Economia

Economia de São Caetano
desaba mesmo com a GM

  DANIEL LIMA - 23/01/2019

Tome por base o ano de 2002, último da gestão desastrosa para a economia regional do então presidente Fernando Henrique Cardoso. Calcule de janeiro do ano seguinte, 2003, agora com o petista Lula da Silva na presidência do País, tendo como ponta de comparação os números de produção industrial de 2016, conforme os dados mais recentes divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Pegue os números de 2002, inflacione pelo IPCA do mesmo IBGE e compare com a o PIB Industrial de São Caetano de 2016. Resultado? Um desastre, com perda real de 38,59%. Perceberam que a questão da General Motors é mais grave do que se anuncia. Com a GM está ruim; sem a GM estará pior ainda.

A derrocada do PIB Industrial de São Caetano nos 14 anos de governo do Partido dos Trabalhadores chegou a um terço, ou 33%, em relação ao conjunto da economia municipal. Em 2002 o PIB Industrial de São Caetano registrava R$ 2.298.054 bilhões, enquanto o PIB Geral (que envolve todas as atividades econômicas, inclusive a indústria) apontava R$ 6.332.646 bilhões. 

Em 2016 o PIB Industrial de São Caetano não passava de R$ 2.950,348 bilhões ante R$ 13.286.711 bilhões do PIB Geral. Ou seja: enquanto o PIB Industrial cresceu nominalmente (sem considerar a inflação, (128,98% do período) não mais que 40,62%, o PIB Geral chegava a 109,81%. São Caetano, portanto, perdeu nos dois quesitos. Mais, muito mais, no PIB Industrial.

Entre os piores 

São Caetano está entre os piores resultados econômicos durante o período petista no governo federal. No PIB Geral do G-22, grupo das 20 maiores economias do Estado de São Paulo (exceto a Capital e com a inclusão de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra apenas por pertencerem ao Grande ABC), São Caetano ficou entre os piores. No PIB Industrial superou a poucos concorrentes. E ficou atrás de todos os concorrentes da região. No PIB Geral, a mesma situação.

O que se passa particularmente com a economia de São Caetano é algo muito mais inquietante do que se imagina. E será ainda mais explosivo se a General Motors dar em retirada de forma mais ostensiva do que a já dissimulada.  

A Prefeitura comandada por José Auricchio Júnior pode fazer um diagnóstico completo sobre o desastre industrial da última década porque detém informações fiscais que estão longe do alcance de terceiros. Há registros que podem diagnosticar o andamento de cada setor de atividade da área industrial, com histórico de resultados que ajudariam a compreender a derrocada. 

Um exemplo: o setor de montadoras e autopeças de São Caetano está claramente fragilizado tanto em produção de riqueza física, de produtos e serviços, como de tributos. A queda do Valor Adicionado Industrial, base do PIB do setor, é alarmante. Sugere-se pelos dados que a própria General Motors passou por mudanças drásticas sem alarde. E passou mesmo. Como mostraremos em seguida. 

Autopeças em Mogi 

Uma das explicações para a redução da produção da General Motors ao longo dos tempos em São Caetano é o deslocamento do setor de autopeças para o complexo industrial em Mogi das Cruzes, inaugurado há 20 anos. De estamparia que produzia apenas peças de reposição para veículos descontinuados, a fábrica de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, passou a fazer também componentes para modelos de automóveis e para exportação. Mais de 100 milhões de peças já teriam sido produzidas naquela unidade. 

O histórico da fábrica de autopeças da General Motors em Mogi das Cruzes tem tudo a ver com a logística cada vez mais complexa na Região Metropolitana de São Paulo. A unidade fica a 58 quilômetros da linha de montagem de São Caetano e a 45 quilômetros da fábrica de São José dos Campos. Mais: está próxima ainda de outros dois pontos estratégicos, como a 20 quilômetros do Aeroporto Internacional de Guarulhos e a pouco mais de 100 quilômetros dos portos de Santos e São Sebastião. 

Portanto, não é por acaso que durante o mesmo período de 14 anos do governo federal petista em que São Caetano registrou perda real de quase 40% de PIB Industrial, Mogi das Cruzes avançou em termos nominais 165,96% e em termos reais 20,92%. 

Invertendo posições 

O PIB Industrial de Mogi das Cruzes em 2002 era de R$ 1.198.316 bilhão. Quando se aplica a inflação até dezembro de 2016 chega-se a R$ 2.635.527 bilhões. Mas Mogi das Cruzes cresceu mais e atingiu R$ 3.187.061 bilhões. O PIB Industrial de São Caetano era de R$ 2.098.054 bilhões em 2002 e passou a R$ 2.950.348 bilhões em 2016. Para que acompanhasse a inflação, o PIB Industrial de São Caetano deveria alcançar R$ 4.804.124 bilhões 14 anos depois. Daí a queda de 38,59%. 

Comparando-se o desempenho dos dois municípios que sediam fábricas da General Motors, em 2002 a produção industrial de São Caetano era 42,88% maior que a de Mogi das Cruzes. Catorze anos depois, Mogi das Cruzes passou à frente, com vantagem de 7,4%. A velocidade de crescimento real do PIB Industrial de Mogi das Cruzes, de 1,43% ao ano em média, correu na contramão da queda média anual do PIB Industrial de São Caetano, de 2,75%. 

A inversão de posicionamentos não é, portanto, obra do acaso. Quando a fábrica de autopeças foi priorizada em Mogi das Cruzes, há evidências claras de que São Caetano sentiu o baque. Não é somente a General Motors que partiu num pedaço importante. Também fornecedores procuraram o deslocamento, a aproximação, como forma de ganhar competitividade. É assim que funciona o mundo real. 

Mais emprego industrial 

Também no campo do emprego formal a situação dos dois municípios se inverteu no período de 14 anos, a partir de 2002. Naquela temporada, Mogi das Cruzes contava com 10.699 trabalhadores com carteira assinada na indústria de transformação. São Caetano chegava a 16.239 trabalhadores. Uma vantagem de 34% a favor de São Caetano. Já em dezembro de 2016, Mogi das Cruzes registrava 17.940 trabalhadores registrados no setor, contra 16.493 de São Caetano. No total de empregos, considerando-se todas as atividades, São Caetano pouco alterou os números, com 108.095 carteiras assinadas em 2002 e 107.888 em 2016. Já Mogi das Cruzes aumentou consideravelmente: 47.037 em 2002 e 96.252 em 2016. 

Recentemente publiquei uma análise dando conta da queda brutal do emprego industrial de São Caetano entre 2014 e 2017, conforme números brutos do Ministério do Trabalho e Emprego. Deixo esses dados de fora agora porque pretendo limitar o paralelo econômico envolvendo Mogi das Cruz e São Caetano exclusivamente aos anos petistas em Brasília. Mas não faltará oportunidade a novas incursões. 

Até porque, qualquer que seja o período analisado, é irrebatível uma verdade para a qual São Caetano precisa despertar: o PIB Industrial afunda em proporção mais grave que o PIB Geral, mas uma coisa compromete a outra.

Ainda há tempo para São Caetano descobrir um novo e seguro filão para evitar que, ainda ilha invejável de prosperidade histórica na Região Metropolitana de São Paulo, fique cada vez menos distante da média geral de qualidade de vida dessa geografia de insanidade. Parece evidente que a área de saúde, especialmente para a terceira idade, seria um nicho de valor extraordinário na Grande São Paulo. 

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