Imprensa

FHC versus Lula: quem ganha essa disputa é a Folha de S. Paulo

  DANIEL LIMA - 10/02/2010

Já faz algum tempo que a Folha de S. Paulo está mostrando uma das veredas pelas quais o jornalismo diário impresso obrigatoriamente terá de percorrer para amenizar os novos tempos tecnológicos de influência visceral nos hábitos de leitura e, sobretudo, na sobrevivência das publicações. Além da informação propriamente dita, a Folha de S. Paulo abre espaço para análises que dão suporte à interpretação dos leitores. No caso das críticas veiculadas no Estadão de domingo em artigo assinado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao governo do presidente Lula da Silva, a intervenção da Folha de S. Paulo foi cirúrgica. Os outros jornais ficaram em cima do muro do repasse convencional dos enunciados de FHC e da reação dos petistas.

Não tenho dúvida de que o maroto evangelho de neutralidade de jornais diários, que contamina os demais veículos de comunicação, é uma das explicações para os desatinos gerais, de políticos a empresários, de sindicalistas e acadêmicos, enfim, de todos aqueles que protagonizam o noticiário.

Os interesses econômicos, políticos e sociais se sobrepõem ao compromisso republicano de informar qualificadamente. A utilização malandra da semântica de suposta neutralidade para manter os jornalistas rasantes nas informações é difundida nas escolas de jornalismo e imposta em redações de jornais, exceto quando convém ao dono do negócio da informação atingir adversários. Nesses casos, os textos são ardilosamente editorializados.

Sou avesso ao jornalismo comodotizado de informação fria e relatorial. Já escrevi muito sobre isso. Jamais me pendurei na falsa ética da neutralidade programada para sofismar. Jornalista precisa ter comprometimento com os fatos, e esse comprometimento se manifesta com base em conhecimento, em valor agregado tão escasso e desprezado.

Empresa jornalística séria não pode ser confundida com partido político. Já cansei de dizer a alguns homens públicos que não existe nada pior que distorcer os fatos. É preferível enfrentar a realidade de uma situação incômoda a correr do prejuízo dobrado. Essa conceituação não tem exclusividade no ambiente político. Está aí a Toyota em asfixiante saia justa depois de tentar esconder problemas técnicos de veículos produzidos nos Estados Unidos.

Brincar com a realidade é a pior forma de conduzir a imagem de um administrador. Não é por outra razão que tive e ainda tenho dificuldades em lidar com determinados agentes públicos, privados e sociais. A maioria é corporativista, individualista, partidária e exerce o direito inalienável de procurar impor interesses e o obtém na medida em que interlocutores da mídia por razões diversas aceitam as regras do jogo.

A intervenção do jornalista Gustavo Patu na análise da Folha de S. Paulo sobre o artigo assinado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é preciosa. Creio que os leitores apreciariam os pontos mais importantes do trabalho.

Sobre Pobreza — Fernando Henrique disse: “Com o Real, a população pobre diminuiu de 35% para 28% do total. A pobreza continuou caindo, com alguma oscilação, até atingir 18% em 2007″. A explicação do jornalista: “Após a queda brusca no primeiro ano do Plano Real, a taxa de pobreza se manteve quase estável entre 1996 e 2002, só voltando a cair de forma aguda sob Lula”.

Sobre o Salário Mínimo — Fernando Henrique disse: “De 1995 a 2002 houve um aumento real de 47,4%; de 2003 a 2009, de 49,5″. A explicação do jornalista: “Metade do aumento se deve ao reajuste concedido no primeiro mandato (de FHC) por pressão do Congresso, contra a vontade do governo”.

Sobre Rendimentos — Fernando Henrique disse: “Hoje, o rendimento médio real dos trabalhadores se encontra abaixo do nível alcançado nos anos iniciais do Plano Real”. A explicação do jornalista: “O rendimento médio dos trabalhadores é inferior ao de 1998 porque caiu a partir do segundo mandato de FHC, só voltando a subir em 2005, sob Lula”.

Sobre a Dívida pública — Fernando Henrique disse: “Foi esse temor (do mercado com o programa de Lula) que atiçou a inflação e levou seu governo a elevar o superávit primário e os juros às nuvens em 2003″. A explicação do jornalista: “Os temores do mercado também foram alimentados pelo forte aumento das dívidas interna e externa ao longo do governo tucano (51,32% do PIB no fim da gestão FHC”.

Se um ex-presidente da República, detentor de currículo acadêmico que extasia a intelectualidade do País, é capaz de preparar um artigo com deformações e imprecisões apontadas pelo jornalista da Folha de S. Paulo, o que esperar de tantos outros agentes públicos, privados e sociais? A manipulação informativa que impera na mídia verde-amarela é a regra geral. A intervenção lúcida e respaldada em fatos é exceção.

Não foi por outra razão que há sete anos escrevi o livro “Meias Verdades”, com a exposição de mais de três dezenas de casos publicados em jornais (da região e da Capital) sobre o uso indiscriminado da mídia para proveito próprio dos entrevistados. Mais que isso: em muitas situações daquele livro, o que se observa também é que havia um encontro das águas de interesses do veículo de comunicação e das fontes de informação. Tudo sob medida.

A desculpa esfarrapada de determinados donos de jornais, através de ventríloquos também conhecidos por editores de conteúdo ou assemelhados é sempre a mesma quando se coloca em xeque a pasteurização das reportagens: reservam para as páginas de editoriais a interpretação do noticiário.

Na maioria dos casos tudo não passa de encenação, de trucagens. O direcionamento do noticiário supostamente neutro é a plataforma sobre a qual giram os conceitos do editorialista. Além disso, a visibilidade gráfica das páginas de noticias é muito mais atraente que a discrição dos espaços reservados aos editoriais.

As páginas de noticiário estão para as vitrines feericamente iluminadas de lojas de shopping center assim como os espaços de opinião estão para as áreas de estoque dessas mesmas lojas.

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