Economia

Genocídio imobiliário tem
tudo a ver com mercadores

  DANIEL LIMA - 27/08/2018

A manchetíssima (manchete das manchetes da primeira página) do Estadão de hoje me remete a um passado não tão recente de combate aos mercadores imobiliários da região, sobretudo ao mais nocivo entre eles, o então presidente do Clube dos Construtores, Milton Bigucci, autor de três queixas-crime contra este jornalista porque não consto de pagamentos e de receitas de seus empreendimentos. Denuncia o Estadão de hoje: “Bancos tomam 70 mil imóveis por falta de pagamento em 4 anos”. 

Logo abaixo, neste mesmo artigo, os leitores vão poder constatar com os próprios olhos o quanto me antecipei ao desastre econômico no campo imobiliário enquanto toda a mídia ganhava muito dinheiro com publicidade do setor e os incautos eram levados a adquirir um produto que compromete o orçamento familiar por pelo menos duas décadas. Era este jornalista, nas rodinhas dos mercadores imobiliários, chamado de terrorista, catastrofista e outros “istas” pouco divulgáveis. Os bandidos sociais detestam jornalista independente. 

Deu no que deu porque tudo estava tão nítido e só não identificava o desastre iminente quem constava dos benefícios diretos e indiretos dos mercadores imobiliários. 

Condutor do desastre

Na região, repito, Milton Bigucci, da MBigucci, foi o principal condutor do desastre anunciado. Ele foi o agente principal, a estrela-guia de um genocídio imobiliário deliberado ao industrializar estatísticas fraudulentas. Tão fraudulentas que seu sucessor, Marcus Santaguita, desativou o centro de informações delituosas, substituindo-o por uma empresa especializada da Capital, recusada por Milton Bigucci de prestar assessoria à entidade.

Não gosto de chutar números econômicos ou em qualquer tipo de assunto, mas se há (por enquanto, porque a crise imobiliária irá muito além da crise geral) 70 mil compradores de imóveis no País que perderam moradia e investimento, passariam de três mil o exército de deserdados habitacionais na região. A conta está vinculada à participação da região no PIB (Produto Interno Bruto) do País. Pode ser muito mais, porque a Região Metropolitana de São Paulo tem participação muito maior que a média nacional. 

Trechos do Estadão 

Vale a pena reproduzir alguns trechos da reportagem de hoje do Estadão, um dos jornais que ficaram abarrotados de anunciantes do setor e que, juntamente com o Secovi, o Sindicato da Habitação, entidade de rarefeito compromisso com a ética nos negócios envolvendo empresários e consumidores, realiza evento anual de premiação aos melhores da temporada. Leiam: 

 Com a alta inadimplência nos financiamentos imobiliários provocada pela crise econômica, o número de imóveis retomados pelos bancos disparou nos últimos anos. Desde o início de 2014, as cinco maiores instituições financeiras do País retomaram R$ 11,5 bilhões em imóveis por falta de pagamento. O setor estima que essa cifra corresponde a cerca de R$ 70 mil casas e apartamentos. A inadimplência cresceu à medida que a crise elevou o desemprego e reduziu a capacidade financeira das famílias. Atualmente, os cinco maiores bancos têm o volume recorde de R$ 13,7 bilhões em imóveis à espera de um interessado – incluindo as unidades que já estavam no estoque – cifra que cresceu 745% em quatro anos e meio. 

Caixa vira imobiliária

 A líder no setor imobiliário, a Caixa, encabeça esse movimento, com 70% desse total de unidades retomadas. Em junho, eram cerca de 47 mil imóveis de clientes que, somados, valiam R$ 9,1 bilhões. (...) Quando não há saída, o banco executa a garantia da operação que é o próprio imóvel. Na Caixa, já são 47 mil casas e apartamentos em estoque – o que coloca o banco como uma das maiores imobiliárias do País. Isso gerou outro problema. Rafael Schiozer, professor de finanças da FGV, nota que além de prejuízos com o calote dos mutuários, o banco ainda tem gastos para manter essas unidades. (...) Para evitar esse problema, a Caixa tem investido para acelerar a venda dos imóveis e montou uma estrutura com 450 empregados em 12 cidades do País. O reforço fez com que o volume de vendas saltasse de R$ 450 milhões em 2016 para R$ 1 bilhão no ano passado. Neste ano, a cifra deve somar$ 1,6 bilhão.

