Política

Morando sabe que dureza
do prélio de 2020 não tarda

  DANIEL LIMA - 31/10/2018

O palmeirense Orlando Morando, coração sobressaltado nestas horas que antecedem o confronto de hoje à noite com o Boca Júnior pela Taça Libertadores da América, sabe que na condição de prefeito de São Bernardo a dureza do prélio de 2020 para renovar o mandato não tarda. As eleições desta temporada confirmaram a expectativa. Sem que tenha sustentação a versão de que se tornara um perdedor, os resultados revelaram o que se imaginava: o confronto para seguir prefeito em novo mandato não será um mar de rosas.

É exagero dizer – como estão a dizer por aí – que os resultados locais das urnas do tucano João Doria ao governo do Estado, com vitória do pedetista Márcio França, apoiado pelo PT, significaram derrota do tucano que comanda a Capital Econômica da região.

Diria que apenas se ampliaram os sinais de alerta do primeiro turno, quando o petista Luiz Marinho, candidato derrotado ao governo do Estado, obteve 25% dos votos, praticamente o dobro da média no Estado. Não é pouca coisa. Mais que isso: apesar dos maus momentos porque passa o PT desde 2014, impactado pelo Petrolão, Luiz Marinho de dois mandatos à frente de São Bernardo é um adversário competitivo.

Questão de honra

As sementes de um adversário eleitoralmente respeitável estão plantadas e deverão ser regadas com todo o cuidado pela esquerda em estado de desidratação eleitoral. Recuperar a cidadela petista mais emblemática do País (alguém duvida disso?) certamente será questão de honra para um partido que saiu nacionalmente ainda menor após a derrota de domingo. Qualquer discurso em contrário é puro marketing. A quantidade de votos obtidos por Fernando Haddad no segundo turno presidencial é pouco perto do que seria alcançado, por exemplo, por Ciro Gomes. O PT teve mais votos do que teria em circunstâncias que o colocassem diante de um adversário menos torpedeado pela mídia.

Haveria sim razões de sobra para imputar ao prefeito Orlando Morando a pecha de perdedor eleitoral. Seria preciso, para tanto, que São Bernardo não sufragasse Jair Bolsonaro presidente da República, ou lhe desse uma vitória por margem escassa. O resultado, de 59,16%, é muito mais confortável que o obtido por um vizinho desafeto, o prefeito de Diadema, Lauro Michels.

Na Capital da Esquerda Regional, berço do primeiro prefeito petista da história (Gilson Menezes, em 1982), Bolsonaro chegou à frente de Fernando Haddad por apenas dois pontos percentuais de diferença. Até prova em contrário, Michels pregou o voto BolsoMárcio, em referência ao apoio que a máquina situacionista de Diadema deu ao adversário de João Doria ao governo do Estado.

Flertar com o perigo

Desdenhar da força do PT em São Bernardo como fonte de resistência eleitoral aos tucanos comandados por Orlando Morando é flertar com o perigo da ingenuidade ou da burrice. São Bernardo, por razões históricas conhecidas e reconhecidas, é um endereço bastante favorável à pregação petista. O jogo jogado é geralmente encardido. Não seria diferente nas eleições encerradas domingo. Convém lembrar que o panorama da disputa municipal de 2016, quando o candidato de Luiz Marinho não chegou a 20% dos votos no segundo turno contra Morando, foi uma excepcionalidade da faxina sofrida pelo PT na esteira do Petrolão. Agora, nesta temporada, a Operação Lava Jato e seus efeitos foram mais ecumênicos na nomeação de políticos envolvidos em falcatruas.

A margem de diferença menos elástica de Jair Bolsonaro no macro resultado regional confirma o campo petista em São Bernardo. Foram cinco pontos percentuais abaixo na soma dos sete municípios. Excluindo-se resultados de São Bernardo, seriam sete. São Bernardo é muito mais petista que qualquer outro Município da região, exceto Diadema.

O indicador flamante de inquietação com vistas à reeleição de Orlando Morando é o placar na disputa ao governo do Estado. E mesmo assim não houve uma catástrofe: com todas as restrições que apanharam João Doria, sobretudo a renúncia ao mandato em São Paulo, perder por apenas 1,57 ponto percentual não é nada desastroso. O efeito-renúncia colheu João Doria em muitos municípios da Região Metropolitana de São Paulo, mais sensível a tudo o que ocorre na Capital e sobretudo mais vulnerável ao eleitorado de centro-esquerda.

