Política

Existe mesmo batalhão de
candidatos em Santo André?

  DANIEL LIMA - 26/02/2019

Só foi publicar aqui que o prefeito Paulinho Serra não tinha concorrentes à reeleição no ano que vem e, também, que um grupo estaria decidido a importar o estelar Danilo Gentile, como fizeram oposicionistas de Celso Daniel e correligionários de Celso Russomano em 2000, e eis que brotou como cogumelos nas redes sociais uma legião de supostos candidatos. 

As redes sociais não podem ser desqualificadas. Afinal, se tornaram também estuário de incursões de deserdados do jornalismo profissional com suas nuances editoriais nem sempre democráticas. Além disso, provocam mudanças no enxadrismo de publicações menos ortodoxas às condicionalidades. Tanto que algumas das identidades de mídias impressas e digitais da região já detectaram a movimentação em Santo André. 

Alguns desses supostos candidatos são oficialmente adversários, casos do ex-vereador Ailton Lima e do então multi-secretário da Administração Aidan Ravin, Nilson Bonome. Outros menos votados ainda não o fizeram e talvez não o façam; ou seja, não passariam de fogos de artifício em forma de concorrência.

Paralelos claríssimos 

Há nessa movimentação aparentemente precoce dois paralelos de intenções com alto teor de pragmatismo e que não se encontrariam necessariamente no horizonte de outubro do ano que vem.

O primeiro paralelo daria conta de que a Administração de Santo André estaria suficientemente desgastada para motivar grupos políticos diversos a assanharem-se em busca do Paço Municipal.

A zebra chamada Jair Bolsonaro estimularia a ancoragem dessa perspectiva. Muitos acreditam que um trabalho profissional nas redes sociais quebraria tudo em matéria de convencionalismo eleitoral. Como Jair Bolsonaro e sua tropa de choque, principalmente no aplicativo Whatsapp. 

Facada fez diferença

Resta saber se alguém estaria disposto a levar uma facada que estendesse o predomínio nas redes sociais a alguma relevância nas mídias convencionais. Ou alguém acredita que sem a facada Bolsonaro teria sido o que é? Poderia ter sido, claro, mas há controvérsias sobre isso. E estou à vontade para essa condicionalidade, porque assim que ouvi a notícia cantei a vitória do capitão. Só os idiotas não perceberam a mudança de rota que lhe abriu as portas para a mídia eletrônica convencional. 

O segundo paralelo permitiria a leitura de que ao acreditar na especulada fragilização da administração iniciada em janeiro de 2017 o prefeito Paulinho Serra estaria acessível a negociações com vistas a reduzir drasticamente os pelotões de supostos dissidentes, oferecendo-lhes postos públicos para acalmar o ânimo geral.

É assim que funciona o mercado eleitoral, antes e depois das eleições, num permanente jogo de interesses geralmente inconfessos a confirmar que democracia é o pior dos regimes, com exceção de todos os demais. A ordem geral dos especuladores é disseminar contratempos no governo de plantão para fertilizar a estrada rumo à empregabilidade dos correligionários e a realocação em postos-chave na Administração Pública.

Barateando campanhas 

Voltando ao primeiro paralelo, bastaria organizar um grupo e contar com apoiadores que deem suporte financeiro e tudo se encaminharia a uma demonstração de força que, também no caso, teria as redes sociais como ponto de inflexão e de popularização de mensagens. 

Portanto, já se teria ido para o quarto de despejo de dificuldades a necessidade de arrumar muito dinheiro para colocar a campanha nas ruas e, também, chegar o mais próximo possível dos meios de comunicação, tornando-os assessorias de imprensa.

Ainda vou escrever mais profundamente sobre o presente e o futuro próximo das mídias sociais regionais nas disputas municipais, caso das eleições do ano que vem no Grande ABC. Estou observando atentamente os movimentos há muito tempo. Redes sociais nacionais e regionais, com subprodutos municipais, são completamente diferentes. Mas não excludentes. 

Preliminarmente diria que não se pode de forma alguma menosprezar os efeitos que já se espalham e o que viria por aí na medida em que o calendário eleitoral estreitar-se. 

Retirada e alvoroço

No caso específico de Santo André, a candidatura do ex-vereador e ex-secretário do próprio prefeito atual causou certo alvoroço. Ailton Lima foi bem votado tanto na disputa municipal de 2016 (50 mil votos que o levaram a apoiar Paulinho Serra no segundo turno, catapultando-o à Administração como secretário de Desenvolvimento Econômico, o que não é necessariamente uma boa jogada) e também na mais recente disputa à Câmara Federal. E isso – principalmente o “isso” da disputa federal – sem que o candidato tenha acordado para a avalanche das redes sociais, cujos candidatos mais proeminentes fizeram a feira na região. Os Bolsonaros, Janaina Pascoal, Joice Hasselmann e tantos outros.

