Política

Será que Bolsonaro rompe
margem de erro e decide já?

  DANIEL LIMA - 05/10/2018

Não tenho vocação à chutometria. Detesto ser contestado sem ter contra-argumentos. E não aprecio, tampouco, artifícios para tentar ganhar uma discussão. Isso é comportamento típico dos políticos. Por isso vou logo avisando que as projeções que fiz para o segundo turno das eleições presidenciais e as que farei agora sobre o primeiro turno carregam forte conotação reducionista da análise que se seguirá. Também tem um quê de especulação no sentido de entretenimento. Só não incorpora nada de anedota, porque aí seria demais. 

Jair Bolsonaro ganhará no segundo turno com oito pontos de vantagem, mas também pode matar o jogo agora se romper a margem de erro de dois pontos percentuais. Pelos meus cálculos o capitão reformado chegará a 47% dos votos válidos. Faltaria apenas um, com margem de erro de dois pontos para cima e dois pontos para baixo. Será que a margem de erro vai para a cucuia? Se seguisse um suposto especialista, Leandro Prearo, que andou fazendo pesquisa para o Diário do Grande ABC em disputas municipais, não correria risco de errar. Ele, Prearo, estabeleceu cinco pontos de margem de erro. O que resulta em 10 pontos de segurança. Isso não é pesquisa. É esculhambação. Mas vamos ao que interessa. 

Antes de mais nada quero dizer que os números não podem ser confundidos com torcida. Não torço pela vitória de Jair Bolsonaro contra Fernando Haddad. De forma alguma. Acho que essa postura não seria eticamente compatível com a função pública que o jornalismo explicita. O que estou projetando é um sentimento mais nobre. Rezo pela vitória de um candidato que pode ser a maior aventura da falsa democracia brasileira desde Fernando Collor de Mello, em 1989. Quem não tem João Amoedo caça com Bolsonaro. No sentido figurado e no sentido literal da expressão. 

É preferível arriscar 

Prefiro o risco da possível aventura sujeita também a ganhar forma de reformismo, ao triunfo de uma confraria de esquerda defasada no tempo e no espaço e cujo desempenho durante quase uma década e meia à frente do Estado foi lastimável. Uma continuidade piorada da herança de Fernando Henrique Cardoso que, ao menos, estabilizou a moeda e deu alguma responsabilidade fiscal. Antes da chegada de Dilma Rousseff, claro. Tivemos, portanto, um jogo de compadres dissimulado como jogo de verdade apenas para que tucanos e petistas se perpetuassem nos poderes da República. Com o adicional incalculável de roubalheiras. 

As condições estruturais do País (tanto físicas quanto fiscais) não permitiriam a quem tem juízo no lugar a afirmativa de que Jair Bolsonaro vai estourar a boca do balão como presidente da República. Por mais que reúna equipe de primeira linha. Caso, por exemplo, da manutenção da turma de Michel Temer na área econômica. 

Muito provavelmente teremos a situação agravada porque a polarização política e ideológica nos levará a um quadro de dramaticidade muito além das eleições. Mas é preferível enfrentar a borrasca tendo como timoneiro alguém que sempre esteve fora do jogo dos bandidos políticos que infestam Brasília, endereço do depósito de práticas de gestão pública de aberrações nos municípios e nos entes federativos. 

Estrutura da projeção 

Como só estarei de volta a este espaço na próxima segunda-feira (os leitores não têm a ideia do quanto trabalho a cada fim de semana) vou ser breve nas explicações para acreditar que o jogo pode sim terminar domingo, embora prevaleça a sensibilidade de que teremos o mata-mata do segundo turno. 

