Economia

Selo verde também
integra revitalização

  DA REDAÇÃO - 05/02/1999

Há quase um ano esgrimindo contra inimigos como métodos administrativos ultrapassados, processos de produção obsoletos e mão-de-obra desqualificada, a indústria de móveis do Grande ABC começa a combater em outra frente: tratar os resíduos que gera na forma de pó, de retalhos de chapas e de cavacos, aquela serragem grossa em pedaços. É uma montanha com estimadas 4,2 mil toneladas mensais de restos de madeira que não podem ser simplesmente queimados ou descartados em terrenos longe de olhares curiosos. A celulose é de difícil decomposição e leva pelo menos oito meses para ser absorvida pela natureza; o pinheiro, se queimado, gera gás carbônico e monóxido de carbono, altamente tóxicos.

Consciente de que a solução não é singela, o setor moveleiro da região acaba de contratar o Ipei (Instituto de Pesquisas e Estudos Industriais) para encontrar formas de processar os resíduos, de preferência gerando subprodutos reaproveitáveis pelos próprios fabricantes ou por outras atividades. Numa avaliação preliminar, o Ipei, co-irmão da FEI (Faculdade de Engenharia Industrial) de São Bernardo, já identificou em estudos que é possível obter carvão ativo -- utilizado em filtros de água, na indústria de óleos e em processos para descolorar líquidos -- ou matéria-prima que a própria indústria usaria na produção de aglomerados para móveis mais populares. Outras possibilidades são gerar furfural, aproveitado como resina na indústria plástica, e também combustível para queima em altos fornos. 

Na prática, porém, tudo vai depender do que exatamente a indústria de móveis da região gera de descarte. "Cada madeira possui uma composição e cada móvel agrega tratamentos variados, como vernizes, colas e tintas. Esses vernizes também precisarão ser tratados, sob pena de gerar um subproduto mais poluente" -- explicam o consultor e o supervisor do Centro de Pesquisas Químicas do Ipei, Milton Gomes e Geraldo Pereira Fontana, que preparam o projeto.

O presidente do Sindicado da Indústria de Móveis de São Bernardo e Diadema, Hermes Soncini, tem pelo menos três boas razões para preocupar-se com o destino dos resíduos: o fator ecológico diante das soluções improvisadas que cada fabricante adota, alguns incinerando e outros pagando pela retirada do entulho sem saber o destino dado; o rigor da nova Lei de Crimes Ambientais, em vigor desde o ano passado com punições que chegam até a prisão de quem agride a natureza; e o fator competitivo, pois a ISO 14000, o chamado selo verde, passou a ser credencial para entrar na maioria dos mercados. "É uma oportunidade para trabalhar corretamente a questão ecológica e, quem sabe, até gerar receita a partir da reciclagem" -- sublinha Hermes.

A primeira etapa, de estudo da viabilidade técnica do reaproveitamento dos resíduos, começou em dezembro último e deve estar concluída no mês que vem, inclusive com testes em laboratório. O financiamento de R$ 60 mil foi obtido pelo Patme (Programa de Apoio Tecnológico às Micro e Pequenas Empresas), parceria entre Sebrae-SP e Finep (respectivamente, Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas e Financiadora de Estudos e Projetos).Também estão na parceria o Sindicato dos Moveleiros e 22 indústrias da região. A segunda etapa prevê planta-piloto de uma usina nos laboratórios do Ipei. Durante 10 meses se testarão maneiras de reciclagem. A terceira fase, de construção da usina e comercialização das matérias-primas, está projetada para viabilizar-se em 18 meses, ou seja, até junho de 2001. Não está decidido se essa fase será terceirizada ou assumida por um pool de moveleiros.

A gerente do Sebrae São Bernardo, Silvana Pompermayer, vê com otimismo mais esse passo do grupo moveleiro que integra a Câmara Regional do Grande ABC. "Como podemos falar em modernizar e expandir o setor se não dermos destino adequado a 4,2 mil toneladas de sobras?" -- indaga ela, mencionando os esforços que fabricantes de móveis da região promovem em busca da revitalização, depois de estacionar durante anos os negócios apenas nas lojas.

Desde que empunhou armas na luta para modernizar o chão de fábrica, há cerca de um ano, o setor coleciona várias conquistas: o programa de treinamento de empresários e trabalhadores já envolveu 811 participantes de 84 empresas, enquanto o programa de mobilização tecnológica enlaçou 15 fabricantes. Consultores contratados pelo Sebrae radiografaram as fábricas e detectaram neste primeiro grupo que os maiores problemas estão no layout e no processo de produção. "Queremos atingir pelo menos 60% dos 450 fabricantes da região" -- almeja Silvana.

Tecnologia -- Outro passo em conjunto com o Sebrae foi a aproximação com o Cetemo (Centro Tecnológico Moveleiro), de Bento Gonçalves (RS), considerado o único organismo qualificado no País para formação de mão-de-obra técnica. No ano passado uma equipe do Cetemo esteve na região e capacitou 31 trabalhadores de seis empresas na área de pintura, onde houve ganhos de até 30%. O Sebrae São Bernardo planeja treinar este ano mais seis grupos de seis empresas cada. O Cetemo já se prontificou a capacitar multiplicadores para esse tipo de qualificação.

O projeto de tratamento de resíduos vem no rastro de ações para contemplar os moveleiros com um Centro de Apoio & Difusão Tecnológica, fundamental para acertarem o passo com o que há de mais avançado na área, cita Silvana. O assunto tem sido tratado também no grupo do pólo tecnológico da Câmara Regional. Isso porque estuda-se como viabilizar, dentro do Centro de Apoio & Difusão, um também essencial Centro de Desenvolvimento de Design de Móveis.

Outro tema alçado à prioridade da agenda de 1999 é a Central de Informações de Compras, megacadastro que o sindicato quer montar dos fornecedores com o propósito de estimular compras conjuntas que dêem poder de barganha sobre preços. Seria o embrião de um projeto que o Sebrae, por seu lado, quer também deslanchar: a produção cooperada. "Vamos fazer um trabalho de sensibilização e preparação para o cooperativismo, aproximando vários produtores -- de dormitórios, de salas e de cozinhas -- para que formem uma câmara de negócios. Poderiam produzir, vender, expor e até exportar conjuntos completos de mobiliário" -- planeja Silvana. 

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