Sociedade

Como alcançar o
paraíso terreno?

  ANDRE MARCEL DE LIMA - 05/01/1998

Um tremendo paradoxo é a marca do mundo às portas do século XXI. E como todo bom paradoxo, esse ao qual a humanidade está condenada tem antagonismos complementares e chocantes muito bem definidos. Por um lado, é inegável o  privilégio que significa estar vivo em pleno século XX. Nenhum de nossos antepassados participou de época tão atraente. Se a vida humana orienta-se pela busca do prazer e pela fuga da dor e sofrimento, como sustenta a psicologia, nunca houve período histórico em que a felicidade estivesse mais próxima. É de se pensar como o mundo devia ser monótono há apenas 300 anos, quando sequer luz elétrica existia e a charrete encerrava o mais veloz meio de transporte terrestre. 

Já no mundo moderno, chamado de pós-moderno e até de pós-pós-moderno por muitos pensadores, não faltam instrumentos para motivar e exercitar o prazer e satisfazer a natural curiosidade humana. Na obsessão por atribuir sentido à própria existência, o homem se superou, inventou e continua inventando de tudo. A diversidade de bens criados é tão grande que preenche os mais entranhados anseios de fetiche de consumo. Máquinas de bronzeamento artificial, home-teathers, carrões que só não trafegam sozinhos, realidade virtual, microondas e sexo por telefone são algumas das pródigas invenções que nos separam dos primeiros exemplares humanos há 2,5 milhões de anos.

A necessidade básica de atribuir valor às coisas da vida, ou de se sentir vivo e atuante por intermédio das criações e das escolhas pessoais, como diria Sartre, não só gerou uma infinidade de brinquedos para adultos como relativizou as distâncias em prol dos seres racionais. O supersônico de hoje permite que se cruze o mundo com a mesma quantidade de horas em que outrora se deslocava apenas de uma cidade a outra. O conhecimento, estrategicamente utilizado na antiguidade por minorias como arma branca de dominação intelectual, agora é servido na enorme bandeja global e digital da Internet a qualquer um que se predisponha a servir-se -- e por preço de ligação regional. 

O homem moderno tem mais motivos para se orgulhar. A qualidade de vida também é digna de recorde histórico para todo e sempre. O avanço científico exterminou a iminência da morte por doenças banais, e, nas grandes cidades, quase 100% dos domicílios desfrutam de água encanada e subprodutos de higiene e saúde. Até eletrodoméstico como televisão, que apesar de mostrar faustões, gugus e ratinhos também possui papel positivo por permitir como nenhum outro a democratização das informações, encontra lugar nas moradias mais pobres.

O paradoxo está no fato de o melhor dos mundos carregar simultaneamente o pior dos mundos. Nunca como no momento existiram tantos excluídos e marginalizados, cidadãos sem condições de compartilhar dos prazeres que a civilização aguçou. E não se trata de problema exclusivo de países subdesenvolvidos como o Brasil, onde décadas de inflação alta levaram a agudo quadro de desigualdade social. Até mesmo na Europa, orgulhosa da cultura e civilização maturada, já não dá mais para varrer para debaixo do tapete os efeitos colaterais do progresso econômico. 

Mesmo no Velho Mundo, o desemprego provoca ações conjuntas de mobilização governamental por despontar como mal sem vacina ou cirurgia. A taxa bate em desesperadores 22% na Espanha.

Como resultado de tanta gente sem trabalho, o mundo moderno nega maquiavelicamente a necessidade fisiológica de alimentar-se. Cerca de 500 milhões de pessoas sofrem de fome epidêmica no planeta. E fome epidêmica não é o desconforto estomacal causado quando se deixa de almoçar devido a imprevisível reunião de negócios. Fome epidêmica é fome permanente com desnutrição causada principalmente por guerras e má distribuição de alimentos. Já não nos sensibilizamos mais com o mendigo imundo atirado no meio fio e nem nos sentimos responsáveis pela criança analfabeta que pergunta se temos alguma coisa para dar. 

Nesse universo conflituoso, viver passou a ser dilema  que impinge uma entre duas respostas inescapáveis: ou o indivíduo fica do lado paraíso ou do lado infernal do mundo paradoxal. Já que não existe instinto de sofrimento, é natural que todos queiram estar do lado bom. Mas estar do lado premiado do sistema capitalista, que tantos atacam sem oferecer alternativa prática, não é condição que cai do céu. É consequência de sistemático e permanente aparelhamento intelectual e profissional. Em linguagem nua e crua, é inadiável abandonar a ignorância e o conforto fácil para arregaçar as mangas e se render da melhor maneira possível às exigências, tirando gozo do que é inevitável.  Diante da única saída viável, desponta uma questão: a quem cabe a responsabilidade pela inclusão dos excluídos no mundo capitalista? O indivíduo é o único responsável pelo seu próprio destino e, portanto, deve tratar de fazer-se sozinho? Os mais instruídos e as empresas têm obrigação ética de ampará-los? Até que ponto o Estado  tem obrigação de aparelhá-los?

