Economia

Região assiste inerte perda de
19 fábricas da GM desde 1986

  DANIEL LIMA - 07/02/2019

Sei que o impacto de uma saída repentina (repentina?) da General Motors do território de São Caetano e do Grande ABC como um todo não seria brincadeira, mas há situações mais contundentes, embora menos impactantes. Seria algo como comparar a queda sempre escandalizadora de um avião com centenas de passageiros e a carnificina discreta do dia a dia do trânsito. 

Os números do emprego industrial são tenebrosos: nos últimos 33 anos, ou 396 meses, desde dezembro de 1985, o Grande ABC perdeu o equivalente a 18,7 fábricas da GM de trabalhadores com carteira assinada. 

A conta é simples e só comprova que o desfiladeiro industrial da região não é nada recente. Começou mesmo lá atrás, com a mobilização dos metalúrgicos de São Bernardo, seguida da política de descentralização do governo do Estado rumo a um Interior praticante de guerra fiscal. 

Para o bem e para o mal, os novos referenciais se estabeleceram e, com isso, tudo se alterou. A desindustrialização veio a reboque e não parou mais. 

Na última vez que fiz contabilidade inédita sobre a mão de obra com carteira assinada no Grande ABC, em agosto de 2017, o saldo negativo daqueles então 384 meses a partir de janeiro de 1986 era de que perdemos a cada 30 dias, em média, 375 profissionais do setor industrial. 

Agora decidi esticar a linha de corte a dezembro do ano passado, chegando, portanto, a 33 anos ou 396 meses. Quem contava com a esperança que teríamos a redução da perda de profissionais do setor que ainda paga os melhores salários da região (em média, porque os servidores públicos de uma Diadema comandada durante muitos anos por socialistas contam com os melhores vencimentos) deve se sentir decepcionado. 

A média mensal de perda avançou para 398 trabalhadores. Foi desse número que cheguei às quase 19 fábricas equivalentes ao contingente de trabalhador da General Motors de São Caetano que ganharam o cartão vermelho.

Privilégios sobrerrodas

Antes de detalhar os números históricos de 1986 em diante, contrapondo-os aos de dezembro do ano passado, vou voltar ao assunto da ameaça da General Motors: não creio que a multinacional americana vai chegar ao extremo de esvaziar de uma hora para outra uma conquista que detém há alguns pares de anos, ou seja, a liderança nacional de venda de veículos. 

Até porque, depois de o setor mergulhar no fundo do poço, deverá começar a se recompor mais fortemente nesta temporada, elevando o saldo acumulado no ano passado. Está certo que a fábrica de São Caetano é uma das mais improdutivas da General Motors, mas não necessariamente é descartável. 

A General Motors e outras montadoras da região não vão fechar as portas de uma vez, mesmo que não encontre respaldo amplo dos cofres do governo estadual, do governo federal, de fornecedores, concessionárias e trabalhadores. Mas vão seguir o ritmo de reduzir a produção física em unidades que custam o olho da cara como a de São Caetano. 

Diferentemente da maioria da mídia que segue a proteger o regime de capital e trabalho que a General Motors e outras montadoras mantêm com os sindicalistas, a realidade é que, como mostramos numa Reportagem de Capa histórica de LivreMercado, há quase duas décadas, o movimento sindical da região arrancou vantagens que transformaram trabalhadores dessas empresas em privilegiados. 

Lista de vantagens 

Quem tiver dúvida sobre isso basta ler as 22 proposições que a General Motors apresentou ainda outro dia aos trabalhadores de São Caetano para seguir no Brasil. Os metalúrgicos são uma elite que precisa aprender a se preparar para o pior. E o pior no caso é passar por estreitamento de benefícios em relação às demais categorias de trabalhadores industriais. Tudo é resultado de conluio articulado entre sindicatos e empresas que sempre buscaram no governo federal refúgio à baixa produtividade. É o Brasil velho de guerra que insiste em sobreviver. 

Sei que o discurso politicamente correto da imprensa está concentrado em falsificar a realidade em nome de uma igualmente falsa defesa dos trabalhadores. Convém lembrar, entretanto, que a suposta preservação de direitos dos metalúrgicos de montadoras custa caro à sociedade em geral e à sociedade da região em particular, porque afasta novos investimentos tanto das automotivas quanto de outros setores. 

A influência do sindicalismo metalúrgico espraia-se às demais atividades, contaminando as relações trabalhistas. Desiguais em tudo não podem ser tratados semelhantemente. Foi assim que as pequenas e médias empresas familiares do setor industrial desapareceram da face da terra regional. Dissídios coletivos sempre foram empurrados goela abaixo dos mais vulneráveis da cadeia de produção. 

A prova dos nove de que perdemos o bonde da competitividade está resumida no equivalente a 19 fábricas de trabalhadores industriais que desapareceram da geografia regional nos últimos 33 anos. Esse é o resumo da ópera a liquidar com qualquer tentativa de tergiversação que busque a chamada preservação de conquistas trabalhistas que, no fundo, são conquistas de determinados grupos. 

Desfile de perdas 

Agora, vejam o histórico de perdas de estoques de trabalhadores industriais com carteira assinada de janeiro de 1986 a dezembro do ano passado: 

 Santo André contava com 64.491 trabalhadores e passou a contar com 24.071. Uma queda líquida de 40.420, ou de 62,67%. Em dezembro último a participação relativa do emprego industrial no total de empregos formais de Santo André não passava de 12,10%. Uma calamidade que ajuda a entender as dificuldades orçamentárias da Prefeitura. 

 São Bernardo contava com 147.781 trabalhadores registrados e passou a contar com 73.440. Uma queda líquida de 74.341, ou 50,30%. Em dezembro do ano passado a participação relativa do emprego industrial no total de empregos formais de São Bernardo registrava 29,10%, acima da média regional de 22%. 

 São Caetano contava com 37.128 trabalhadores em dezembro de 1985 e agora em dezembro de 2018 eram 15.444. Uma queda líquida de 21.684, ou 58,40%. Em dezembro do ano passado a participação relativa do emprego industrial em São Caetano era de 14,41%, só superar a de Santo André na região. 

 Diadema contava com 61.531 empregos industriais com carteira assinada em dezembro de 1985 e agora em dezembro de 2018 registrava 39.758. Uma queda líquida de 21.773, ou 35,38%. Em dezembro do ano passado a participação relativa do emprego industrial em Diadema era de 44,33%. Um resultado preocupante, porque tudo indica que os números absolutos continuarão a cair. 

 Mauá contava com 16.287 trabalhadores com carteira assinada em dezembro de 1985 e agora em dezembro de 2018 registrava 19.918. Um saldo líquido de 3.631, ou 12,13%. Em dezembro do ano passado a participação relativa do emprego industrial em Mauá era de 30,77%, oito pontos percentuais acima da média regional. O que sinaliza perda nos próximos anos. 

 Ribeirão Pires contava com 9.130 trabalhadores com carteira assinada em dezembro de 1985 e agora em dezembro registrava 6.769. Uma perda líquida de 2.361, ou 25,83%. Em dezembro do ano passado a participação relativa do emprego industrial em Ribeirão Pires era de 30,99%, também oito pontos acima da média da região. 

 Rio Grande da Serra contava com 1.286 trabalhadores industriais com carteira assinada em dezembro de 1985 e agora em dezembro do ano passado registrava 1.183. Uma perda líquida de 103, ou 8,00%. Em dezembro do ano passado a participação relativa do emprego industrial em Rio Grande da Serra era de 35,32%, abaixo apenas da média de Diadema.  

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