Economia

Região é quarto PIB do Estado,
não do Brasil. Acorde, gente!

  DANIEL LIMA - 19/12/2018

Não acredite em notícias que dão conta de que o Grande ABC continua a ser o quarto colocado no PIB Geral (Produto Interno Bruto) do Brasil. Isso é passado, e mesmo assim um passado nebuloso. Os novos números do PIB dos Municípios Brasileiros, relativos a 2016, divulgados semana passada pelo IBGE ((Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mantiveram sim a região na quarta colocação, mas do território paulista. Estamos atrás da Capital do Estado, do G-3M, formado pelas vizinhas Barueri, Osasco e Guarulhos, e também atrás do G-3I, integrado pelas capitais metropolitanas do Interior do Estado, casos de Campinas, Sorocaba e São José dos Campos. 

Não vamos descer a detalhes sobre a colocação do Grande ABC no ranking nacional do Produto Interno Bruto. Já o fizemos em anos passados e voltaremos ao assunto no ano que vem. Certo é que caímos sempre e sempre. Devemos estar mais ou menos em décimo lugar. Com muita boa vontade. Basta considerar o critério de regionalidade que exponho em seguida. E que é o correto, porque tem exemplo internacional. Ou exemplos internacionais, em forma de blocos econômicos. 

Conceitos modernos 

O que muitos ainda não entenderam é que no jogo econômico o critério de regionalidade não passa necessariamente apenas pelas características físico-territoriais convencionais desta região. O conceito de deslocamento de investimentos e riqueza que vale, por exemplo, para os países que formam o BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), também vale para outras composições. 

Não é hora de dissecar novos conceitos de regionalidade, mas há um ponto claramente em comum a unir economicamente territórios distantes entre si, ou não tão próximos entre si como é o caso do eixo formado por Campinas, Sorocaba e São José dos Campos. 

Esse ponto é simples: são características em comum ou semelhantes, ou complementares, para atrair negócios. Tanto os municípios do G-3M como do G-3I são compatíveis entre si nesse aspecto: reúnem características individuais e conjuntas cujos resultados superam largamente o Grande ABC. 

Sei que discorrer sobre BRICS e regionalidade no jornalismo da região é excesso de cuidados para me fazer entender e acabar de vez com informações equivocadas. Mas jornalismo tem também porção pedagógica. Inclusive para os administradores públicos e a sociedade desorganizada. 

Posso até parecer esnobe, mas não é essa a intenção. Pretende-se apenas corrigir uma rota cheia de malandragens semânticas. 

Rodoanel e seus efeitos 

Para explicar o que se passa com o PIB Geral da região e a vizinhança do G-3M, ou os três municípios da Grande São Paulo que nos passaram a perna, não é de hoje que alertamos sobre os efeitos transformadores do trecho Oeste e do trecho Sul do Rodoanel. 

O trecho Sul passa tangencialmente pelo Grande ABC. O suficiente para provocar mais danos que vantagens desde antes de ser inaugurado. O trecho Oeste acelerou a fuga de empresas em direção ao entorno de Barueri, Osasco e Guarulhos. Escrevemos milhões de textos sobre isso. 

O então governador Geraldo Alckmin proclamou São Bernardo melhor esquina do País. O tucano e seus asseclas não sabiam o que falavam, mas sabiam o que pretendiam eleitoralmente. O trecho Oeste premiou Osasco de tal maneira que, desde o ano 2000 disparou no PIB Nacional. Passou do 20º para o oitavo lugar. Vamos tratar disso também no ano que vem. 

Queda muito menor 

Mesmo com a catástrofe dos anos Dilma Rousseff, que convocou a maior recessão da história brasileira, entre 2014 e 2016, Osasco, Barueri e Guarulhos resistiram com bravura. O PIB dos Municípios anunciado sexta-feira apontou que em 2016 aqueles três endereços perderam em termos reais apenas 1,08% em relação ao ano anterior. Os sete municípios do Grande ABC caíram muito mais -- exatamente 4,06%. Ou seja, praticamente quatro vezes mais. Entre muitas explicações, a mais sólida é que dependemos demais da velha matriz da indústria de transformação. 

