Sociedade

Tudo em nome
da solidariedade

  DA REDAÇÃO - 05/01/1999

Uma das organizações não-governamentais mais respeitadas do mundo, com múltiplas atividades assistenciais no Brasil e no Exterior, a Legião da Boa Vontade desempenha admirável papel social também no Grande ABC. Do Centro Comunitário de Santo André, casarão de 1,5 mil metros quadrados na Avenida Dom Pedro II onde está instalada desde janeiro de 1998, jorram exemplos de cidadania e sensibilidade social implementados por equipe de 109 voluntários e 10 funcionários.

Com o balanço anual fechado, a LBV regional contabilizou mais de 63 mil atendimentos em 1998 por intermédio de programas e de ações em saúde e educação voltados especificamente aos mais carentes, que ocupam a base da pirâmide social. Um avanço significativo em relação aos 47.754 atendimentos contabilizados no ano anterior, quando ocupava espaço físico mais modesto e com recursos mais limitados. Enfim, a LBV é tábua de salvação para milhares de pessoas num País e numa região onde o naufrágio social é duplamente asfixiante para os excluídos, porque a falta de renda para participar das benesses da economia de mercado está macabramente combinada com o reconhecido abandono de governos incompetentes para prover o mínimo necessário.

Em termos numéricos, a Ronda da Caridade é a principal atividade assistencial exercitada pela LBV regional. Dos mais de 63 mil atendimentos, 54 mil correspondem ao programa pioneiro da Legião da Boa Vontade no Brasil. Como o nome diz, a Ronda da Caridade consiste em trabalho itinerante no qual voluntários percorrem comunidades carentes servindo sopa enriquecida aos moradores, além de providenciar corte de cabelo, roupas, cobertores, remédios, atendimento médico e outros serviços. Na região, as rondas são realizadas quatro vezes por semana. Uma kombi carregada com comida deixa o Centro Comunitário de Santo André por volta das 16h e retorna vazia ao anoitecer, após atender aos moradores dos núcleos comunitários Cata Preta, Gamboa e São Jorge, em Santo André; Capuava, em Mauá; Jardim Calux, em São Bernardo; Favela Naval, em Diadema; Casa de Recuperação Camile e Flamarion, de Mauá, entre outros. 

São os próprios voluntários que preparam a sopa reforçada com batata, cenoura, couve, beterraba, tomate, frango, macarrão e fubá, entre outros ingredientes doados periodicamente pela Craisa (Central Regional de Abastecimento Integrado de Santo André), Mercado Municipal de São Paulo e alguns varejões. "A sopa é enriquecida com 10 legumes em média" -- afirma Maria José Rodrigues de Freitas, assistente social do Centro Comunitário de Santo André. São servidos 150 litros por ronda, o equivalente a 600 por semana ou 2,4 mil por mês. A distribuição das refeições é sempre antecedida por um Pai Nosso que envolve voluntários e moradores. "É de cortar o coração de qualquer um ouvir um pai de família dizer que a sopa veio na hora certa, que caiu do céu, porque os filhos não tinham o que comer" -- comenta José Jair Gallo, diretor do Centro Comunitário de Santo André, que veio do Centro Comunitário da LBV em Ribeirão Preto, onde há até pré-escola. Há programação de distribuição, para que as comunidades saibam com antecedência dias e horários de visitas. Quando a perua da LBV estaciona, filas com centenas de moradores já estão formadas.

O Programa Materno-Infantil é mais uma atividade da LBV regional direcionada a propiciar respaldo social aos desassistidos. A diferença é que, enquanto a Ronda da Caridade mira a fome, o programa combate o não menos grave problema da mortalidade infantil. Grupos de mulheres grávidas frequentam o Centro Comunitário diariamente, onde almoçam, têm lanche da tarde e, o que é mais importante, são instruídas sobre a melhor forma de cuidar do filho por intermédio de palestras sobre educação e saúde com especialistas convidados -- a importância da amamentação é um dos temas mais recorrentes. Também têm direito a consultas psicológicas gratuitas uma vez por semana, prestadas por psicóloga voluntária, e fazem cursos de tricô, crochê e corte e costura que rendem peças para o futuro enxoval. "No final da gestação, elas levam enxoval com 70 peças para casa, algumas feitas por elas mesmas e outras presenteadas pela LBV" -- comenta Maria de Freitas. 

