Economia

Entretenimento que
multiplica cifrões

  MALU MARCOCCIA - 05/01/1999

O Grande ABC resolveu semear com vigor um novo território de negócios, o da indústria do entretenimento, pegando carona na atividade que mais cresce em todo o mundo. O 1º Workshop de Turismo do ABC, realizado no mês passado pela Câmara Regional, concluiu ser possível carimbar os sete Municípios também como pólo turístico e inverter o sentido da placa em direção à Capital, Baixada Santista e outros centros de lazer onde há maior oferta de recreação, espetáculos culturais de gabarito, roteiro gastronômico diversificado e, sobretudo, eventos de negócios. 

Segundo o coordenador do Grupo de Turismo da Câmara Regional, Jorge Hereda, a região dispõe de grande arsenal de equipamentos, mas desconhecidos ou subutilizados. Por isso, as primeiras ações concretas para tirar o Grande ABC do limbo dos negócios turísticos são promover esforço de marketing junto aos 2,3 milhões de moradores locais por meio da campanha Descubra o ABC, inclusive com edição de guia semestral com roteiros de visitação e programação de eventos, e, numa segunda etapa, atrair a populosa Região Metropolitana de 20 milhões de habitantes com a sedutora vantagem da proximidade geográfica.

"Há um exército cosmopolita dentro e ao redor do Grande ABC faminto por lazer. Tudo o que nós, urbanóides, queremos é um momento ou lugar para desopilar o estresse. Se trabalhar bem isso, a região derrubará o estereótipo de reduto de chaminés onde é impossível praticar o lazer" -- afirma Marcelo Dourado, secretário de Turismo, Lazer e Juventude de Brasília, que se diz surpreso com o inventário levantado pelas Prefeituras para subsidiar o workshop e com alguns locais que avistou em Ribeirão Pires, onde foi realizado o encontro. Dourado elencou pelo menos três áreas que podem dar a arrancada no potencial novo motor de negócios da região: o turismo náutico aparentemente inesgotável nos 198 quilômetros quadrados da Represa Billings, o ecoturismo nas áreas de mananciais que imobilizam 56% do território do Grande ABC e o turismo de aventura nas trilhas da exuberância selvagem da Serra do Mar.

Negócios em alta -- Outro prato apetitoso pode estar no turismo de negócios, por conta inclusive da vocação econômica local e da conurbação com a Capital. Eduardo Sanovicz, da São Paulo Convention & Visitor Bureau, aguçou a dor de cotovelo da região -- com tímida rede hoteleira e totalmente carente de centros de exposições e convenções -- ao mencionar que sua empresa já identificou dentro e fora do Brasil 420 eventos captáveis para a cidade de São Paulo até o ano 2000. Em 1998, somente os 45 maiores eventos que promoveu movimentaram na Capital 6,5 milhões de visitantes, 1,3 milhão vindos de fora. Além de R$ 117, em média, gastos com hotelaria, o turista deixa diariamente na cidade de São Paulo outros R$ 153 com compras, lazer, transporte e refeições, menciona o consultor. "Não é possível que o Grande ABC, grudado à Capital, não aproveite essa força" -- desafia. O turismo de negócios e eventos responde por 77% do turismo e da ocupação de hotéis na Capital paulista. Em Brasília, chega a 70%. 

Jorge Hereda, também secretário de Desenvolvimento Sustentado de Ribeirão Pires, acredita que o selo de estância turística do Estado conquistado pelo Município em dezembro vai encorajar o processo de turismo integrado no Grande ABC. Ele entende que, mesmo com as sete cidades potencializando vocações onde são mais fortes, não podem isolar-se de planejamento regional. "Ribeirão faz divisa com Paranapiacaba em Santo André, com a Billings em São Bernardo e com a Mata Atlântica de Rio Grande da Serra. Precisamos pensar o ABC como um todo" -- sugere. Hereda está animado com o aprendizado que, a seu ver, a região está tendo de, pela primeira vez, fazer planejamento estratégico para o futuro e usando como pilar a chamada indústria limpa do lazer e do entretenimento. Segundo Hereda, turismo deve passar a integrar a política pública da região, sob pena de os atrativos naturais continuarem a ser ignorados e muitos, degradados. "Vamos sistematizar as propostas e levar às autoridades, empresários, formadores de opinião e tomadores de decisão" -- anunciou.