Com isso, a diferença do PIB do G-3M contra o G-7, formado pelos sete municípios do Grande ABC, aumentou ainda mais. Agora, juntos, Guarulhos, Osasco e Barueri somam R$ 177.380.570 bilhões, sempre considerando dezembro de 2016. O Grande ABC acumulou R$ 112.048.654 bilhões. Nada menos que 36,84% de diferença. 

A situação é ainda mais grave quando se considera o PIB per capita, ou seja, a divisão do PIB Geral pelo número de habitantes. Guarulhos, Osasco e Barueri somavam 2.298.404 habitantes em 2016, o que significava R$ 76.342,50 por habitante na geração de riqueza. O Grande ABC, com 2.736.683 habitantes representava R$ 40.943,23 de PIB per capita.   Diferença de 46,36%. O que isso significa? Entre outros pontos que a Administração Pública do G-3M tem em média por habitante mais recursos financeiros para investir em qualidade de vida. 

Mais derrotas 

O eixo econômico do Interior, formado por Campinas, Sorocaba e São José dos Campos, tem poder de fogo um pouco menos intenso que Guarulhos, Osasco e Barueri, mas também está acima do Grande ABC. O PIB do G-3I de 2016 alcançou R$ 129.490.064 bilhões. Caiu 2,36% em relação à temporada anterior. Portanto, menos que o Grande ABC. 

Quando esses números são confrontados com o PIB da região, de R$ 112.048.654 bilhões, a diferença a favor do trio do Interior é de 13,46%. Quando se desloca a comparação ao campo per capita, a diferença também se dilata: o G-3I conta com população de 2.521.843 que, dividida pelo PIB Geral, chega-se ao valor por habitante de R$ 51.357,39, ou 20,27% superior ao Grande ABC.

Para os triunfalistas de plantão que não arredam pé do conceito mais que ultrapassado de regionalidade já sintetizado aqui, cumpro a missão de dizer que sou muito bonzinho nas comparações feitas agora. E só não avanço mais porque a corrida contra o relógio dos festejos de fim de ano impede que desça a detalhe. 

Quero dizer com isso que os números seriam mais extravagantes ainda em detrimento do Grande ABC tão enganosamente mantido num pedestal econômico caso ampliasse o raio de ação estatística. Um pouco mais de tempo seria relevante para mostrar que o PIB Geral do Grande ABC perde cada vez mais lustro na medida em que a regionalidade for exercitada para valer. 

Mais complicações 

Quer um exemplo? Basta juntar os municípios que formam a Região Oeste da Grande São Paulo, liderada por Osasco e Barueri, e teremos um PIB Geral maior que o da região. Também se for colocado no mesmo pacote os municípios que integram a Região Leste da Região Metropolitana de São Paulo, liderada por Guarulhos, o resultado será desagradável para a região. E nas três regiões metropolitanas do Estado, basta somar a vizinhança de Campinas, Sorocaba e São José dos Campos para os estragos brotarem em detrimento do Grande ABC. 

O que quero dizer com tudo isso sem preocupação com a repercussão de desagrado de mandachuvas e mandachuvinhas que vivem no mundo da lua, além de cultivarem o tempo como espécie de moeda sem valor social algum, exceto para deleite pessoal e de grupos próximos, o que quero dizer é que a vaca do Grande ABC foi para o brejo faz muito tempo (e tenho reiterado isso a cada temporada de jornalismo) sem que se encontre um único veio em forma de perspectiva de mudança.

Basta ver o que o prefeito dos prefeitos Orlando Morando fez com o Clube dos Prefeitos nos dois anos à frente de uma instituição que mal e porcamente desempenhou o papel que lhe competia para dar vitalidade econômica à região, mas que, de qualquer forma, era, mesmo assim, melhor que o desmonte do tucano.   Por que melhor? Porque há qualquer momento havia a possibilidade de os prefeitos de plantão darem-se conta de que contavam não com uma erva miraculosa a nos salvar de todos os males, mas efetivamente com um instrumento herdado do mais brilhante inspirador de políticas regionais que o País já conheceu. E que só os ressentidos partidários e administrativos negam ou procuram minimizar. Gente medíocre, como se sabe.

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