Meto-me em tudo quanto é grupo de Whatsapp como espécie de voyeur. Faço uma leitura diária dos comentários. Dedico uma parte do meu dia de jornalista a vasculhar tudo que o aplicativo oferece, descartando de imediato as baboseiras de sempre. E o que as redes sociais têm oferecido em alguns casos relacionados a Santo André é profissionalismo puro, embora em escala muito inferior, quase microscópica, em relação a improdutividades gerais.

Se o nível de qualidade dos opositores tanto de Paulinho Serra quanto dos demais prefeitos que concorrem à reeleição for o padrão que verifiquei no nicho de coisas aparentemente boas na última semana, acho que não restará saída senão monitoramento analítico permanente da equipe do titular do Paço de Santo André. 

Tratamento profissional 

O efeito das declarações de Paulinho Serra sobre o afastamento de Ailton Lima dos quadros da Prefeitura de Santo André para concorrer ao Executivo no ano que vem foi cuidadosamente interpretado numa peça de campanha anônima nas redes sociais. A conclusão é que se colocou o tucano numa posição pouco agradável. Não se tem ideia de quem tenha preparado aquela espécie de peça de propaganda eleitoral ou já estaria o concorrente Ailton Lima a soltar o frango de idiossincrasias no campo aberto da disputa eleitoral? 

Parece que já há gente profissional do outro lado da democratização da mídia que entendeu uma lição indispensável ao convencimento ou ao menos ao enquadramento dos consumidores de informação num plano de atenção, não de desprezo: não se deve mentir de forma a que a mentira tenha cara, corpo e alma de mentira; e o melhor mesmo é dar veracidade à interpretação própria de fatos envolvendo adversários com base em arrazoados que,  no mínimo,  levem terceiros a refletirem sobre o conteúdo da mensagem. 

Quem conquista credibilidade com uma peça publicitária de oposição a qualquer que seja o político em ação ganha um caminhão de vantagens nas postagens seguintes. O apressado e o despreparado comem cru. Gastam dinheiro à toa. 

Quem abusa se ferra 

As chamadas fake news só são fake news quando preparadas por gente desqualificada que não entende nada de credibilidade em forma de poupança. São emissores de notas e peças com prazo de validade tão breve quanto evocativas ao tiro pela culatra. Ou vai dizer o leitor que ao descobrir que andou acreditando em mentira, vai levar a sério a mensagem seguinte do repassador imprudente ou especulador?  Quem já não foi vítima tanto de um quanto de outro sem se dar conta? E quando se deu conta ficou transtornado.

Prometi enveredar pelas mensagens de aplicativos em outra ocasião, mas não resisto a dizer que disputas eleitorais municipais (teremos as primeiras sob os efeitos do derramamento tecnológico democrático que elegeu um presidente da República) tenderiam a ser menos polarizadas ideologicamente. 

Chegamos nas eleições presidenciais a uma situação de quase paranoia, de uma polarização estúpida que se mantém menos abrasiva. Em nível municipal, os efeitos ideológicos seriam menos impactantes. Até porque provavelmente os candidatos mais permeáveis a votos ocuparão espaços semelhantes no espectro de direita e centro-direita. Isso, claro, se o governo Jair Bolsonaro não for um fracasso onde mais interessa – na Economia e no combate à violência urbana, ressuscitando principalmente o petismo. Algo, hoje, fora de cogitação. Exceto pela força do partido em São Bernardo, onde Luiz Marinho vai concorrer com possibilidade de atrapalhar a carreira de Orlando Morando. 

É possível que tudo isso e muito mais estimulem as manifestações preliminares em Santo André, território onde meus radares cognitivos estão mais ligados. Na medida em que me incluir em outros grupos de municípios locais poderei ter uma visão mais aguçada do quadro regional que deverá obedecer a rituais próprios, de cultura própria. 

Acho melhor os políticos que comandam os respectivos paços municipais atentarem ao que os cerca. Geralmente os assessores diretos não repassam informações desagradáveis, mantendo o titular numa redoma impermeável à voz rouca que não está mais necessariamente nas ruas, mas ronca nos pequenos aparelhos de celulares nestes tempos de portabilidade da democracia.

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