Geralmente, as participantes voltam para casa carregando sacolas de frutas e legumes. E recebem cestas básicas nos quatro meses posteriores ao parto. Enfim, um banho de apoio e solidariedade no momento em que a mulher e a criança mais precisam. Cinquenta mulheres já participaram e outras 23 integram o programa atualmente. "O número só não é maior porque há desistências. Fazemos o possível, mas a determinação da participante é fundamental" -- comenta a assistente social. 

Capacitação -- O Centro Comunitário da LBV também atua na área de capacitação profissional com cursos preparatórios ao mercado de trabalho. O campeão de procura é o de Operador de Microcomputador, que fornece noções básicas dos programas mais utilizados em 24 aulas de duas horas de duração. O curso é gratuito e muito disputado. "Na última abertura para inscrições, anunciada no Diário do Grande ABC, formou-se fila com mais de 300 pretendentes" -- comenta Jair Gallo. 

O curso de informática mantém o Centro Comunitário sempre movimentado. São seis turmas de 20 alunos que ocupam ininterruptamente, das 8h às 22h, o laboratório de 20 microcomputadores Pentium equipados com multimídia. A relação de dois usuários por micro segue padrão das melhores escolas do mercado, mas o curso da LBV não é restrito a conteúdos técnicos. Aborda também aspectos humanísticos como administração do tempo, ética profissional, etiqueta e boas maneiras, relações interpessoais no trabalho e como elaborar currículo, entre outros.

A informática é espécie de antepasto para prato principal de abordagem educacional global, cujos ensinamentos justificam o lema Educação Para a Vida, constantemente repetido pelo presidente José de Paiva Netto. O curso já foi feito por mais de 800 alunos, com celebração de formatura no espaço ecumênico. "Muitos acabam arrumando emprego devido aos conhecimentos obtidos aqui" -- afirma o instrutor Fernando Antônio de Sales, funcionário da LBV. Os pré-requisitos de seleção são 5ª série completa e baixa renda familiar. 

O setor de capacitação profissional conta ainda com cursos de tricô e crochê, tapeçaria, pintura em tecido, artesanato e corte e costura. Cerca de 500 alunos já participaram. Há ainda cursos para formação de manicure e pedicure, além de cabeleireiro, o mais longo com duração de oito meses e uma aula semanal de três horas. "Esse curso teve início em junho do ano passado e em abril será formada a primeira turma de 20 alunos" -- comenta Jair Gallo. O equipado salão de cabeleireiro do Centro Comunitário tira elogios até de profissionais do setor. 

Curso de espanhol, com duas turmas de 25 alunos, e Telecurso 2000, com 20 participantes a caminho de concluir o Ensino Fundamental, são mais atividades com vistas à preparação para o mercado de trabalho. O Centro Comunitário também cria oportunidade para demandas sazonais, como o curso para produção de ovos de Páscoa que teve 35 participantes em março ou o curso para produção de cartões de Natal. 

Os atendimentos em caráter de emergência formam mais um ângulo da face solidária da LBV. São centenas de pessoas que batem à porta com necessidades diversas como falta de comida, cobertor e problemas de saúde.  A doação de uma cadeira de rodas motorizada para a menor Monique Santana da Silva, vítima de paralisia cerebral -- além de leite e fraldas --, é exemplo. 

O Centro Comunitário de Santo André também oferece assessoria jurídica e consultas com fonoaudiólogas gratuitas por intermédio de dois profissionais que atendem uma vez por semana como voluntários. Em breve oferecerá também atendimento odontológico. "Recebemos a doação de uma cadeira de dentista e instrumentais" -- comenta Jair Gallo.   

Mais espaço -- Tantas atividades tornaram pequeno o casarão de 1,5 mil metros alugado na Avenida Dom Pedro II. Mas a falta de espaço que obriga improvisação de atividades nos corredores e áreas externas converte-se em motivação suplementar na busca de antigo sonho: a construção de ampla sede própria em área que seria cedida pelo Poder Público. 

"Um terreno com cinco mil metros quadrados é o suficiente para construção de um centro-modelo, similar aos maiores da LBV no Brasil. Nem precisa ser em região central. Uma faixa de terra dos lotes à margem da Avenida Prestes Maia, em Santo André, seria o suficiente" -- sugere Jair Gallo, que pretende levar o assunto aos dirigentes públicos locais. Quem conhece um pouco da história de luta da LBV sabe que construção é o de menos. As obras físicas dos centros comunitários pelo Brasil afora são erguidas por voluntários, em mutirões. Nem o superintendente geral da instituição no País, Paulo Duarte, deixa de colocar as mãos na massa. 

