Imprensa

Responsabilidade de informar

  DANIEL LIMA - 05/06/1998

Tomara que a moda pegue por aqui. Começa a circular este mês nos Estados Unidos a revista Content (Conteúdo), que pretende tratar a mídia com o mesmo desvelo dos cães perdigueiros. Segundo as informações, Content não vai dar trégua aos jornalistas, sobre as cabeças dos quais estarão sendo esgrimidos atributos como honestidade, integridade, justiça e precisão. A publicação não estará sendo distribuída restritamente ao corporativista mundo jornalístico, como é comum na área. Vai para a massa formadora de opinião, com tiragem inicial de 150 mil exemplares. Sustentada por pesquisa em que o público tem sério interesse em saber quem é quem no mercado da comunicação, Content promete esmiuçar a vida profissional de gente que trabalha com a commoditie mais importante da atualidade: informação. 

O jornalismo nacional está por merecer algo semelhante. Certamente num primeiro momento o prestígio da classe sofreria tranco duríssimo e acabaria se debatendo nas profundezas da ética e da moralidade que atinge a imagem dos políticos, personagens mais expostos no mundo da comunicação. Há jornalistas preguiçosos, irresponsáveis, imprecisos e desinteressados em profusão bem maior do que os exatamente opostos. Por incrível que pareça, grande parte de quem tem na informação a matéria-prima de trabalho simplesmente não se empenha para aprofundar-se na atividade, sobretudo por meio do intransferível exercício da leitura obsessiva. Até porque, a maioria das redações estende a carga horária muito além do recomendável a uma atividade intensamente estressante.

Os leitores de revista análoga à Content no Brasil poderiam conhecer mais detalhadamente alguns nomes supostamente ilustres da mídia que, convidados a participar de seminários e palestras tão desconfortáveis quanto uma bola pingando na entrada da área para um centroavante, usam da demagogia para confirmar os aplausos previamente programados. É comum que responsabilizem os meios de comunicação, inclusive os que estão vinculados profissionalmente e nos quais exercem funções de comando, por eventuais posturas editoriais que contradizem compromissos ideológicos próprios. 

Fazedores de média e carreiristas contumazes, os integrantes dessa turma adoram cultivar na vida privada as mordomias do capitalismo, mas têm de exibir a cara pública de preocupação social. São falsos apóstolos. Gozam de tantas liberdades, contrariamente ao que dizem em seus guetos, que tornam suas intervenções profissionais exercício de permanente infiltração ideológica pessoal, espancando a realidade.

Batem para valer -- e nem poderia ser diferente -- quando uma Light apressadamente privatizada no Rio de Janeiro entra em pane e prejudica os consumidores de energia. Mas se calam -- e não poderia ser diferente, também segundo sua ótica muito particular -- quando uma então estatal Eletropaulo repete as barbeiragens da concessionária carioca e causa prejuízos a milhares de usuários do sistema, pessoas físicas e jurídicas. Enfim, antepõem Estado e mercado com a inflexibilidade dos ignorantes, quando se sabe que Estado, mercado e sociedade desenham um novo conceito de gerenciamento de conflitos e interesses que só sobreviverá se houver equilíbrio de forças e de representatividade. 

Esses profissionais, só para citar outro exemplo, não sabem distinguir Tony Blair, primeiro-ministro britânico eleito pelos trabalhistas mas de corte social atualizado, de um Lionel Jospin, dinossáurico primeiro-ministro francês socialista. Botam, segundo suas conveniências, tudo no mesmo saco político, estabelecendo paralelos entre premiês tão díspares. 

As candidaturas dos ex-coordenadores gerais do Fórum da Cidadania, Marcos Antônio Gonçalves a deputado federal e Fausto Cestari a estadual, devem ter sido suficientemente maturadas por ambos. Certamente não lhes faltaram incentivadores durante o processo de remoção dos custos pessoais e profissionais que a decisão implica. Se tivesse sido ouvido, diria o que os leitores vão ler em seguida: não entrem nessa.

Talvez seja obtusidade minha, talvez seja conservadorismo, talvez seja muito talvez na minha cabeça que não titubeia entre o sim e o não em outras questões da vida que não envolvam política. O fato é que não me agrada observar duas grandes estrelas comunitárias, dessas que se empenharam a fundo para ajudar a construir o Fórum da Cidadania e a Câmara Regional do Grande ABC, dessas que exercitam ações políticas sem se misturar com partidos, não me agrada, dizia, vê-los correndo atrás de votos. Primeiro, porque não acredito que se elejam. Segundo, porque, se eleitos, talvez possam aplicar em menor escala e intensidade o que fizeram e fazem como agentes sociais, porque as casas de leis, como se sabe, são o corolário da burocracia, o inferno dos regulamentos. 

Por que não acredito que se elejam? Porque o jogo eleitoral é especialidade para profissionais, para gente que tem faro de votos, para gente de dorso muito mais flexível. Fausto Cestari e Marcos Gonçalves têm temperamentos diferentes mas posições semelhantes. O ousado Marcos e o comedido Fausto são bons articuladores e sabem distinguir terreno movediço de terra firme de modo suficiente a evitar o primeiro e a equilibrar-se no segundo. Diferentemente do político tradicional, que se equilibra no segundo e também no primeiro. 

Também não acredito que venham a ganhar cadeiras na Assembléia Legislativa e no Congresso Nacional porque lhes falta o voto distrital como plataforma de embarque. Com o voto distrital cada voto tem potencialmente maior valor, porque não se dispersa, não se atomiza. 

Enfim, torço por esses dois agitadores institucionais como torço para políticos autênticos que sabem como trafegar a salvo das areias movediças, mas estou desconfiado de que quem vai perder vai ser o Grande ABC, porque a confirmação da suspeita de que o eleitorado não vai entendê-los poderá abater o entusiasmo com que se debruçam em defesa da comunidade.  

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