Política

Região será mais antipetista
agora que petista em 2002?

  DANIEL LIMA - 22/10/2018

Vale a pena conferir neste domingo um vetor das eleições presidenciais que tem tudo a ver com a temperatura política, social e econômica da região. Vamos fazer uma comparação que tem múltiplas razões e explicações. O petista Lula da Silva chegou pela primeira à presidência do Brasil em outubro de 2002 com 67,13% dos votos válidos na região. Será que Jair Bolsonaro, 16 anos de muitas decepções tucanas e petistas depois, conseguirá números ainda mais exultantes? Foram quatro mandatos consecutivos do PT, os quais tem tudo a ver com os dois mandatos presidenciais anteriores do tucano de Fernando Henrique Cardoso. O Partido dos Trabalhadores ganhou três seguidos na região. Perdeu somente em 2014 com Dilma Rousseff contra Aécio Neves.  E vai perder domingo outra vez. Resta saber qual será a diferença. 

Juro por todos os juros que estou em dúvida. Meu íntimo manda dizer que Bolsonaro será melhor que Lula da Silva na região quando as urnas forem apuradas, mas não estou convicto disso quanto ao tamanho do estrago petista. Talvez desfaça a dúvida até a próxima sexta-feira, véspera do segundo turno. 

Gosto de desafios numéricos porque os transformo em material lúdico – se é que posso tratar assim algo que diz tudo a respeito do futuro do País. Cantei a caçapa de que o PT perderia o tetracampeonato nacional na região há quatro anos. 

Repetição de desastre

O que sei por enquanto é que o capitão reformado ganha a eleição tanto aqui quanto no País. Talvez aqui por diferença maior. Como Lula da Silva em 2002. O ex-metalúrgico elegeu-se em segundo turno disputado contra o tucano por 61,27 a 38,72% dos votos válidos. Menos, portanto, que os 67,13 a 32,87% na região. O petismo era mais avermelhado na região que no restante do País. Os tucanos eram menos azulados aqui. 

Não é fácil apontar o resultado do segundo turno. O PT que ganhou pela primeira vez a presidência da República em 2002 contou com efeitos anabolizantes de um segundo mandato desastroso do tucano Fernando Henrique Cardoso. Em termos regionais, FHC foi uma decepção completa. Muito da desindustrialização da região se intensificou nos oito anos do governo tucano, iniciado em janeiro de 1995. A região perdeu um terço do PIB Industrial e decepou quase noventa mil empregos do setor. 

Esperava-se que Lula da Silva e o PT dariam novas cores à região. O desencanto foi maior ainda. Mas isso é assunto para outro texto, que vou preparar ainda nestes dias. Antes do segundo turno. O que interessa agora é mesmo confrontar os resultados do segundo turno em 2002 e o que teremos domingo que vem. 

A situação que se apresenta neste ano é mais favorável à derrota do PT do que a registrada em 2014, quando Aécio Neves superou Dilma Rousseff por 58,05% a 41,94%, embora tenha sido derrotado na contagem geral de votos no País. Há quatro anos o escândalo da Petrobrás não se configurara com o impacto que veio em seguida. Basta olhar a hecatombe petista em 2016, nas eleições municipais. 

Naquele 2014 a Operação Lava Jato não estava ainda a todo vapor, ou não reproduzia ainda as investigações em forma de denúncias criminais que pegaram o PT e em seguida muitos outros partidos. 

Diferença semelhante 

Agora é tudo diferente: o fenômeno Jair Bolsonaro é, entre outras razões menos forte, decorrência direta da decepção dos brasileiros com os mecanismos de corrupção que enlaçaram praticamente todos os partidos da base aliada dos petistas. Criminalidade e desemprego são condimentos também nobres no pacote da degringolada econômica e social do País. 

