Regionalidade

USCS descobre regionalidade;
e as demais universidades?

  DANIEL LIMA - 28/08/2018

A Universidade Municipal de São Caetano (USCS para quem aparecia o mau gosto) entrou para o time da regionalidade na Província do Grande ABC. Time é força de expressão. Só existe um endereço no qual quem procura acha o que se passa na região. É claro que estou falando desta publicação digital, sucessora da revista LivreMercado, historicamente voltada aos sete municípios da região e ao entorno nacional que os afetassem. As demais mídias reproduzem topicamente o dia a dia, sem compromisso com fundamentação de informações do ponto de vista sistêmico e interpretativo.  Ou seja, enquanto se produzem notícias, nós produzimos história.  

O Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura (outra extravagância denominativa) é um endereço no qual se encontra muita coisa sobre a região. Com vieses e deficiências que não sacrificam a novidade no meio acadêmico. Para ficar melhor, o Observatório comportaria um ombudsman que não pertencesse à corporação. Vou ser esse ombudsman não autorizado de vez em quando, à medida que consumir os trabalhos publicados.  

Com a segurança de quem já acessou o site da USCS (vocês não imaginam quanto me constrange como jornalista escrever as iniciais mal-arranjadas da instituição) posso antecipar já na função de ombudsman não autorizado que o Observatório contempla alguns deslizes que, expostos, quem sabe contribuam para melhora do produto final.  Vejam: 

1. Os textos são predominantemente expositivos, com baixo valor agregado de análise, algo impensável nesta revista digital. Os autores precisam ter mais protagonismo interpretativo. 

2. Os textos carregam viés partidário-ideológico esquerdista num Município cuja população é marcantemente conservadora, do espectro central no arco de definições entre capitalistas e socialistas. 

3. Existe descompromisso com o que se passa fora da geografia regional, como se o mundo se limitasse aos sete municípios locais. Ou seja: o regionalismo do Observatório é um quarto fechado com uma claridade enganosa em muitos pontos, porque não expõe a realidade regional frente a terceiros com os quais competimos em investimentos produtivos.  

Falta amplitude 

Não vou me estender na abordagem de problemas do Observatório sempre em comparação com os pressupostos e as práticas desta revista digital. Nosso regionalismo é de amplitude inovadora e inédita no jornalismo regional brasileiro, entre outras razões porque não nos prendemos jamais à geoeconomia. 

Não foi por outro motivo, entre outras searas percorridas, que introduzimos estudos relativos ao G-22, o grupo dos 20 maiores municípios paulistas (exceto a Capital incomparável) mais Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, que, mesmo bem menores que dezenas de municípios paulistas, entram para completar o time regional.  

O G-22 é um universo que coloca a região em situações nem sempre positivas. Os confrontos em diferentes quesitos dão a dimensão do que se passa por essas bandas. Comparar apenas internamente os sete municípios locais é um jogo de autoengano num mundo sem fronteiras.  

Esses descuidos, ou vícios, ou vieses, ou tantas outras coisas objetivas e subjetivas que servem para alertar os responsáveis pelo Observatório sobre a importância de expandir os estudos, não tiram o mérito da iniciativa. Sobretudo porque significa um oásis em meio ao deserto de curiosidade, dedicação, empenho em tudo que se refere a diversos setores sociais e econômicos da região.  

Passivo informativo 

O passivo informativo das universidades instaladas na região é um buraco tão gigantesco que, mesmo se o Observatório da Universidade de São Caetano fosse um fiasco total, já seria interessante porque quebraria o gelo de indiferença generalizada. Com exceção dos trabalhos individuais do professor Sandro Maskio à frente da Universidade Metodista, em São Bernardo. 

Como está longe disso, ou seja, preenche com relativa qualidade os anseios básicos de informações sobre a região, o presente caiu do céu. Quem sabe seja a fita de largada de um processo de mimetização que envolveria as demais instituições do ramo nesta Província tão abandonada pelos intelectuais ou pretensos intelectuais.  

Tenho certas restrições textuais aos acadêmicos. As exceções de apetrechamento na arte de escrever com clareza confirmam a regra. Na grande maioria dos casos (e esse é um fenômeno de toda a classe, não apenas nesta região) o que sai da cabeça recheada de conhecimentos empíricos e se transfere para o papel físico ou o papel virtual, que é a tela de um computador, parece trafegar por um labirinto.  

Os acadêmicos gostam de pentear o pavão. O que isso significa de forma prática, para entendimento dos leitores? Significa que eles se sentem na obrigação de expor conhecimento com retoques de academicismo exacerbado. Não existe logística textual à maioria dos acadêmicos. Diferentemente dos jornalistas que, quando querem adiar a conclusão de um parágrafo qualquer optam pela subjetividade do encantamento, muitas vezes com ares de suspense, os acadêmicos vão numa linha burocrática, pré-estabelecida e geralmente sem arte alguma. Confundem sofisticação inócua com fertilidade criativa. Não sei o que pensam dos jornalistas antípodas a eles. Se acharem que estou errado, mais estarei convicto de que acertei o alvo.   

Viés esquerdista  

A maioria dos textos nos três boletins já divulgados do Observatório da Universidade de São Caetano não atinge nem um ponto nem outro, ou seja, nem são aprofundados estudos com embasamento de comunicação social nem são aprofundados estudos com enfeites típicos dos especialistas enfadonhos.  

São artigos curtos, expositivos e cuidadosamente travestidos de apartidarismo. Mas não passam pelo pente fino de quem conhece as nuances da região. Há um predomínio claramente esquerdista em muitos pensamentos expostos, quando não em omissões. O que é um grave erro. A região é o que é, ou seja, uma área em constante aprofundamento de uma crise interminável, entre outras razões porque os sindicatos mais representativos carregam tanta culpa no cartório de prestação de contas quanto instituições econômicas relapsas e tradicionalmente aderentes aos mandachuvas de plantão. 

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