 Jair Bolsonaro deverá ter votação estrondosa no Estado de São Paulo, onde se concentra a maior parcela de eleitores do País. O Sudeste, do qual fazem parte os paulistas, deverá comprar em níveis elevadíssimos seu discurso de reforma. Não bastasse a naturalidade de ter encaixado um golpe certeiro no diálogo com a sociedade (a gravidade da segurança pública e os níveis astronômicos de corrupção), Jair Bolsonaro está sendo incorporado pelos dois principais concorrentes ao governo do Estado, João Doria e Paulo Skaff. Eles o abraçaram como boia de salvação ao segundo turno, ameaçados que estão por Márcio França, em plena ascensão. 

 Jair Bolsonaro também avança nos Estados do Nordeste, onde o PT dominou amplamente nas últimas eleições com a política assistencialista da Bolsa Família. Uma ação mais que correta na maioria dos aspectos de observação. As desigualdades sociais do País, geradas pela incapacidade do Estado que o PT quer ver ainda mais poderoso, exigem mesmo contrapartidas a mitigar o sofrimento das camadas mais pobres. Os desvios e a politicagem do programa são outros quinhentos que não podem desclassificar a importância de socorrer os desvalidos. Quanto menor a diferença de votos de Jair Bolsonaro em relação a Fernando Haddad no Nordeste, única região do País em que o PT leva vantagem nas pesquisas, maiores as possibilidades de o jogo se encerrar no primeiro turno. Principalmente porque o alinhamento com o Sudeste e particularmente com São Paulo em ascensão bolsonariana completaria o quadro de liquidação da fatura.

 Jair Bolsonaro também avança entre as mulheres, seu calcanhar de Aquiles. Tudo indica, pelas últimas pesquisas, que poderá chegar a números compatíveis com a preferência do eleitorado masculina. Nem precisa de tanto. Basta que estreite a diferença. Exatamente o que vem ocorrendo. 

Crescimento retardado 

Entendo que esses seriam os três pontos mais relevantes de uma breve análise. Não preciso descer a detalhes porque esses vetores expressam a movimentação de outras variáveis esmiuçadas aqui e ali, as quais convergem para o macroambiente eleitoral que destaco. 

Tenho cá comigo que os institutos de pesquisas mais badalados (Ibope e Datafolha) criaram voluntariamente ou não algumas barreiras que intercederam na identificação mais imediata (e menos retardatária, portanto) do crescimento de Jair Bolsonaro. 

Um dos mecanismos para tornar a competição eleitoral espécie de filme de suspense é projetar rejeições para o segundo turno quando ainda se está no primeiro turno. É uma barbaridade metodológica sem nexo, como sempre afirma a diretora do Ibope Inteligência, Márcia Cavallari. 

Mas é dessa bobagem que a mídia mais poderosa faz estardalhaço, numa mensagem subliminar de desclassificação de candidatos que estão mais à frente nas pesquisas. Bolsonaro carregou sozinho esse fardo durante quase todo o tempo. Só agora tem a companhia de Haddad. 

Fenômeno político 

Para completar, e ao contrário do que escreveram alguns colunistas de jornais da Capital (todos à esquerda no espectro político-ideológico), goste-se ou não Jair Bolsonaro é um fenômeno político cuja extensão de influência só o tempo responderá. 

Tratar o capitão reformado como qualquer coisa que não seja a manifestação individual de um coletivo subjacente que precisava e clamava por alguém que o representasse num contexto de degringolada geral do sistema político nacional é estupidez quilométrica. 

As circunstâncias do ecossistema político que levaram ao surgimento e à consolidação de Jair Bolsonaro, sobretudo a exclusão dos programas eleitorais ainda muito importantes e nos quais os candidatos falam o que querem, o tornam ainda mais objeto de análise cuidadosa, quando não respeitosa. 

Tanto quanto a sensibilidade de decifrar a decepção nacional com a classe política tradicional, a acuidade estratégica de Jair Bolsonaro o levou a apostar praticamente todas as fichas nas redes sociais até então pouco valorizadas, colocando-o bem acima de todos os demais, meros mortais políticos. Geraldo Alckmin e seu enfadonho discurso acaciano que o diga. 

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