Esportes

Mostramos melhor caminho
para o São Caetano resistir

  DANIEL LIMA - 28/11/2018

O técnico Pintado foi comedido ao reclamar da tabela de jogos do São Caetano na Série A do Campeonato Paulista que começa em 19 de janeiro. Único representante da região no principal campeonato estadual do País, o São Caetano foi prejudicado na avaliação do ex-volante do São Paulo porque estreia fora de casa contra um dos grandes da competição, o Corinthians, e encerra a fase de classificação em 20 de março em casa contra outro grande, o São Paulo. Mas há situação tanto mais embaraçosa quanto acalentadora entre um ponto e outro. Tudo vai depender do que está entre um extremo e outro.

O São Caetano precisa entender bem a tabela da competição e decifrar as armadilhas que a ordem cronológica dos jogos reserva para não lamentar eventual descuido.

Por mais que o futebol seja considerado pelos conservadores espécie de caixinha de surpresas, há muito tempo a margem de erro diminuiu consideravelmente a ponto de senão descartar, mitigar a máxima de que seja um esporte de resultados gerais imprevisíveis.

Um somatório de indicadores faz a diferença entre sucesso e fracasso. E a tabela de uma competição está no rol desse enxadrismo que não é apenas ou predominantemente obra do destino.

Extremos complicadíssimos

Começar uma competição que rebaixa dois dos 16 participantes à Segunda Divisão (Série B) na qual estão outras três das forças do futebol da região (Santo André, São Bernardo e Água Santa de Diadema) enfrentando um grande como o Corinthians é tão indigesto quanto terminar a fase classificatória diante de um São Paulo, mesmo no Estádio Anacleto Campanella. Pior ainda que na terceira rodada está o Palmeiras, com mando de jogo do São Caetano.

Parece pouco, mas jogar mais vezes em casa contra time grande (como será o caso do São Caetano na próxima temporada) não é nada interessante. Os três pontos geralmente são improváveis.  Perdê-los por força da disparidade de investimentos é o mais previsível.

Ou seja: o São Caetano terá dificuldade de honrar o mando de jogo em dois dos seis jogos em que atuará diante de sua torcida. 

A tabela determina que o São Caetano atuará cinco vezes fora de casa. No frigir dos ovos das ponderações técnicas, o que se desenha são cinco jogos fora contra adversários de tamanho semelhante e apenas quatro em casa em situação análoga.

Mas há mais dificuldades pela frente do que enfrentar dois grandes na abertura e no encerramento da fase. Na reta de chegada das últimas três rodadas, quando geralmente o bicho da classificação ou da fuga do rebaixamento pega para equipes de menor peso, o São Caetano disputará dois jogos seguidos no Interior do Estado, contra Novorizontino e Ferroviária, até chegar o confronto com o São Paulo em casa.

Serão, portanto, nove dos 36 pontos em disputa de perfil extremamente competitivo. E exigirão esforços redobrados. Novorizontino e Ferroviária são, teoricamente, tão candidatos ao rebaixamento como o São Caetano.

Sete rodadas decisivas

Ora, ora, então o que reserva ao São Caetano o destino da tabela da Série A do Campeonato Paulista? Que tenha os olhos postos em somar o máximo de pontos nas sete rodadas intermediárias, ou seja, após a rodada de abertura e antes das três últimas já mencionadas. E o que a tabela preparou para o São Caetano nesse período?

Nessas sete rodadas há quatro jogos programados para o Estádio Anacleto Campanella contra equipes de médio porte: Ituano na segunda rodada, Oeste de Barueri na sexta, Bragantino na sétima e Mirassol na nona. O jogo com o Palmeiras, não contabilizado aqui, será na terceira rodada. Ou seja: o São Caetano além de enfrentar o Corinthians na largada da competição tem o Palmeiras pela frente duas rodadas depois. Entre um jogo e outro enfrenta o Ituano, que há duas décadas não sabe o que é rebaixamento à Série B.

Nenhuma outra equipe que vai disputar a Série A tem algo semelhante ao que espera pelo São Caetano. Nenhuma equipe joga com um time grande na abertura da competição em combinação com um outro time grande na última rodada. O Red Bull Brasil estreia em casa diante do Palmeiras e se despede da fase classificatória fora de casa contra o Guarani, em Campinas. O Mirassol joga a primeira partida contra o São Paulo no Morumbi e se despede na etapa contra o Oeste em Barueri. A Ferroviária enfrenta o Santos na largada do campeonato na Vila Belmiro e joga com o Novorizontino fora de casa na última rodada.