Industrializador de números 

Agora, para provar que (vou usar uma expressão popular que dispensa acessórios) mato a cobra das lambanças de falsas lideranças econômicas, reproduzo alguns trechos da matéria que publiquei nesta revista digital em 6 de setembro de 2012 sob o título “Milton Bigucci volta a enrolar com novos números fantasiosos”. O objetivo dessa reprodução é chamar a atenção para a criação de um cenário de prosperidade sem sustentação numa região empobrecida ao longo dos tempos e de um País que não para de patinar. Milton Bigucci usava a instituição que dirigia – com amplo apoio da imprensa regional – para fabricar números fraudulentos. Leiam: 

“Este texto é mais uma oportunidade para Milton Bigucci, presidente eterno da Associação dos Construtores do Grande ABC, engrossar a demanda judicial contra este jornalista, fazendo-se de vítima quando, de fato e à luz da verdade, vítimas são todos aqueles que acreditam que os comunicados daquela entidade são peça de seriedade e de responsabilidade social. É claro que o Judiciário não poupará decepção a quem, como ele, se julga intocável e inquestionável. Afirmo com todas as letras que, mais uma vez, o dirigente classista de uma instituição com baixíssima representatividade (o número de associados é infinitamente muito abaixo do potencial das categorias que supostamente representa), está ludibriando a Imprensa da região com novos números fantasiosos sobre o mercado de imóveis novos vendidos na Província do Grande ABC. 

Mais fraude bigucciana 

 (...)  Vamos direto ao ponto: Milton Bigucci reuniu a Imprensa na última terça-feira para comunicar que a Província do Grande ABC aumentou em 15% a venda de imóveis novos (apartamentos) no primeiro semestre deste ano, em relação ao primeiro semestre do ano passado. Demorou um bocado para o comandante da MBigucci chamar os repórteres, porque já estamos em setembro. Pesquisa análoga na Capital, sob a responsabilidade do Secovi, virou notícia nos jornais em 9 de agosto, ou seja, quase um mês antes. Mesmo assim, ou seja, mesmo com esse referencial, Milton Bigucci abusou do triunfalismo e da ingenuidade ou da acomodação da sociedade ao proclamar os dados da região. Na Capital, muito mais pujante que qualquer outro endereço metropolitano da América do Sul, o crescimento das vendas de imóveis novos no mesmo primeiro semestre não passou de 2,6%, em relação ao mesmo período do ano passado.

Mais fraude bigucciana 

 Traduzindo a equação: segundo Milton Bigucci, o mercado imobiliário da Província do Grande ABC (que, segundo fontes mais que insuspeitas desta revista digital, está andando de lado faz muito tempo) comercializou apartamentos novos num volume relativo quase seis vezes superior ao da Capital. Um feito extraordinário que, a se acreditar na premissa bigucciana de que somos o paraíso nacional do setor, deveríamos também estar nadando de braçadas em todas as outras atividades. Ou alguém acredita para valer que é possível vender tão mais que a Capital sem que o dinamismo econômico não seja relativamente também bastante superior? Exceto, é claro, se estivéssemos vivendo a maior bolha imobiliária da Nação. Bolha imobiliária no sentido de excesso de oferta e de escassez de demanda já temos, mas nada que se diferencie pronunciadamente de tantas outras bolhas imobiliárias em outros territórios.  

