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Sociedade

Custo ABC está
na linha de tiro

  DANIEL LIMA - 05/01/1998

O Grande ABC ingressa num novo ano, mais próximo do século XXI, insistindo em desprezar dolorida mas elementar verdade: o Custo ABC é chama que o frio pragmatismo do capitalismo globalizado exige que se elimine. Principalmente porque se sobrepõe a outra chaga nacional, o Custo Brasil. O embate entre a Volkswagen do Brasil, a maior empregadora da região, e o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC longe está da superação, depois do acordo preliminar de estímulo a demissões voluntárias. Mesmo protegida pelo regime automotivo, que assegura minguada cota de importação de veículos fabricados na Europa, EUA e Ásia, além de muralha de 70% de alíquota de imposto, as montadoras do Grande ABC, e não só a Volkswagen, precisam elevar a produtividade. A competição com logomarcas que brilham lá fora começará a despejar produtos no mercado doméstico no ano que vem, através de fábricas instaladas em alguns Estados brasileiros, beneficiadas por guerras fiscais e mão-de-obra mais em conta. 

É verdade que a situação da fábrica da Volks em São Bernardo, inaugurada há 40 anos, é a mais dramática. Sua estrutura está aquém dos modernos manuais do setor automotivo. O índice de modernização tecnológica é baixo e é contraproducente o gigantismo físico de suas instalações. A fábrica Anchieta reúne 22.348 funcionários que produzem 1,5 mil veículos por dia. A Ford, que investiu milhões para atualizar a fábrica e adaptou seu mix a produtos mundiais, como o Fiesta e o Ka, produz 1.035 veículos por dia com sete mil funcionários; isto é, pouco menos de veículos com um terço do contingente empregado. A Fiat, em Betim, tem 24.100 funcionários -- quase tanto quanto a Volks -- e produz bem mais veículos -- exatamente 2,3 mil por dia. 

A reação da Volks, expressa em declarações do diretor de recursos humanos Sérgio Tadeu Perez, de cortar 10 mil trabalhadores da fábrica Anchieta, foi um blefe que estremeceu o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. O aumento dos juros e dos impostos, embutido no pacote fiscal lançado em novembro pelo governo federal para proteger a estabilidade do Real contra especulações nas Bolsas de Valores, a partir da crise asiática, era o pretexto que a Volks precisava para aprimorar o enxugamento de uma planta industrial em sintonia com a competitividade internacional. 

Fim das conquistas? -- Os resultados das negociações do titular de RH da multinacional e o presidente do Sindicato, Luiz Marinho, apenas aparentemente significaram vitória dos sindicalistas da CUT, que se opõem ferozmente à alternativa de redução de salários e de carga horária de trabalho, acertada dias antes pela rival Força Sindical com o Sindipeças. A CUT julga que abriria precedente para outros setores da economia. O elenco de cortes de custos acertado entre as partes -- a começar pelo voluntariado de até 3,1 mil trabalhadores, ou 10% dos quadros da Volks no Brasil -- romperá chamadas conquistas históricas do sindicalismo vinculado ao PT. Salários serão congelados, pagamentos de participação nos lucros ou resultados serão suspensos, 300 funcionários administrativos vão ganhar bilhete azul, o adiantamento do 13º salário quando o funcionário tirar férias vai virar folclore, a hora extra trabalhada aos domingos cairá de 200% para 100% e aos sábados de 100% para 50%, o adicional noturno será rebaixado de 30% para 20%, subsídios para plano de saúde cairão de 85% para 50%, acabará o transporte coletivo gratuito e a jornada flexibilizada tanto pode ser de quatro como de seis dias por semana, conforme a sazonalidade do mercado, entre outras propostas. 

Tudo isso, queiram ou não, tem nome e sobrenome: Custo ABC.

O que muitos ainda não compreenderam é que já se foi o tempo em que o mercado automotivo era predominantemente do Grande ABC. Com a Fiat em Minas, as novas plantas em outros pontos do País e a abertura comercial, principalmente na relação com o Mercosul, a vulnerabilidade regional está exposta ao menor balanço do mercado. E que a estridência corporativa do sindicalismo, embora legítima, não tem oferecido resultados práticos que possam concorrer a qualquer premiação voltada aos recursos humanos.