Para uma região que perde indústrias e empregos em escala proporcional à velocidade da reestruturação das empresas, o turismo pode ter o dom de reescrever a história econômica do Grande ABC. "Seu impacto sobre o mercado de trabalho é fabuloso, já que se trata de gente atendendo gente" -- sublinha Alexandre Affonso, da regional de Santos do Sebrae (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas). No mundo, o turismo faz girar a colossal quantia de US$ 3,4 trilhões por ano e gera mais de 200 milhões de emprego. Pelo menos 52 atividades são movimentadas em função do turismo: do taxista à floricultura, do promotor de eventos ao arquiteto de hotéis, de fabricantes de brindes e souvenires a restaurantes e casas de espetáculo. Uma em cada 10 pessoas no mundo está empregada em atividade turística ou impactada pelo turismo. O custo de um emprego na indústria, segundo dados do Sebrae-SP, chega a US$ 270 mil. Com esse valor, é possível montar uma pousada e empregar pelo menos 10 pessoas, acrescenta Magda Ventura, técnica da instituição. "Uma ocupação de trabalho no turismo exige apenas US$ 15 mil em investimento" -- mencionou.   

Santista serrano -- Alexandre Affonso, do Sebrae Santos, propõe ao Grande ABC resgatar o santista que aprecia climas serranos e que há vários anos trocou Ribeirão Pires por Águas de Lindóia. Segundo dados da Prefeitura de Santos, entre cultura, lazer e viagem, os 480 mil vizinhos santistas têm potencial de gasto de R$ 106 milhões/ano. Ribeirão e Rio Grande da Serra também são cotadas, a seu ver, para abrigar o turismo de saúde, na forma de spas ou hotéis para descanso. "O real deu poder de compra às classes C e D, que passaram a viajar mais sobretudo na forma de excursionistas, aqueles que não pernoitam na cidade. O ABC possui bom roteiro gastronômico, de lazer náutico e de pesca na Billings para esse público" -- acrescentou. 

Criar eventos que caracterizem tradições, culturas ou mesmo práticas do cotidiano local é ingrediente que não pode faltar na receita turística. Luís Pina, do Sesc (Serviço Social do Comércio) de São Paulo, que tem na intensa programação cultural um grande cartão de visita, afirma que o cidadão do mundo, hoje, dá valor superlativo à interação entre cultura e turismo. "Não é só paisagem que atrai. O homem globalizado viaja muito mais hoje em busca de conhecimentos culturais, religiosos e valores históricos" -- afirma. Pensando em justamente criar programação de festas regionais, o Sehal (Sindicato das Empresas de Hospedagem e Alimentação do Grande ABC) promoveu em Santo André no mês passado um carnaval temporão, o CarnABC, que pretende agendar anualmente em cada cidade. Durante dois dias foliões foram animados por bandas e o grupo baiano Olodum. 

Não apenas o Grande ABC deve se preparar ou aprender a fazer e incentivar o turismo. Com 8,5 milhões de quilômetros quadrados de território e sete mil quilômetros de costa, o Brasil atraiu somente 3,2 milhões de turistas estrangeiros em 1997, segundo dados da Embratur. É metade do que recepcionam vizinhos como Chile e Argentina. O consolo é que os brasileiros com potencial de circular internamente são 10 vezes mais: pelo menos 38,2 milhões de pessoas têm possibilidades de viajar pelo Brasil, segundo estudo da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo). Por conta disso, a rede de 18,2 mil hotéis e similares existentes no País prepara-se para receber reforço de 550 novos espigões no prazo recorde dos próximos cinco anos, segundo a Fiabci (Federação Internacional de Profissões Imobiliárias).

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