Outros resultados

Como mostramos ontem num texto analítico sobre a resiliência de Diadema como centro-esquerdista do G-22 (agrupamento dos 20 maiores municípios do Estado, acrescido de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra e sem a participação da Capital), os resultados de João Doria foram comprometidos no cinturão mais urbanizado. Na vizinha Osasco, Márcio França teve votação semelhante a alcançada e São Bernardo, com vitória de 1,81 ponto percentual. Em Mauá foram 4,23 pontos percentuais. Em Rio Grande da Serra, 2,29. Em Guarulhos, 7,22 pontos. Em Ribeirão Pires, 2,29.

Como as pesquisas indicavam desde as primeiras rodadas, a salvação de João Doria seria mesmo a redução da diferença de votos consumada na derrota na Capital (10,38 pontos percentuais) no restante da metrópole e um salto numérico com o prevalecimento do mais conservador Interior do Estado. Não deu outra.

Foi o Interior menos industrializado e mais pacato de pequenos e médios municípios que assegurou o sucesso de João Doria. Claro que o tucano não largou o cangote de Jair Bolsonaro, que totalizou 68% dos votos válidos entre os paulistas. A votação de Bolsonaro na Capital foi prejudicada pela casadinha imposta por João Doria. O capitão reformado somou 58% dos votos válidos na Capital. Praticamente a mesma marca de São Bernardo – e, portanto, 10 pontos abaixo da média estadual.

Passivo regional

Orlando Morando tem um passivo enorme como prefeito dos prefeitos da região, na condição de titular do Clube dos Prefeitos, mas nenhuma análise pode ser contaminada. A narrativa ácida é natural entre os adversários políticos, caso do prefeito de Diadema, Lauro Michels.

Goste-se ou não, Morando vem imprimindo a São Bernardo um ritmo de trabalho que, por exemplo, ultrapassa largamente os quase dois anos de mandato de seu vizinho, Paulinho Serra, de Santo André.

Independentemente de questões orçamentárias, entre outros vetores, o que difere um do outro é que Morando tem dinamismo típico de operário padrão que quer ver as coisas acontecerem, enquanto Paulinho Serra observa passivamente, quase como Macunaíma, o cenário municipal na esperança de um milagre econômico.

Não é por outra razão que o melhor plano de governo de Paulinho Serra na área de Desenvolvimento Econômico são os repetitivos programas de recuperação de créditos, os chamados Refis. Haja inadimplência da sociedade para manter o marketing oficial.

Também posso catalogar como política econômica de Santo André (um exagero e tanto, que menciono apenas para ressaltar a pobreza da administração municipal) os grandes e médios conglomerados supermercadistas que desembarcam em territórios férteis de consumidores por conta da densidade demográfica do entorno. Os danos colaterais aos pequenos negócios familiares são conhecidíssimos, mas descartados pelo tucano.

Conexão improvável

Para completar, diria que potencialmente é menos provável que haveria conexão favorável a Orlando Morando entre o que vai acontecer esta noite na decisão do Palmeiras contra o Boca Júnior e o resultado das urnas em outubro de 2020, quando disputaria uma final com Luiz Marinho.

No futebol, o Palmeiras carrega o peso de uma desvantagem enorme e precisaria entregar a alma a Deus para tentar reverter um resultado estatisticamente improvável, levando-se em conta além dos aspectos técnicos e táticos atuais também o histórico da competição nessa fase de disputa.

Na política, Orlando Morando tem o garfo e a faca nas mãos para manter um favoritismo sob tensão permanente. Vai depender muito do prevalecimento da narrativa fundamentada em fatos, não no marketing vazio.

Ou seja: a classificação vitoriosa do Boca Júnior esta noite está para a lógica do futebol assim como está para a potencialidade da política uma vitória de Orlando Morando dentro de dois anos. Basta tanto num caso quanto do outro não cair na armadilha do adversário. Ou dos próprios erros.

Resta saber, entretanto, se a narrativa municipalista, que favorece Orlando Morando tremendamente, não seria sufocada por nova concepção de governo, vinculada aos vasos comunicantes da regionalidade.

Nesse terreno, os dois anos à frente do Clube dos Prefeitos poderiam custar caro a Orlando Morando. Mudança do roteiro de interpretação do que seria um novo gestor público da região, retomando-se o período Celso Daniel, dependeria do amadurecimento dos formadores de opinião em redes sociais fragmentadíssimas. Por mais limitada que tenha sido a atuação de Luiz Marinho no campo da regionalidade, nem se compara à desertificação de Morando.

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