Mais fraude bigucciana 

 Convém lembrar que esta não é a primeira vez que Milton Bigucci faz da mídia gato e sapato de estatísticas furadas. Escrevei em 8 de março último sobre o balanço de 2011 do mercado imobiliário da região e da Capital. O Secovi registrou queda de 21,2% na venda de apartamentos novos na cidade de São Paulo durante os 12 meses do ano passado. Na Província do Grande ABC, sob o controle manipulador de Milton Bigucci, o balanço foi fantástico: crescemos nada menos que 8,57%.

Mais fraude bigucciana

 (...) Quando se esmiúçam esses números relativos, percebe-se que o preço da mentira da industrialização de dados anabolizados de supostas vendas de apartamentos novos no ano passado leva Milton Bigucci a embaralhar-se também nesta temporada. Nada fica impune quando se manobram informações.  O crescimento anunciado pelo presidente da Associação dos Construtores no primeiro semestre deste ano é ainda mais estonteante porque a base de cálculo são os números já inflados e artificializados do ano passado.  Já os dados do Secovi sobre a Capital são mais palatáveis e verossímeis, porque são muito mais discretos nos primeiros seis meses deste ano do que os anunciados na Província do Grande ABC e, vejam bem, se alimentam de números negativos registrados na temporada passada. 

Alerta em 2010

Para completar a recuperação da memória de fatos que explicam o desastre local do mercado imobiliária, que infelicita milhares de famílias, leiam alguns trechos do artigo que escrevi em agosto de 2010 (portanto há oito anos) sob o título “Bolha imobiliária ameaça ou não ameaça mercado brasileiro”:

  Diante da falta de responsabilidade social das entidades que se autodenominam representantes do mercado imobiliário — e não se deve esperar que o comportamento de avestruz se altere, porque é a essência dos especuladores que as dirigem — noticiário pinçado aqui e ali dá conta de que não está fora de cogitação uma trombose na atividade. Provavelmente não será nada semelhante ao que se traduziu em crise financeira internacional a partir do último trimestre de 2008, mas também estaria muito longe do desdém com que é tratado o assunto por especialistas e especuladores travestidos de torcida organizada. Há perigo sim de bolha imobiliária no Brasil, garantem especialistas. Não há risco nenhum, asseguram outros. Quem está com a razão? Só o tempo dirá, evidentemente. Mas como prevenir é melhor que remediar, nada mais interessante que tomar certos cuidados. E não cair na conversa fiada de gente irresponsável do setor. Principalmente os falastrões que ocupam cargos de comando em entidades empresariais que cuidam mesmo é de interesses individuais. A classe empresarial e a sociedade que se virem. 

Mais alerta de 2010 

 Professor de finanças da Brazilian Business School e colaborador do jornal Valor Econômico, Ricardo Torres escreveu ainda recentemente preocupado com a demanda imobiliária. “Os preços subiram muito, para patamares que chamam a atenção e nos alertam sobre uma possível criação de uma bolha especulativa no setor”. Trinta dias depois eis que o noticiário do mesmo Valor Econômico dá conta de que a expectativa de elevação da massa de renda da população acompanhando o ritmo dos preços dos imóveis no País afasta o mercado imobiliário das características clássicas de formação de bolha. A projeção foi feita pelo economista José Roberto Mendonça de Barros, da MB Associados, em estudo encomendado pela Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança). 

Mais alerta de 2010

 (...) Em linhas gerais, apontar o contraste de pontos de vista sobre o equilíbrio do mercado imobiliário é no mínimo obrigação de quem tem a missão de informar com ponderação. É claro que no rol de responsabilidade social que a análise do mercado imobiliário recomenda não constam entidades do setor, principalmente no Grande ABC onde a atuação classista se restringe à propagação de um lobby abjeto que não respeita inclusive os pequenos e médios empresários do próprio setor imobiliário. São propagandistas que industrializam numeralhas sem contextos críticos que coloquem o mercado regional no devido lugar. Sempre com as bênçãos de boa parte da mídia, beneficiária temporária, sempre temporária, do jogo de cena que, como em outros casos, custam caro quando cai a máscara.

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