Economia

Até quando vamos perder?

  EDSON LOPES DOS SANTOS* - 05/01/1999

Temos tido a todo momento oportunidade de discutir a evasão de empresas do Grande ABC. Essas discussões quase sempre estão focadas na falta de visão ou de atuação do Poder Público regional e sua voracidade fiscal, utilizando-se como paradigma os benefícios oferecidos pelos inúmeros Municípios fora da Grande São Paulo e até mesmo dos Estados vizinhos. É inegável que se trava verdadeira guerra nesse campo, principalmente pelos Municípios do sul de Minas Gerais e do eixo Rio-São Paulo, que tem como espinha dorsal as Rodovias Fernão Dias e Dutra, que, por si só, representam grande estímulo às facilidades que proporcionam ao escoamento de produtos aos portos mais próximos em São Paulo e Rio de Janeiro.

Embora sempre se apregoe que a fuga das empresas do Grande ABC venha ocorrendo pelas pressões sindicais e pela busca de benefícios fiscais, não podemos acreditar que apenas esses fatores impulsionam evasão desenfreada que continua a toda velocidade. O que cabe discutir e entender é que a região necessita com urgência de um fórum de debates não somente na esfera de entidades envolvidas com a valorização regional, mas de ampla discussão por meio de organismos de representação de setores empresariais que atuem diretamente nas empresas, com a participação ostensiva das entidades sindicais. É preciso discutir os reais motivos que levam empresas a buscar soluções fora da região.

Chegou o momento de deixarmos de acreditar em Papai Noel e outras fantasias e encararmos o problema da evasão como dura realidade que, como turbina, após acionada dificilmente se consegue reverter sua força. Até quando vamos continuar levantando a bandeira ufanista do Grande ABC e deixar de atuar para, se não reverter a situação, tentar ao menos paralisá-la e, dentro de novas estratégias, buscar o redimensionamento de nossa capacidade produtiva? 

Todos amamos o Grande ABC. Mas até quando vamos continuar olhando para o próprio umbigo como se aqui fosse o centro do mundo, esquecendo de que estamos na era da globalização e que, com a mesma facilidade que adquirimos um produto numa loja de nosso bairro, o compramos do outro lado do mundo, via Internet, a preço 30% menor? 

É maravilhoso poder ressaltar as características e qualidades do Grande ABC no que diz respeito ao nosso provincianismo. É fantástico rever amigos de longos anos nos mesmos pontos de encontro que frequentamos há tanto tempo. Ao mesmo tempo, é terrível ter de explicar a um investidor externo por que os municípios do Grande ABC não estão interligados por vias de acesso rápido e por que a Via Anchieta continua sendo uma barreira entre as cidades e não uma via de integração pela simples falta de acessos físicos entre um e outro lado de suas marginais.

Ainda temos de ouvir, de alguns formadores de opinião, que um dos privilégios que nossa região tem a oferecer é a excelente qualificação da mão-de-obra. Aí fica difícil explicar para o mesmo investidor externo que está aqui fazendo pesquisa mercadológica o porquê de tão alta taxa de desemprego, especialmente dentro do grupo que compõe essa excelente e qualificada mão-de-obra. Até quando vamos continuar tentando vender essa falsa imagem do Grande ABC? Não é melhor admitir que a quase totalidade da nossa mão-de-obra precisa de urgente requalificação?

Até quando vamos continuar acreditando que uma empresa de tecnologia de ponta vai preferir o Grande ABC e não a região de Campinas ou São Carlos, quando ali encontra mão-de-obra com qualificação mais moderna e adequada à realidade das novas tecnologias de produção e de gestão empresarial? Sabemos que nossa região possui qualificação de mão-de-obra acima da média nacional, mas se analisarmos a composição desses valores iremos perceber que ainda estamos vivendo do ufanismo dos anos 80. O mundo deu uma reviravolta. Até quando vamos ficar lamentando nossas perdas sem nada fazer para recuperá-las?

Muito se tem discutido o Grande ABC e são louváveis os resultados dessas discussões. O que deve ser questionado é até quando continuaremos na esfera das discussões. É necessário passar para o campo da realização. Não será discutindo-se somente no topo dessas entidades que as mudanças ocorrerão. Quando é que as entidades de classe vão se convencer e fazer ver aos micro, pequenos e médios empresários da região que eles não estão isolados como acreditam, mas que são parte de um mundo que se está tornando único, muito pequeno e a cada dia mais competitivo?

Não podemos mais viver a fantasia de que as coisas melhorarão, simplesmente porque esperamos que o governo deve atuar no sentido de promover mudanças em benefício das empresas. Não vamos ser totalmente céticos, mas também não podemos ser ingênuos. As mudanças ocorridas no mercado são irreversíveis. A competitividade só tende a se acirrar. A busca da qualidade total deve ser uma guerra constante. Vencerá quem tiver maior capacidade de investimento e for mais ágil na qualificação e adequação de mão-de-obra que agregue valores ao produto.

Se nós do Grande ABC não admitirmos que temos de olhar nossa região com realismo e assumir nossas fragilidades para, dentro de planejamento eficaz, buscar soluções compatíveis com a realidade de um mundo globalizado, estaremos sempre à espera de que algo mude, sem saber o quê e para quê. Até quando?

* Edson Lopes dos Santos é advogado, diretor da Planeg Planejamento e Assessoria de Negócios, de Santo André, e membro do Conselho Consultivo de LivreMercado.

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