Imprensa

Revistas para que?

  DANIEL LIMA - 04/11/2009

Estão destruindo florestas demais para produzir no Grande ABC revistas que de revistas não têm nada, porque mal conseguiriam se, impressas como jornais, jornais se tornarem.

Exceto uma ou outra, com conceitos de revista que, como deveriam todos saber, vão muito além do formato e da materialidade física de papel e diagramação diferenciados, a maioria não passa de lixo impresso. A vantagem desses trambolhos editoriais é que podem ser reciclados.

Há infinidade de destinos para papéis metabolizados tecnologicamente, mas nada que atenue a destruição verde e a frustração dos leitores que a cada virada de página não encontram virtuosidade no conteúdo e sensibilidade nas abordagens.

É impressionante a multiplicação de revistas no Grande ABC. Aos desavisados pode parecer que o mercado publicitário vive viés de alta, quando, de fato, e há muito tempo, entrou em parafuso, após a proliferação de pequenos e médios empreendimentos contrapondo-se às profundas perdas de potencial de consumo.

Convenhamos que, como ensinam especialistas em marketing, não é hora de aderir à correnteza. Modismos semelhantes já fizeram muitos óbitos negociais. O Grande ABC já viveu muitas ondas de curta duração. De lava-rápidos, de videolocadoras, de postos de combustíveis, dos diabos.

Seria surpreendente se numa região que perdeu um terço do PIB industrial e 86 mil empregos industriais com carteira assinada nos oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso — e que nem com as benesses automotivas de Lula da Silva conseguiu recuperar antigos patamares sociais e econômicos — o mercado publicitário respondesse às demandas de que a mídia carece.

O que mais tem na praça é gente vendendo gato por lebre. São produtos de baixíssima qualidade e tiragens muito aquém das propaladas, mesmo com supostos certificados de empresas especializadas em auditagem. Não faltam trambiques para ludibriar os distintos anunciantes.

Chegam a meus endereços comercial e residencial revistinhas de todos os tipos, todas sincronizadas no distanciamento de qualquer um dos ramais do que chamo de regionalidade, que vem a ser, resumidamente, o compromisso de retratar o Grande ABC nos mais diferentes campos sociais.

A maioria das publicações não passa de passarela reservada a pobre e tosco egocentrismo de personagens catapultados a temários de gosto duvidoso. Sem contar artigos assinados por gente de profissões diversas que se acredita detentora de apetrechamento técnico à escrita. Seus conhecimentos seriam estruturalmente aprofundados e valorizados por jornalistas de fato.

Há uma penca de supostos profissionais de jornalismo que não deixam margem a dúvidas: caíram de paraquedas e acreditam que adquiriram status social e, quem sabe, abertura a outras atividades.

Mal sabem que jornalismo de verdade é uma profissão como tantas outras e que se pratica com muito empenho, coragem, conhecimento e acentuada dose de inconformismo — além de saudável insatisfação permanente de saber mais amanhã com disciplinada determinação à leitura.

A esculhambação geral e irrestrita só tende a acentuar-se depois de o Supremo Tribunal Federal cometer o assassinato de abrir porteiras a transgressores de outras áreas, como se já não bastassem os transgressores de origem, ao acabar com a obrigatoriedade do diploma.

O STF resolveu matar o bezerro de uma atividade crucial ao desenvolvimento social de uma Nação em vez de acabar com o carrapato das deficiências dos cursos de jornalismo e da sobrecarga de trabalho das empresas de comunicação.

Se antes mesmo do tiro de misericórdia do Supremo Tribunal Federal os piratas já rondavam e frequentavam os mares jornalísticos, o que esperar depois daquela estupidez togada?

Minha filha trancou a matrícula no primeiro ano de jornalismo da Metodista e já se prepara para nova atividade profissional. O talento natural à escrita será lapidado em cursos específicos e exposto com conhecimento técnico.

Fiquei feliz outro dia quando, como sempre faço, joguei limpo com minha filha sobre o grau de influência que exerci para que mudasse o rumo de sua vida ou, provavelmente, corrigisse o tal rumo de modo que, no futuro, como profissional de outra área, escreva de fato como jornalista, porque talento não lhe falta.

A resposta foi cortante e aliviadora: “E quem disse que você teve alguma influência em minha decisão” — disse Lara, do alto dos 18 anos. Para completar: “Não quero fazer entrevistas, quero dar entrevistas” — disse com a impulsividade e a confiança dos jovens.

De qualquer modo, não foi fácil tomar a iniciativa familiar de alertá-la sobre o que o horizonte poderia lhe reservar, não bastasse o que o presente já nos apresenta.

Imaginem os leitores o pecado que seria omitir de minha filha uma trajetória jornalística trabalhosa, dedicadíssima e, de repente, encontrar um Walter Sebastião dos Santos (e há vários modelitos semelhantes na praça), dono da Best Work Assessoria Empresarial, suposto especialista em recuperação de tributos (que nem sempre recupera, embora cobre pela recuperação) a lhe impor pautas jornalísticas? Ou quem sabe, submetida a um lugar-tenente de Walter Sebastião dos Santos, igualmente ignorante na atividade, embora se meta a redigir (redigir?) coisas ridículas.

Aonde quero chegar nessa conjugação de realidade regional do jornalismo e fragilidade institucional da profissão?

O que quero dizer é que a sociedade com um todo está pagando e vai continuar pagando o pato de folhear publicações com formato de revista, papel de revista, fotografias de revistas, periodicidade de revista mas, de fato, não são revistas, porque nem para a antiga finalidade dos jornais, ainda prevalecente em lugares remotos, servem.

A orfandade dos leitores da revista LivreMercado que criei e dirigi editorialmente durante 19 anos não deveria ser lamentada, como se manifestam conselheiros mais críticos da publicação e tantos outros personagens de diferentes espectros profissionais do Grande ABC. A antecessora da “Deus me livre” de Walter Sebastião dos Santos que está aí a engrossar o coro de incompetências impressas em forma de revistas, deveria e deve ser obervada sob outra perspectiva.

Sabem qual? A de que, como um oásis regional de cunho nacional, LivreMercado ousou contrariar as babaquices generalizadas e durante duas décadas pontuou solitariamente como referência de jornalismo contemporâneo. Como provam os textos que gradualmente incorporamos neste site.

Para completar e para que justiça seja feita: talvez a única revista regional que atenda referenciais de qualificações com que foi concebida e que torna as demais caricaturas de jornalismo, é a Dia-a-Dia, editada mensalmente pelo Diário do Grande ABC. Um produto muito melhor que o próprio jornal que a encarta.

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