Economia

Indústria demite 23
mil em 12 meses

  DA REDAÇÃO - 05/07/1999

Escolha as opções: 1ª) Uma Volks/Anchieta somada a uma Scania; 2ª) Mais de 25 fábricas de cadeados da Papaiz de Diadema; 3ª) Duzentas e trinta pequenas empresas de 100 funcionários cada. O que significa cada uma dessas alternativas? Trata-se dos números catastróficos de 23 mil empregos industriais perdidos no Grande ABC nos últimos 12 meses. Os dados são oficiais da PED (Pesquisa de Emprego e Desemprego) realizada em conjunto pela Fundação Seade (Sistema Estadual de Análises de Dados) e pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos) a pedido do Consórcio Intermunicipal de Prefeitos. 

A constatação de que ainda está longe o dia em que o emprego industrial deixará de ser eliminado no Grande ABC não fica caracterizada de forma explícita na PED divulgada no final de junho na sede da Agência Regional de Desenvolvimento, o braço estratégico da Câmara Regional do Grande ABC. Está escondida em percentuais, no item 13 do material distribuído pelo Dieese/Seade. No período de um ano completado em maio último, foram perdidos 8,6% dos empregos industriais na região, assinala o trabalho. Traduzindo para números que dão a dimensão dessa hecatombe que não virou manchete em nenhum dos distraídos jornais, revistas e noticiários de televisão, obtém-se uma daquelas três inquietantes alternativas. 

O contraponto para a perda de 23 mil empregos industriais é a criação, também no mesmo período, de 35 mil vagas no setor de serviços. Para quem gosta de matemática pura, sem condicioná-la ao contexto socioeconômico, a diferença representa saldo positivo de 12 mil empregos. Pura bobagem. Essas ocupações em serviços significam a precarização da mão-de-obra em grande escala, que contrasta com a ocupação em indústria que agrega maiores valores de salários e benefícios, além de fortalecer a roda da economia. Sumiram postos de trabalho em indústrias e inflaram-se ocupações de baixa remuneração. Os estudos comprovam isso, porque já se verificou expressiva redução do contingente assalariado (4%) e aumento do número de trabalhadores autônomos (14,3%). 

O desemprego no Grande ABC é tão grave quanto a perda de postos industriais. A taxa anunciada pelo Seade/Dieese elevou-se de 22% em abril para 22,5% em maio. Estima-se em 263 mil o contingente de desempregados na região. Algo como a soma dos habitantes de São Caetano, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. A elevação do desemprego foi explicada pela incorporação de pessoas à PEA (População Economicamente Ativa), visto que o universo de ocupados manteve-se inalterado. Os estudos ressaltam que a estabilidade do nível de ocupação entre abril e maio últimos decorre de movimentos diferenciados: aumento do número de assalariados sem carteira de trabalho assinada e redução do número de assalariados com carteira. Essa situação reforça a fragilização das condições de trabalho na região. A taxa de desemprego na Capital paulista é de 18,5% e na Grande São Paulo atinge 20,3%. 

Os números das perdas de emprego industrial na região seriam ainda piores não fossem os seis mil postos de trabalho criados em maio e que interromperam movimento de retração verificado desde fevereiro. É provável que as contratações sejam resultado do acordo automotivo e da desvalorização do real. O acerto entre montadoras, sindicatos e governos estadual e federal rebaixou alíquotas de impostos e permitiu menor impacto dos efeitos da crise cambial no início do ano. Já a desvalorização da moeda está redirecionando aos fornecedores locais grande parte de autopeças até então importadas. A expectativa de que esse movimento seja constante é exagerada. O emprego industrial no Grande ABC será cada vez mais seletivo e avaro. Como em todas as regiões atingidas em cheio pela globalização e que substituíram apertadores de parafuso por massa cinzenta bem treinada e tecnologia de ponta.

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