Entre o petismo oportunista que venceu as eleições de 2002 com Lula da Silva e o petismo estruturalmente enredado em corrupção de Fernando Haddad que disputa o segundo turno com Jair Bolsonaro neste domingo é possível que o contraste numérico seja semelhante. 

Ou seja: da mesma forma que Lula da Silva arrebatou eleitores da região que jamais comungaram com o receituário petista, porque fartamente conhecido a partir das greves dos metalúrgicos em São Bernardo, o conservador Jair Bolsonaro amealharia a maior parte do eleitorado menos por qualidades próprias, e mesmo apesar dos apontados passivos, mas sobretudo porque sinalizaria com novos tempos do corroído sistema político-partidário nacional. 

São Caetano lulista 

Escrevi na edição desta revista digital em 28 de outubro de 2002 que a região de então 1,6 milhão de votos e 2,350 milhões de habitantes elegeu tanto Lula da Silva para a presidência da República como José Genoíno para o Palácio dos Bandeirantes. A vitória de Lula da Silva foi confirmada nas urnas nacionais, mas Genoíno perdeu para Geraldo Alckmin no Estado de São Paulo. 

A avalanche de votos amealhados por Lula da Silva diante de José Serra em 2002 não deu folga nem mesmo ao mais conservador dos municípios da região, a predominantemente classe média São Caetano. O resultado foi um estrondo de surpresa, apesar de os rescaldos econômicos deixados por Fernando Henrique Cardoso ultrapassarem todos os limites de paciência. Lula da Silva obteve 52,9% dos votos válidos em São Caetano, pouco inferior à média estadual do novo presidente, de 55,4%. Neste ano, em São Caetano, a vantagem de Bolsonaro será estratosférica. Arrisco mais de 75% dos votos válidos. 

Diadema e Mauá, quase irmãs siamesas no pensamento político-eleitoral naquelas eleições, com o petismo enraizado na população, registraram votações massacrantes para Lula da Silva. Diadema conferiu ao petista 72,8% dos votos válidos e Mauá 70,3%. Os resultados trafegaram muito acima dos números finais no Estado: 31,4% no caso de Diadema e 26,8% no caso de Mauá. Neste ano, Bolsonaro não terá vantagem tão larga em Diadema, reduto mais resistente do PT na região, e possivelmente terá resultado inferior ao de Lula em Mauá.  

Muito mais avermelhado 

Se os resultados da vitória de Lula da Silva em Diadema e em Mauá foram semelhantes em 2002, também houve proximidade nos casos de Santo André e São Bernardo. A votação de Lula em Santo André chegou a 65,6% e em São Bernardo a 68,6%. 

Os números de Santo André foram surpreendentes, porque o petismo nos melhores anos anteriores não se descolava dos tucanos. São Bernardo sempre foi mais avermelhada que azulada, por força do movimento sindical e também da formação de uma classe média fortemente influenciada pelo emprego industrial de chão de fábrica. Talvez os números se reproduzam nesta temporada, agora com o verde-amarelismo de Bolsonaro. Ou ficará muito próximo disso. 

Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra expuseram resultados do segundo turno presidencial de 2002 também parecidos entre si, um pouco abaixo de Santo André e São Bernardo exatamente porque menos industrializadas. Ribeirão Pires deu 61,5% votos válidos a Lula da Silva, enquanto Rio Grande da Serra chegou a 60,9%. Acredito que Bolsonaro alcançará números mais densos ainda.

Como se percebe, Lula da Silva ganhou em todos os municípios da região quando finalmente o Partido dos Trabalhadores conquistou a cidadela de Brasília. 

A expectativa naquela temporada de que Lula da Silva poderia chegar a um milhão de votos na região acabou não se confirmando. Mas faltou pouco: foram 911.268, contra 446.039 de José Serra. Parece não haver dúvida de que Bolsonaro ultrapassaria essa marca numérica, mas até que sexta-feira agora chegue, repito que não tenho convicção de que superará os mais de 67% dos votos de Lula na região. 

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