Imprensa

Pepitas jornalísticas

  DANIEL LIMA - 15/12/2009

Eis que resolvi observar com mais atenção o conteúdo daquela pasta de papelão que há muito tempo carrego comigo a cada mudança de endereço profissional. Sei lá quanto tempo de uso já tem aquela sanfona disciplinadamente compartimentada em ordem alfabética. Passa dos 20 anos, seguramente, porque o material que a recheia e lhe dá forma suficiente para que não murche é uma parte da produção de textos nos três anos seguidos em que atuei como contratado (fora os 10 anos como free-lancer) na sucursal do Grande ABC da Agência Estado, empresa que abastece ainda hoje os jornais o Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde e imensa rede de veículos no País. São centenas de títulos.

Resolvi separar algumas matérias. Encaminhei-as à digitação, porque pretendo instalá-las também neste site. Tenho preciosidades que ajudam a entender as transformações sociais e econômicas no Grande ABC.

Nem me dava conta de tudo isso que testemunha mudanças profundas na região. Escrevi sobre os mais diferentes assuntos durante aqueles três anos na Agência Estado, principalmente de economia e esporte. Uma rápida releitura de alguns textos é suficiente para a confirmação do que muitos não percebem: perdemos muitas indústrias de prestígio. Logomarcas reluzentes deixaram imenso vazio na geografia regional.

Seguramente, estão disponíveis na pasta sanfonada perto de 100 reportagens que redigi e, em seguida, Angela Maria Guimarães (ou seria outro o sobrenome referente ao “G” de AMG que aparece ao final de cada texto?) redigitou no aparelho de telex, para envio à central de operações da Agência Estado? Sim, naqueles anos da segunda metade da década dos 80, não havia computador nem internet. Escrevia numa velha Remington, como todos os companheiros de jornalismo naquele sobrado da Rua General Glicério, em Santo André.

A barulheira infernal daquele dedilhar permanente de letras seria insuportável nestes tempos de silêncio quase total das engenhecos tecnológicas que revolucionaram o mundo das comunicações. Mas quem disse que não somos as nossas circunstâncias?

Tanto somos que o batucar personalizado de parágrafos e parágrafos de cinco, seis jornalistas, numa pequena sala, ganhava a força psicológica de uma escola de samba, embora de escola de samba, de fato, não houvesse nada naqueles erráticos sons decorrentes da velocidade individual de transmitir para o papel o que vinha à cabeça em forma de conhecimentos e informações.

Sentia-me, de qualquer forma, numa passarela, embalado pelo ritmo de uma produção individual dependente sim do entusiasmo coletivo porque, quando a sala se esvaziava a cada começo de noite, o som da produção lembrava a mesma escola em retirada.

Formávamos um time de verdade, embora sem a mesma cumplicidade dos tempos de repórter e editor de Esportes do Diário. Nada mais natural, porque quatro quintos de meus 15 anos de Diário foram de convivência com praticamente os mesmos jornalistas esportivos. Mas o grupo que atuava na sucursal do Estadão deixa saudade pela disciplina com que cada um se lançava à pauta diária.

Não diria que o resgate de parte do material daqueles tempos e a consequente inserção neste site seja algo como a escolha de Sofia, mas numa primeira etapa me fixei em pouquíssimos textos, aqueles que julgo mais longevos ou emblemáticos daquele período. Querem um exemplo? A chegada das duas primeiras lojas do McDonald’s no Grande ABC, mais precisamente em Santo André e em São Bernardo. Vejam alguns trechos da matéria redigida em 30 de setembro de 1987:

  • O enorme M amarelo que integra a paisagem urbana de 46 países que abrigam cerca de 9.600 lojas já começa a despontar no ABC Paulista. A rede de refeições rápidas McDonald’s, com 18 lojas em São Paulo e uma em Campinas, está chegando a Santo André e a São Bernardo do Campo. Num investimento de US$ 3 milhões, a McDonald’s espera contabilizar nas duas novas unidades, que estarão funcionando até janeiro, nada menos que 500 mil pedidos mensais, 100 mil acima da loja do Center Norte, em Santana, que detém a liderança de faturamento da Restco Comercial de Alimentos, representante desta rede internacional em São Paulo.

E a chegada do Mappin Shopping ABC, então, retratada no texto de 2 de dezembro de 1987?

  • Quase um Morumbi lotado marcou a inauguração do Mappin Shopping ABC e, depois disso, diariamente, mais que um Pacaembu igualmente lotado passa pelas escadas rolantes do empreendimento que está revolucionando o setor de comércio e de serviços do ABC Paulista, região com dois milhões de habitantes e renda familiar média estimada em 7,5 salários mínimos/mês. As 100 mil pessoas que literalmente invadiram o Mappin Shopping ABC e as 60 mil que diariamente percorrem os 56 mil metros quadrados construídos fazem a alegria da diretoria da empresa. Afinal, trata-se da consagração de um meticuloso plano de expansão que tem como resultado a incorporação do Mappin não só como novo elemento socioeconômico da região mas o divisor de águas que certamente inserirá as áreas comercial e de serviços do ABC num patamar mais moderno.

Pouco tempo depois, em 23 de fevereiro de 1988, despachei para a Agência Estado uma nova matéria sobre a economia do Grande ABC. Leiam os primeiros parágrafos:

  • O setor comercial do ABC Paulista já não é mais o mesmo. Um misto de deslumbramento e susto modificou essa região de dois milhões de habitantes e o quarto potencial de consumo do País, atrás apenas de São Paulo, Rio e Belo Horizonte. O deslumbramento é da população, depois que, nos últimos meses, se instalaram em Santo André e em São Bernardo do Campo o Mappin Shopping ABC, o ABC Shop Center e duas lojas do Grupo McDonald’s e que, nesta quinta-feira, festejará a inauguração de uma Loja Eldorado — um amplo hipermercado e um grande magazine. A constatação de que o ABC Paulista deixou o provincianismo no setor é o motivo do susto dos comerciantes que acompanham, atônitos, o esvaziamento de tradicionais pontos comerciais.

Essas matérias estão sendo digitadas para integrarem-se a este site porque têm importância que excede o tempo. Mostram os primórdios das invasões bárbaras que ocorreram nos setores comercial e de serviços do Grande ABC.

Mais tarde, por obra do destino, pude, durante duas décadas à frente da revista LivreMercado, dar sequência a esse inventário, agora com a radicalização das mudanças que atingiram em cheio o setor industrial, centro nervoso da sociedade regional. Desaparecida a revista Livre Mercado em janeiro deste ano, cedendo lugar à “Deus me livre”, que, segundo dizem alguns, ainda circula no Grande ABC, mantenho-me antenado neste site.

Aguardem pela inserção das matérias dos tempos da Agência Estado. Saímos do provinciano econômico nas áreas de comércio e de serviços e penetramos lenta mas implacavelmente num estágio de canibalismo que parece não ter fim, com desastrosos efeitos sociais fartamente apontados ao longo dos tempos por LivreMercado.

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