidade social, é a porta escancarada à longevidade no cargo.

Não chego à analogia de “me diga há quanto tempo está no cargo que lhe digo o que fazes”, mas que há estreita relação entre uma coisa e outra, não tenho dúvida. Principalmente nos veículos grandes e médios mais assediados por interesses políticos e partidários.

Não me causou surpresa a quebra da revista Livre Mercado sob o comando acionário do arrivista Walter Sebastião dos Santos, empresário que dizem já não lidar bem com a especialidade que abraçou, a recuperação de tributos.

Imaginava aquele falastrão que seria uma grande moleza alterar completamente a personalidade editorial da publicação. Somente quem não entende nada do riscado simplifica tanto a equação. Ao mandar para o paredão a filosofia editorial e a equipe deixada por este jornalista, o dono da Best Work Consultoria Empresarial cavou a própria sepultura. Ele é um noviço rebelde na área de comunicação que, acredita-se após o fracasso, provavelmente jamais se meterá na empreitada, depois de repassar a marca para o grupo do Hoje Jornal, de São Bernardo.

Dirigir gente é uma arte a que nem todos estão preparados. E por mais que se imagina que se está preparado, há sempre surpresas no meio do caminho. Gerenciar pessoas é uma missão complicadíssima em qualquer atividade. No jornalismo, então, é melhor multiplicar por muitas vezes. Os egos exacerbados fazem parte do show, como nas artes de maneira geral.

Para começo de conversa, do alto da experiência de 45 anos de jornalismo e de quase todo esse tempo multiplicando-me em funções interdependentes, de repórter a editor, asseguro que poucos são os profissionais do ramo que têm de fato tutano para comandar uma redação ou mesmo uma determinada editoria.

Quando se repassa a função de liderar um grupo de profissionais, coloca-se em xeque principalmente a personalidade do escolhido. Há gente qualificadíssima para determinada função que perde o sono e morre de medo quando lhe entregam o comando. O amedrontamento de uns se contrapõe à arrogância de outros que, igualmente inseguros, armam-se de arbitrariedade e de distanciamento hierárquico para exercer o poder com ares de chefia inquestionável.

Não existe em atividade humana que exige relacionamento interpessoal o que poderia ser chamado de protótipo do sucesso. Não existe uma matriz comportamental mágica capaz de distinguir o bem do mal em cargos de comando. Em circunstâncias normais, existe competência como regra básica e indescartável. Um comandante elegante no tratamento com subalternos não será necessariamente vitorioso se lhe faltarem conteúdo, didática, pragmatismo e tantas outras especificidades postas à prova de resultados. Um comandante explosivo não será necessariamente derrotado se apresentar predicados que o tornem referência de entusiasmo, dedicação e grau de resolutividade.

Não acredito sinceramente em lideranças brandas no efervescente ambiente jornalístico — nem em lideranças ruidosas de caráter duvidoso. Acredito sinceramente na capacidade de fazer acontecer. O ambiente de uma redação de jornal ou revista é transposto em cada linha impressa. Quanto mais uma equipe sofre mudanças, mais problemas se registrarão. Assim como no futebol, um time entrosado e de especialistas faz enorme diferença.

Quem acha que uma redação é apenas detalhe num empreendimento jornalístico, estatela-se na dura realidade do fracasso. Produto jornalístico que não seja capaz de atingir o orgasmo, extratificado na influência social, é algo como boneca inflável. Não passa de embuste.

O maior problema dos donos de jornais e revistas que não são jornalistas de botar a mão na massa com um mínimo de maestria, é acreditar que são eles os chamarizes de audiência. Bobagem. Disse numa reunião de diretoria do Diário do Grande ABC há seis anos algo que provavelmente nenhum antecessor teve a sinceridade de expor: os leitores não querem saber quem são os diretores da empresa que constam do expediente, mas sim a identidade dos jornalistas que assinam as matérias, os artigos, essas coisas.

Quem não é do ramo jornalístico — tanto os jornalistas que se imaginam qualificados quanto os empresários que se metem nos negócios de informação — jamais saberá a diferença entre escalar bem e escalar aleatoriamente uma equipe de redação. Entreguem qualquer dos times nacionais a curiosos que se imaginam treinadores e vejam o que dará. Nas redações é assim também, com uma grande diferença: no futebol profissional já se conhecem de cor e salteado as qualificações de cada atleta, enquanto no mundo da mídia é fundamental descobrir as aptidões e adequá-las à funcionalidade da engrenagem chamada informação.

Diria que o maior desafio do cotidiano de uma redação é saber escolher as peças para o jogo de xadrez da produção de informação. E nesse ponto o que determina a diferença entre um bom produto e um produto chinfrim é colocar o profissional certo na função certa. No mundo da bola é muito difícil escalar um centroavante de zagueiro. Nas redações, de maneira geral, há profissionais que vivem permanentemente em lugares errados. Há jornalistas potencialmente formidáveis que, fora da especialidade à qual estão preparados ou vocacionados, transformam-se em pernas de pau.

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