Foi na busca de respostas a questões como essas que se pautou o painel Gestão de Pessoas no Século XXI, promovido pela Associação de Ex-alunos e Núcleo de Recursos Humanos do IMES, Instituto Municipal de Ensino Superior de São Caetano. Participaram do painel o executivo Fernando Tadeu Perez, diretor de Recursos Humanos da Volkswagen do Brasil; o sindicalista Luiz Marinho, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC; o especialista em comportamento humano, consultor e professor de pós-graduação Roberto Kanaane; o diretor-presidente da Rolamentos Fag, Antonio Lourenço DAuria; e o secretário-adjunto da Secretarial Estadual do Emprego e das Relações do Trabalho, José Luiz Rica.

Vida Dura -- A visão do executivo Fernando Tadeu Perez, da Volkswagen, choca quem está acostumado a tratamento paternalista, mas não poderia ser mais coerente com o pragmatismo do setor empresarial. Perez observa que a globalização econômica está invertendo o valor natural das coisas pela imposição de competitividade exacerbada. As pessoas se tornaram mais individualistas e frias. A solidariedade está minguando. O executivo lembra que a globalização está aí e não há como ficar alheio; portanto, não há saída às organizações a não ser batalhar para ser a melhor. 

O clareamento a respeito das dificuldades do mundo organizacional é espécie de preâmbulo à mensagem principal subtendida nas considerações de Perez: as empresas precisam de recursos humanos qualificados, mas essa qualificação, à exceção dos treinamentos mais técnicos, deve partir dos próprios trabalhadores. As organizações já têm preocupações de sobra com a arena de leões globalizados da economia internacional e, além disso, não poderiam fazer para os empregados muito mais do que eles podem fazer por si próprios, simplesmente porque aprender e desenvolver-se é questão de iniciativa e vontade. Perez enfatiza a obrigação de dominar pelo menos um idioma estrangeiro como artigo de primeira necessidade no mercado de trabalho. Coloca a leitura permanente de revistas econômicas como mandamento número um aos candidatos a bons empregos. Mas as exigências vão muito além disso. Para ele, quem está fazendo curso superior e não vê a hora de obter o diploma, espécie não exatamente rara entre estudantes brasileiros, seria mais honesto se desistisse de tudo.

"Quando saírem da escola é que vão começar a estudar de verdade. E se me permitem uma recomendação, o sucesso só acontece depois do expediente e aos sábados e domingos, porque durante esses períodos todo mundo está trabalhando, todos fazem igual. Sucesso se ganha estudando muito à noite e aos finais de semana. Essa é a dura realidade. Quando entrevisto candidatos à emprego, sempre pergunto o seguinte: quanto do tempo particular você tem gasto no seu desenvolvimento? Quanto dinheiro você tem gasto no seu desenvolvimento? Alguns argumentam que ganham muito pouco, que não têm tempo ou esperam da empresa esse tipo de providência, baseados naquela idéia ultrapassada de que basta entrar numa boa companhia para ter o futuro garantido. Isso vai mudar. Cada um tem que tratar do seu desenvolvimento, da sua carreira, porque senão vai vegetar" -- diz. 

O executivo da Volkswagen garante não ser exceção. Comenta que o jogo de futebol com os amigos ou a ida ao teatro se tornaram eventos raros. A solução de trabalhar para viver e não o contrário, enfim, está cada vez mais difícil de ser equacionada. "Para contratar 200 estagiários recorremos a uma empresa que entrevistou 12 mil candidatos. O que vai fazer a diferença entre a empresa vencedora e a perdedora é o time. A tecnologia pode ser a mesma para todo mundo, desde que se tenha recursos para adquiri-la".  

Além de dizer o que todo pai responsável gostaria que o filho ouvisse, Perez dá aula de administração visionária baseado no curso MBA que fez na França. Coloca como inexorável a consolidação de novos vínculos e formas de trabalho -- em oposição ao já decadente emprego formal. "A tendência é de não haver mais empregos; seremos profissionais para trabalhos avulsos em regime de empreitada" -- afirma. Está fadada à extinção, também, a tradicional figura do chefe, do todo poderoso que manda para que os outros simplesmente obedeçam. Em seu lugar, surge o orientador, cuja atribuição será a de coordenar equipes mais briosas e auto-suficientes. Outra tendência sem volta é o incentivo deliberado aos talentos. Diferente do que acontece hoje, quando muitas organizações sufocam os destaques como forma de prevenir melindres, as empresas vão deixar muito claro quem são os talentosos, inclusive com tratamento diferenciado em nível financeiro. Vai prevalecer a lógica transparente do exemplo.

