Imprensa

Falta pensamento, falta espaço

  DANIEL LIMA - 17/11/2009

O jornalista Marcelo Moreira tem razão quando indaga do alto de sua coluna no jornal eletrônico ABCD Maior:

“Onde está o pensamento da região?”

Afirma o jornalista com o qual trabalhei durante nove meses no Diário do Grande ABC, um dos poucos indicados por mim quando assumi a direção de Redação em 2004:

“Afora os jornalistas de sempre que procuram de vez em quando provocar a sociedade, há pouca variedade de pensamento qualificado nos veículos da região. Os intelectuais estão encastelados em seus escritórios e em seus gabinetes”.

Este é o terceiro parágrafo do artigo. A abertura tem o seguinte enunciado:

“A região ganhou mais jornais, mais canais de TV, sites e toda uma série de publicações gratuitas distribuídas pelas ruas e avenidas. Há notícias para todos os gostos, há informação em toneladas, de todas as cores e todos os credos, de variados tons e ideologias”.

Na sequência, afirma:

“Só que falta debate. Falta gente que pensa e produz conhecimento nas páginas do ABCD como um todo, nas transmissões de TV e de rádio e nos artigos na Internet. Nem mesmo os blogs pessoais das pessoas que pensam a região e que produzem conhecimento conseguem instigar polêmicas e debates”.

Marcelo Moreira, hoje no Jornal da Tarde, menciona com uma das poucas exceções o secretário de Desenvolvimento Econômico de São Bernardo, Jefferson José da Conceição, assíduo colaborador de diversas publicações e, segundo afirma, um prolífico produtor de artigos importantes sobre a economia do ABCD.

Cobra o ressurgimento de Jeroen Klink, ex-secretário de Desenvolvimento Econômico de Santo André e hoje instalado na Universidade Federal do Grande ABC. Chama para o jogo o professor Flávio de Souza, que tem um blog no ABCD Maior mas que aparece pouco nas páginas em papel.

Completa Marcelo Moreira: “O número de universidades aumentou bastante nos últimos anos. Ganhamos uma universidade federal. Só que os intelectuais continuam fechados em suas cátedras e encastelados em suas teses de mestrado e doutorado. Há páginas nobres na imprensa regional à espera de novas ideias e mais debates. O conhecimento não pode continuar enclausurado em nichos acadêmicos ou restritos a gabinetes e prefeituras”.

Agora, transposto o talento e a perspicácia de Marcelo Moreira, profissional que qualquer editor deveria ter em seus quadros, chega a minha vez de comentar.

O próprio Marcelo Moreira é um exemplo emblemático da escassez de oportunidade ao talento na mídia regional. Se faltam craques nas redações, craques forjados nas escolas de jornalismo que podem não ser lá essas coisas mas são melhores que nada, se faltam craques, como dizia, como esperar que o pensamento mais bem elaborado tenha vez?

Predomina, salvo honrosas exceções, a mediocridade fastfoodiana. Embora não falte mesmo espaço na mídia impressa e eletrônica para um bom jornalismo, e bom jornalismo não prescinde de gente da academia e do setor público, tampouco da iniciativa privada e da sociedade, falta gente qualificada com capacidade de escrita e de oratória.

E sabem por quê? Porque basicamente falta gente com independência no sentido mais amplo do verbete para exercitar um esporte que os donos da mídia detestam que seja praticado: a crítica analítica séria, sem medo de cara feia. Exceto se coincidir com os interesses dos detentores do poder midiático, é claro.

Ou seja: em proporções semelhantes faltam meios e faltam mensagens para o enriquecimento intelectual da mídia regional, como de resto em todo o País.

Vivemos numa sociedade do espetáculo, da audiência fácil sem compromisso social, e qualquer coisa que se plante em sentido contrário só provocará urticárias.

Sei bem o que passo por exercer jornalismo muito distante do que gostariam que fosse os donos da mídia. Jornalismo é uma profissão em extinção muita antes da aberração da cassação de diploma pelo Supremo Tribunal Federal. O maior erro do STF foi não ter completado a operação desmonte.

Deveriam os ministros, além de revogar o diploma de jornalista, determinar a obrigatoriedade de preenchimento de vagas com profissionais egressos de cursos de relações públicas. Pelo menos a decisão oficializaria a derrocada de uma profissão, evitaria frequentes casos de pautas constrangedoras e disciplinaria a invasão das redações por gente saída de bancos acadêmicos.

Além disso, os jornalistas remanescentes que ocupam postos nas redações não se sentiriam tão aviltados com a concorrência pirata que deverá aumentar o fluxo nos corredores de veículos de menor porte e, principalmente, nas assessorias de entidades públicas sujeitas a indicações políticas.

Se faltam no mercado jornalistas com senso crítico, embasamento cultural e apetrechamento técnico para seduzir os leitores, o que esperar de acadêmicos, de empresários e de representantes da sociedade sem qualquer intimidade com as letras? E quando se encontra um ou outro que reúne boa parte dessas características, surge o sobrepeso das ressonâncias de conteúdos que podem ser indesejáveis ou, lamentável e muito provavelmente, de acordo com o pedido do dono do veículo de comunicação.

Fosse o jornalismo do Grande ABC menos provinciano, Marcelo Moreira não precisaria se deslocar todos os dias até a Capital para exercer a profissão que abraçou com entusiasmo e que o levou, entre outros veículos, à Gazeta Mercantil dos bons tempos. Tantos outros jornalistas igualmente qualificados e com endereço residencial na região bateram asas porque o Complexo de Gata Borralheira também se manifesta na atividade com justa razão porque os veículos locais, por força do empobrecimento regional, não conseguem acompanhar a remuneração do mercado de trabalho da vizinha Capital.

Quem quiser começar a entender por que nossa regionalidade é uma lástima e por que nossa identidade regional está enfaticamente declarada no público médio do Santo André na Série A do Campeonato Brasileiro precisa conhecer melhor o conteúdo dos veículos de comunicação local. Enquanto colunas sociais impressas e eletrônicas forem os espaços de maior audiência, só restará ajoelhar e rezar.

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