Esquadrinhando adversários

Tudo pode acontecer quando a bola rola, porque quando a bola rola há sempre a possibilidade de o Imponderável Futebol Clube invadir o campo, mas não é recomendável que se fie demais nessa premissa fortalecida nos tempos em que a tecnologia da informação passava longe dos gramados.

Hoje tudo é diferente. Os times são esquadrinhados minuciosamente por especialistas em todos os vetores possíveis. As jogadas letais e mesmo periféricas e as deficiências individuais e setoriais são atentamente observadas, analisadas e colocadas à prova de eficiência da neutralização e da exploração nos treinamentos.

Não faltam exemplos de equipes que começaram bombando uma competição e se desintegraram nas rodadas subsequentes. Ou que iniciaram a competição sugerindo rebaixamento incontornável e escaparam da degola, quando não efetivaram voos mais altos.

Mudanças radicais

O Água Santa é um case especial. O time de Diadema foi rebaixado depois de iniciar a Série A botando fogo nos adversários. Ganhou de goleada do Palmeiras, entre outros resultados que asseguravam um destino vitorioso. Mas bastou os analistas táticos dos adversários seguintes capturarem as principais jogadas da equipe – e eram tão poucas e repetitivas – para que o mundo desabasse.

O exemplo de que tudo pode mudar durante a competição envolveu o São Bernardo logo após a chegada do técnico Sérgio Soares. O time da região caminhava rumo ao rebaixamento com um futebol feito de obviedades e mudou completamente sob a orientação do novo treinador. Mudou tanto que chegou às oitavas de final, quando perdeu para o Palmeiras.

O próprio Pintado fornece outro exemplo regional de que nem tudo que ocorre nas primeiras rodadas permanecerá intocável nas rodadas seguintes. O São Caetano do ano passado também estava ladeira abaixo quando Pintado foi contratado e reorganizou o time que não só escapou da queda como chegou às oitavas diante do São Paulo.

Planejamento é essencial

Isso tudo quer dizer que, embora a tabela seja elemento estratégico numa competição, as circunstâncias que a envolvem podem alterar completamente o panorama. Mas é indispensável que haja planejamento detalhado contando com o grau de dificuldade teórica que cada adversário preliminarmente imporia.

Um planejamento que, claro, não será estático, imutável. Correções podem e dever ser feitas de acordo com o desenrolar das rodadas. Mas não há como subestimar uma lógica acaciana de que os confrontos com equipe do mesmo peso estrutural e histórico traça uma perspectiva de conquista de pontos mais provável do que diante dos grandes.

Ganhar dos grandes deve ser a última das potencialidades teorizadas na tábua de classificação. Deixar em branco os nove pontos que serão disputados contra Palmeiras, São Paulo e Corinthians seria uma medida preventiva interessante, porque o que for conquistado será espécie de bonificação.

Os pontos de que o São Caetano precisa inicialmente para seguir na Primeira Divisão devem ser contabilizados nos confrontos com iguais ou semelhantes. Por isso aquelas sete rodadas no intervalo entre a estreia e o encerramento da etapa classificatória, excluindo o confronto com o Palmeiras na terceira rodada, são o mapa da mina das pretensões. Tanto para fugir da queda quanto, quem sabe, chegar mais uma vez às oitavas de final. Afinal, nada menos que 21 pontos dos 36 da fase classificatória serão definidos no período.

Uma boa notícia

Cabe, porém, uma mensagem positiva enviada pela tabela da Série A: na divisão de grupos o São Caetano se instalou mais uma vez num compartimento que tem uma equipe grande (Santos) e uma equipe de porte médio-grande (Ponte Preta) que disputa a Série B do Campeonato Brasileiro, competição da qual quase se tornou vitorioso nesta temporada, perdendo o acesso à Série A Nacional na última rodada.

Para quem quer chegar às oitavas de final não é bom negócio ter a companhia da Ponte Preta, quinta força do futebol paulista e eterno concorrente às fases decisivas da competição. Entretanto, nada melhor para quem quer fugir do rebaixamento não ter de disputar três pontos com o time de Campinas, situação a que estarão submetidos todos os demais times, exceto os integrantes do grupo do São Caetano.

Como se sabe, os 16 times são divididos em quatro grupos de quatro equipes cada na fase classificatória, quanto enfrentam apenas os times dos demais grupos, classificando-se os dois primeiros colocados aos mata-matas. 

O bom senso indica que o São Caetano não pode deixar para as rodadas finais da Série A os pontos de que precisa para seguir na Série A ou quem sabe chegar entre os oito finalistas. Mais que a estreia indigesta e a rodada final problemática, a razão está no meio da tabela.

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