Desdobramento disso é a maior valorização da competência do indivíduo, e não do cargo ocupado. Independente da função, atribui-se ênfase ao valor, uma vez que problemas persistentes em setores vistos como menos importantes podem desencadear estragos de grandes proporções. E vai imperar também cada vez mais a adoção de sistemas de remuneração variável, condição mais justa que ainda assusta a muitos. "Vamos todos juntos. Se fizermos menos dinheiro, embolsaremos menos, mas se produzirmos mais, colocaremos mais dinheiro no bolso" -- explica Perez. 

Dilbert -- Já o discurso do sindicalista Luiz Marinho é carregado da idéia de que o trabalhador é espécie de pobre coitado ao qual restou a posição de múltipla vítima, da engrenagem social, do sistema econômico mundial, das políticas econômicas locais, do governo e de seu suposto projeto neoliberal que escancarou muito rápido a economia nacional, transformando-os em pássaros frágeis na mão forte das empresas. Vítimas também das próprias organizações nas quais trabalham, porque os corpos gerenciais estão muito mais para hostilidade do que para fraternidade e porque a redução de custos a qualquer preço tem sido a regra geral sem que se importe com a precarização do trabalho, inclusive nos casos de terceirização.

"A revista Exame é a Cláudia dos empresários. Ali tudo é certinho e acontece de forma maravilhosa. É um mundo cor de rosa, de salários elevados, com melhores condições de trabalho, e todo mundo está sendo mais treinado, melhor preparado e, evidentemente, com maior responsabilidade. Mas existe uma visão crítica apresentada pelo personagem Dilbert que satiriza tudo isso e condiz com a realidade" -- afirmou Luiz Marinho, numa assembleística estocada ao executivo da Volkswagen; que nominou aquela publicação como exemplo de boa leitura. 

O resultado dessa conspiração generalizada, configurada pelo sindicalista, é o achatamento da categoria. Luiz Marinho explica que em 1990 haviam 203 mil metalúrgicos no Grande ABC; hoje são 118 mil. Além disso, houve redução de R$ 100 milhões em salários da categoria, comparando-se a 94. Como vítimas, os trabalhadores não podem se aperfeiçoar sem o socorro de terceiros. Ele entende que a iniciativa privada tem obrigação de ajudá-los. "Existe um grande problema que é a ausência de valorização do coletivo. Cada um tem que se preparar? É verdade. Mas as empresas também têm responsabilidade social com o problema do desemprego, da formação profissional e com a alfabetização. O Grande ABC é região rica, produz bastante, mas temos em torno de 10% de analfabetos. É ou não responsabilidade nossa, das empresas e do Poder Público trabalhar essa questão? Ou esse pessoal vai ficar totalmente excluído?".

Marinho também dá a entender que os trabalhadores sofrem de espécie de síndrome de incompreensão organizacional. Afirma que, contrariamente ao que dizem líderes empresariais, não é só o chão de fábrica que tem deficiências culturais. "O corpo gerencial das empresas ainda não chegou lá, então ainda temos muito o que fazer com relação à essa questão". Sustenta que deve-se respeitar a maturidade dos trabalhadores, muitas vezes tratados como incapazes. E afirma que as empresas é que resistem diante dos Sindicatos nos processos de modernização.

O secretário-adjunto da Secretaria do Emprego e das Relações de Trabalho, José Luiz Ricca, enxerga na cruel bifurcação entre a sociedade empregada e a exclusão desempregadora mais um daqueles matreiros lances de impacto perpetrados pelo curso da história.

"Ao analisar o processo histórico, percebemos que a cada mudança de século correspondem mudanças de vida extremamente significativas. Mas esta mudança de século da qual somos tripulantes vai gerar alterações ainda mais particulares, porque estamos não só entrando em novo milênio como terminando um ciclo econômico distinto. A era industrial está acabando, após 200 anos, e está tendo início um novo ciclo que não sabemos nem qual é. Talvez seja a revolução do conhecimento. Ou seja: quem não tiver conhecimento no século XXI não vai conseguir sobreviver. Não bastassem as mudanças em si, esse novo ciclo pega o Brasil em situação especialmente complicada. Nosso grau de conhecimento formal é baixo, com média de apenas 3,8 anos na escola. Além de ter de correr atrás desse prejuízo, recebemos passivo complicado. 

