Regionalidade

Clubes dos Comerciantes dão
vida boa a Clube dos Prefeitos

  DANIEL LIMA - 13/02/2019

É claro que Clubes dos Comerciantes são as tradicionais associações comerciais e industriais da região. Cada cidade tem uma associação comercial e industrial, mas não existe integração a coloca-las em sintonia com os estragos na economia da região. Escrevo motivado tanto pelos 81 anos de fundação da entidade de Santo André como da de São Caetano. Tradição vale para muitas coisas, inclusive como matéria-prima incestuosa de imobilidade. Deita-se em berço esplêndido, fazem-se salamaleques, usam-se ferramentas de marketing e tudo parece moderno. Tradição enrola o distinto público quando não é acompanhada de mobilização permanente, de inconformismo.

Querem uma prova dos nove? Agora mesmo o prefeito Paulinho Serra, de Santo André, está metendo os pés pelas mãos para forjar o que a mídia mais generosa chama de “Novo Consórcio”. De “novo”, o Clube dos Prefeitos só tem mesmo o comandante, com velhos vícios político-partidários. Pelo andar da carruagem, se a instituição já estava metida em enrascada de ineficiência, ficará ainda pior. Mas haverá muita espuma para tentar transmitir a ideia de que mudou.

Enquanto isso, e aí entram os Clubes dos Comerciantes, tudo transcorre na maior apatia interesseira possível. A institucionalidade do Grande ABC está em frangalhos e parte do agregado de organizações coletivas que poderiam dar um tom de reforma permanece de corpo e alma no século passado, quando surgiram.

Os Clubes dos Comerciantes são municipalistas por excelência, burocráticos por necessidade e politicamente pressionados por vocação. Vou explicar os três conceitos. Não é justo que se expresse determinada especificação sobre determinado assunto sem que se ofereçam aos leitores substâncias que retirem o exposto da vala comum das redes sociais de opiniões sem fundamentação ou exclusivamente unilaterais.

Tripé complicador

Os Clubes dos Comerciantes são municipalistas por excelência porque assim foram concebidos num Grande ABC que ainda não existia no sentido estimulador de integração. Esse sentimento só veio na maioria dos casos muito depois e mesmo assim em forma de marketing. O Grande ABC na prática não existe na maioria das situações.

Exigir que os Clubes dos Comerciantes sejam regionais não é insensatez aqui ou em lugar algum do mundo. Já escrevi sobre isso. O municipalismo de atuação junto aos associados não impediria (mais que isso, exigiria) atuação estratégica regional, juntamente com as entidades semelhantes.

Os Clubes dos Comerciantes são burocráticos por necessidade porque precisam se virar financeiramente. Só assim dão conta das demandas orçamentárias. Contar com serviços diversos de apoio aos associados é uma necessidade que deve ser respeitada e faz parte do jogo de quem não teve jamais o beneplácito da legislação federal que protegeu sempre e sempre os sindicatos de trabalhadores e empresários, de receitas compulsórias.

A alma burocrática de autosustentação dos Clubes dos Comerciantes enrijece os músculos da criatividade doutrinária que daria espaço além do próprio Município a que serve.

Envolvimento político

Os Clubes dos Comerciantes são politicamente pressionados por vocação porque, salvo raras exceções, sempre e sempre mantiveram relações muito próximas das administrações públicas. Trata-se, nesse caso, de rompimento tão desafiador quanto saber quem nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha.

Políticos jamais deixaram de influir nos Clubes dos Comerciantes, de forma direta, institucionalmente, ou indireta, com emissários bem preparados à cooptação, quando não a cooptação de origem interna mesmo. E os integrantes dos Clubes dos Comerciantes, exceções à parte, sempre viram nas instituições que representam um atalho extraordinário rumo ao Poder Público.

Num País em que a cultura de dísticos vale muito mais que a meritocracia, falar em nome de uma entidade fundada no século passado impressiona muito mais que uma comitiva de reformistas a exigir novas políticas públicas, por exemplo.

Conciliação possível

Quem disser que é impossível conciliar municipalismo, burocracia e política certamente está esquadrinhado no modelo mais que superado de relações sociais. Somente os comodistas interromperiam a sinergia que acrescentaria matriz de modernidade às ações desses clubes.

Recentemente, a Folha de S. Paulo publicou uma matéria denunciando os caciques mais antigos das instituições empresariais espalhadas pelo País. Um tema muito antes abordado neste espaço. O empresário Milton Bigucci comandou com incompetência de perna de pau o Clube dos Construtores durante um quarto de século. E só saiu porque sutilmente fora convidado a sair depois de meter-se num dos poucos escândalos que o pegaram para valer, no caso os cambalachos com o ISS da Capital.

Aliás, um cambalacho cujas investigações e denúncias estão restritíssimas a alguns servidores públicos de então. Os empresários escapuliram pela janela da ineficiência e da falta de estrutura do Ministério Público Estadual.

Separando as bolas

Os leitores não têm ideia do quanto é um convite à depressão seguir malhando em ferro frio nesta Província. Faço esforço descomunal para ignorar determinadas notícias. No fundo, acabarei, por mais criativo que eventualmente seja, me repetindo à exaustão. Mas como a audiência é rotativa e a memória regional é frágil, me sinto impelido a, por exemplo, lembrar o quanto faz falta à institucionalidade regional um esforço coletivo, estratégico, independente, dos Clubes dos Comerciantes.

Fossem legítimos representantes dos pequenos e médios empreendedores da região, não um balcão de prestação de serviços ou um ramal de marketing de espetáculos culturais, tudo seria diferente. Haveria grande transformação. Mas como chegar a esse ponto se a maioria dos integrantes está com os olhos voltados mesmo para um bom relacionamento com o Poder Público?

Gente que legitimamente tem interesse político-partidário, mas que deveria fazê-lo por conta própria, sem a falsidade dessas entidades que se anunciam apolíticas e apartidárias. Uma piada de mau gosto.

Sessão da tarde

Não sei há quantos anos não boto os pés no Clube dos Comerciantes de Santo André (Acisa). No Clube dos Comerciantes de São Caetano (Aciscs) estive há mais de duas décadas, quando dei uma dura no então presidente que pretendia ser editor da revista LivreMercado, ignorando que não entendia nada de jornalismo e que o jornalista que tinha essa atribuição jamais aceitaria ser pau mandado.

Na sede do Clube dos Comerciantes de São Bernardo (Acisbec) jamais botei os pés. O presidente Walter Moura não só se perpetua no cargo como preparou o filho para tomar conta do barraco quando decidir se aposentar. Nos demais clubes de comerciantes, nem em sonho estive.

Certamente não faltará na praça algum estúpido (já o há em peças judiciais, vejam só, e o meritíssimo caiu na conversa mole, vejam só também!) que tentará desclassificar a crítica porque não conheço a sede de algumas dessas entidades. Alguém precisa ir a Brasília para saber do que se trata? É mais fácil chegar a quem já foi a Brasília, não é verdade?

Por que faço questão dessa revelação sobre minhas andanças? Porque desse fantasma estou livre nas minhas eventuais noites de insônia, quando imagino um Grande ABC diferente. Por onde andei com frequência um pouco menos espaçada, como o Clube dos Prefeitos, guardo algumas lembranças. Teria ganhado mais se tivesse ido a uma sessão da tarde e assistido a um filme qualquer de ficção. Afinal, quando se assiste ficção sabendo-se que é ficção, é uma coisa. Quando se constata que a ficção era vida real a caminho da frustração, é uma tristeza só.

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