A sede própria possibilitaria ampliar o atendimento com criação de novas vertentes sociais -- como uma escola de ensino fundamental -- ao mesmo tempo em que permitiria maximização no aproveitamento de recursos, já que a instituição ficaria livre de pagamento de aluguel. A LBV regional depende exclusivamente de contribuições financeiras da sociedade civil. São 6,3 mil colaboradores fixos que efetuam doações mensais de acordo com as possibilidades de cada um. A arrecadação mensal gira em torno de R$ 70 mil. "Há quem contribua com R$ 5 por mês e há quem ajude com R$ 100 ou mais" -- comenta Jair Gallo. 

Boa parte dos colaboradores tem o valor descontado em conta telefônica por intermédio de convênio firmado entre a LBV e a CTBC (Companhia Telefônica da Borda do Campo). A instituição sobrevive também graças à disposição dos mais de 100 voluntários, cujos esforços, se fossem convertidos em custos, elevariam e muito o valor reconhecido. 

Sensibilizar a iniciativa privada a contribuir com doações é desafio encampado pelos diretores. Além de fazer a parte que lhes cabe no tratamento de chagas sociais aparentemente isoladas mas que no fundo afetam a todos, as empresas têm oportunidade de deduzir valores no Imposto de Renda, lembra Jair Gallo.

Histórico -- A Legião da Boa Vontade foi fundada em janeiro de 1950 como consequência do programa Hora da Boa Vontade, que o radialista, poeta e escritor Alziro Zarur (1914-1979) lançou em março de 1949 na Rádio Globo do Rio de Janeiro. "A LBV nasceu sob a inspiração do Evangelho de Jesus" -- comenta Jair Gallo.

Quase 50 anos depois, a instituição possui 500 seções de atendimento no Brasil, das quais 51 são centros comunitários, além de sucursais na Argentina, Bolívia, Estados Unidos, Paraguai, Portugal e Uruguai. Só no Brasil a LBV contabilizou 3,1 milhões de atendimentos em 1998, resultado superior aos 2,5 milhões de 1997, que já haviam sido maiores que os 2,1 milhões em 1996. A seriedade da instituição é reconhecida nacional e internacionalmente. Recebeu no ano passado o Prêmio Qualidade Total Brasil 98, da International Exporters Service, e o Prêmio Bem Eficiente, concedido pela Fundação Kanitz, entre outros.

O crescimento da Legião da Boa Vontade está ancorado no poder dos meios de comunicação. As mensagens da LBV atingem a praticamente todo o território nacional por intermédio do Sistema LBV Mundial de Rádio e TV, que difunde programação diária em dezenas de estações radiofônicas, além do programa televisivo Vamos Falar com Deus, veiculado todo fim de noite pela Rede Bandeirantes. Além disso, a instituição edita as revistas Jesus Está Chegando, Geração 2000 (voltada para crianças) e Revista LBV. Conta ainda com a divulgação de mais de 50 colunas publicadas semanalmente, nos principais jornais do País, escritas pelo presidente José de Paiva Netto.

Duas das mais expressivas obras construídas na gestão de Paiva Netto são o Templo da Boa Vontade e o Parlamento Mundial da Fraternidade Ecumênica, em Brasília. As duas formam conjunto que se transformou no monumento mais visitado da Capital Federal, com mais de um milhão de visitantes em 1998. 

O Instituto de Educação José de Paiva Netto, instalado em área de 10 mil metros quadrados no Bom Retiro, em São Paulo, é outro motivo de orgulho para funcionários e voluntários da LBV. Considerado um dos centros de ensino mais modernos do Brasil, possui equipamentos de última geração e estrutura de Primeiro Mundo para atender gratuitamente a 1,4 mil alunos nas áreas de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio acadêmico e profissionalizante -- além de uma creche. Os estudantes têm quatro refeições por dia, desfrutam de assistência médica, psicológica e pedagógica, além de infra-estrutura completa com quadras de esporte, jardins, biblioteca e brinquedoteca. Bem perto do Instituto de Educação, no Casarão Comunitário Dr. Osmar de Carvalho e Silva, são desenvolvidos programas comunitários como o Materno-Infantil e a Ronda da Caridade, realizada em mais de uma centena de cidades brasileiras.

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