Quem vai cuidar do adulto desempregado da indústria que tem esse grau de escolaridade baixa? Dificilmente ele encontrará emprego no setor secundário, uma vez que os investimentos industriais têm significado automação e dispensa de mão-de-obra. 

O executivo público considera que, diante da gravidade do quadro, o poder governamental precisa estar igualmente atento. Ao mesmo tempo em que ao mundo empresarial deve-se proporcionar condições de fomento e concorrência internacional,  aos desempregados é indispensável garantir programas que trabalhem a reinclusão profissional de modo que não se regresse a barbaridade da Idade Média, quando castelos eram fortaleza contra inimigos. Aliás, lanças dos portões, cacos de vidro colados sobre os muros e as modernas engenhocas de segurança domiciliar indicam que se regrediu muito. "Salvar a sociedade não é e nem poderia ser tarefa circunscrita apenas do Poder Público" -- ressalta Ricca. "É uma atribuição coletiva da qual todos, rigorosamente todos, devem participar". Ricca garante que a Secretaria Estadual de Emprego e Relações de Trabalho está procurando fazer a parte que lhe cabe. E para isso, abriu algumas frentes de atuação. Cita o programa Aprendendo a Aprender, projeto Volta ao Emprego e o Banco do Povo. 

Antonio Lourenço DAuria,  diretor-presidente da Rolamentos Fag, empresa de um grupo alemão que produz rolamentos que vão da indústria automobilística até aplicações em naves aeroespaciais, enxerga os pólos opostos de desemprego e competitividade sob prisma semelhante ao do diretor de Recursos Humanos da Volkswagen. Enfatiza que a abertura econômica expôs as empresas brasileiras a concorrência sem precedentes. O comprometimento de todos os funcionários com os objetivos das organizações passou a valer tanto quanto oxigênio diante do redemoinho internacional que leva para o ralo os menos preparados. Assim, o papel dos colaboradores não deve ser o de funcionários, mas o de empresários internos. "Sua atividade passa a ser também um negócio. Desde o nível operacional, torna-se indispensável a iniciativa de calcular riscos e buscar novas oportunidades"-- diz.

Antonio  DAuria também joga para baixo o mito do emprego eterno, do berço ao caixão. "Fomos contratados para atingir resultados e essa é uma questão muito mais pragmática do que conceitual. Sempre digo que não sou o diretor-presidente da Fag, mas sim que estou diretor-presidente da Fag. Faço questão de ser pragmático nisso, porque esse conceito tem que se espelhar ao longo da organização" -- comenta.  

O professor Roberto Kanaane abordou um fator sutil que leva ao desemprego e consequente exclusão social. Trata-se da origem psicológica, reflexo de baixa auto-estima. Trabalhar bem é condição para manter-se empregado, mas muitas pessoas, por apresentarem performance profissional insatisfatória, ficam desempregadas por conta de problemas pessoais, psicológicos e emocionais. Mesmo nos casos em que o desemprego é fruto da extinção de tarefas e cargos, o componente psicológico continua sendo forte detonador da exclusão social, porque a auto-estima abalada, em desequilíbrio, torna mais difícil a adequação às mudanças -- lembra o especialista. 

Nesse sentido,-- ainda segundo avaliação de Kanaane --, surge nova variante com poderoso potencial de configurar o sucesso ou o fracasso, o emprego ou o desemprego: a família. Como se sabe em psicologia, o ser humano constrói a maior parte da auto-estima e da personalidade até os sete anos de idade, período no qual o cérebro é similar a uma fita virgem que registra impressões externas, principalmente dos pais, e balizam modelo de atitudes futuras. É lógico, então, que uma criança que tenha crescido em ambiente hostil de brigas familiares não tem a base emocional de outra desenvolvida em clima ameno e de confiança. Isso se reflete não só no trabalho como nos estudos e nos relacionamentos interpessoais -- explica.

A boa notícia é que uma infância atribulada não é sinônimo de determinismo. Ou como disse Sartre, somos aquilo que fazemos com o que fazem de nós. Kanaane observa que falar em desenvolvimento de competência de profissionais num mundo em  mudanças radicais implica necessariamente o resgate da auto-estima. "A auto-estima é a porta de entrada e a porta de saída de qualquer processo de desenvolvimento de competências. Antes da competência profissional, é necessário que o indivíduo atinja competência consigo mesmo. E da mesma forma que as empresas atestam planejamento estratégico de vendas e produção, que haja também política que contemple o planejamento estratégico pessoal a partir do resgate da auto-estima e da auto-motivação através de ênfase em aspectos pessoais" -- completou.

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