Economia

Mercado desativa
a bomba sindical?

  DANIEL LIMA - 05/12/1998

Lembram-se da inédita Reportagem de Capa -- Quem Desativa a Bomba Sindical? -- edição de agosto de LivreMercado? O trabalho entrou para a história do jornalismo porque foi a primeira vez que uma publicação invadiu os subterrâneos das relações entre capital e trabalho do setor automotivo do Grande ABC e esmiuçou as fundas diferenças entre montadoras de veículos, autopeças e sindicalismo, principalmente o representado pela CUT (Central Única dos Trabalhadores) na forma do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema. 

De agosto para cá, sobretudo com o terremoto financeiro na Rússia que fez explodir os níveis de juros mantidos pela equipe econômica brasileira, a crise se instalou no setor automotivo. Desabaram as vendas, que deverão ficar este ano 25% abaixo das projeções mais conservadoras. Demissões começaram a pipocar nas autopeças menos suscetíveis a ações sindicais e também já atingem trabalhadores das montadoras. A lógica de menos produção significa maior custo unitário por produto.

O que os metalúrgicos da CUT rechaçaram em reuniões preliminares da Câmara do Grande ABC, numa iniciativa do prefeito de São Bernardo, Maurício Soares, a supremacia do mercado determina. A Força Sindical, ligada ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, é menos inflexível que a CUT e já não se opõe desmesuradamente à necessidade de cortar as chamadas conquistas sociais dos trabalhadores. 

Os metalúrgicos do ABC insistem em manter cláusulas dos tempos de mercado fechado e de preços engordurados. Tanto que a mais nova iniciativa do sindicato presidido por Luiz Marinho é a renovação da frota de veículos. Os 5,5 milhões de veículos com mais de 15 anos de uso que circulam entre a frota de 18 milhões de unidades do País seriam gradual e finalmente reconhecidos como sucatas, cuja circulação degrada o meio ambiente e eleva os níveis de acidentes de trânsito. Cerca de 400 mil veículos populares, zero quilômetro, passariam a ocupar ruas e estradas brasileiras a cada ano. Custariam 30% menos, graças à redução de impostos federais, estaduais e também à queda da margem de lucro das montadoras e concessionárias. Os trabalhadores não cederiam nada.

É claro que há recusa das montadoras. Os metalúrgicos do ABC não abrem mão de receber das empresas o que é obrigação não cumprida pelo Estado -- transporte, educação, saúde e plano de aposentadoria --, além de uma série de outras vantagens que historicamente desequilibraram o mercado de trabalho do Grande ABC, já que desprezaram as diferenças entre pequenas, médias e grandes indústrias e os setores em que atuam. Filho dileto da livre-iniciativa, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC insiste em garantir para seus filiados muitos dos benefícios extratrabalhistas dos operários de nações em que tanto se espelham, notadamente da Europa Ocidental. A diferença é que aqui quem paga a conta são as empresas. Reformar o Estado, princípio básico de qualquer macromudança, continua a ser heresia para a CUT, política e estruturalmente presa ao corporativismo estatal.

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