A relação entre emprego e salário da fábrica da Volks em São Bernardo ajuda a explicar o processo de exclusão social que se observa na região, principalmente em São Bernardo e Diadema, onde há maior concentração de trabalhadores de setores direta e indiretamente ligados às montadoras. Em 1980, tempos de porteiras fechadas, a fábrica Anchieta contava com 37.467 trabalhadores e o salário médio atingia US$ 712,19. Em 1997, o contingente de trabalhadores caiu para 22.217 (menos 60%) e o salário médio subiu para US$ 1.517,55 (mais 113%). A produção de veículos deu saltos ainda maiores, mas a relação veículos-funcionários é francamente desfavorável à unidade. 

Criminalidade -- Como o enxugamento de quadros não é decisão isolada da Volkswagen -- Ford, Mercedes-Benz, General Motors e Scania tornaram permanente a demissão incentivada --, é mais que correto correlacionar o crescimento do desemprego no Grande ABC aos cortes de pessoal da indústria automotiva e de seu universo de empresas satélites, principalmente as autopeças, jogadas às traças da globalização sem a menor proteção do governo federal.

São Bernardo e Diadema figuram como campeãs de criminalidade no Grande ABC e no Estado. Segundo números da Seccional de Polícia de São Bernardo, que compreende também Diadema, é assustador o crescimento de delitos nos dois Municípios. A situação é mesmo calamitosa. O furto e o roubo de autos cresceram respectivamente 22% e 55% entre o ano passado e este ano. No mesmo período, furtos a residências aumentaram 47%. Furto e roubo de comércio saltaram, respectivamente, 37% e 48%. Roubo a transeunte cresceu 72%, roubo a banco 98%, homicídio 75% e estelionato 51%.

É evidente que boa parte dessa avalanche de crimes está ligada às dores de um País que desastradamente trocou o autarquismo pelo globalismo sem considerar o ritmo dessas ações. Uma espécie de estrupo econômico que atinge em cheio o Grande ABC, protegido ao longo de décadas por um sindicalismo e um empresariado de grande porte que contabilizavam para si e lançavam para ao restante da sociedade nacional os preços que mais lhe convinham dos veículos que saiam da linha de produção. Desconectar o avanço da criminalidade dos traumas da metamorfose econômica é algo que só se perdoa por ingenuidade sociológica. Principalmente porque os demais Municípios da região, menos dependentes dos empregos de montadoras e autopeças, apresentaram taxas mais amenas de criminalidade. Na média, o salto na região foi de 19%.

Muito pouco -- O que se sinaliza para os próximos anos, até a virada do século, é que a região será obrigada a seguir a trilha globalizada e que o Custo ABC acabará mesmo minimizado, sob pena de novas deserções industriais. Nem mesmo o anúncio da instalação da Land Rover, subsidiária inglesa da BMW, em área ociosa da Karmann-Ghia em São Bernardo, deverá quebrar esse clima de preocupação. O investimento total de US$ 148 milhões, com suposta criação de 800 empregos diretos e indiretos, é apenas uma gota no oceano.

É claro que as autoridades públicas procuraram tirar proveito do investimento. O secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico, Emerson Kapaz, cujas visitas já foram mais frequentes à região, relacionou o investimento da Land Rover à Câmara Regional do Grande ABC, mas isso não é exatamente a realidade. A decisão pela região independeu do governo do Estado e foi estratégica porque São Bernardo está a meio caminho do Porto de Santos, os fornecedores de autopeças estão no quintal da Karmann-Ghia e a mão-de-obra (excedente e de salários a combinar, com rebaixamento em relação às montadoras tradicionais) é de boa qualidade. 

A Câmara Regional, conjunção de autoridades políticas da região e do Estado que abarca também representantes sociais, econômicos e sindicais do Grande ABC, já viveu dias melhores. Em dezembro, num show de precipitação, reuniu-se a toque de caixa para aprovar manifesto contra a onda de demissões na região. O documento é agressivo e tendencioso politicamente, porque avacalha com a política econômica do governo federal, até prova em contrário aliado do governador do Estado. Antonio Laganá,  representante do governador Mário Covas, percebeu a cumbuca em que estava se metendo e não assinou o manifesto. Não havia nenhum secretário de Estado presente na formulação do documento, que, evidentemente, despreza o Custo ABC.

Considerada espécie de vôo da esperança para colocar o Grande ABC em contato direto com as decisões estratégicas do Estado, a Câmara do Grande ABC já sofre fundas restrições. A chegada do ano eleitoral é observada como ingrediente suficientemente divisionista para esvaziar o calendário ainda incipiente de ações desse organismo informal, modelo de metropolização com a tutela do Estado que não agrada a várias autoridades públicas locais. 

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