Sociedade

Uma profecia confirmada pela
Lava Jato: antecipamos Brasília

  DANIEL LIMA - 21/08/2018

A Operação Lava Jato nem havia sido gestada, porque só começou acidentalmente mais de um ano depois, quando, em fevereiro de 2013, escrevi um artigo com um título profético? “Somos hoje às escondidas o que Brasília escandalizará amanhã”. Recupero a matéria nesta data por algumas razões. A principal é que tudo que ali descrevo, e que, portanto, se segue logo abaixo, já está defasado. Ou alguém acredita que o supostamente simples fato de nada ter sido feito na região não agrava ainda mais o estágio em que as instituições locais se encontram? É claro que sim. Precisamos de uma Operação Lava Jato regional, porque a bandalheira segue robustecida, mas o Estado é frágil onde deveria ter mais musculatura, ou seja, no arcabouço operacional e técnico de suporte à detecção e punição dos bandidos sociais locais. 

O texto que os leitores vão ler em seguida foi retirado do artigo de fevereiro de 2013. Usei-o para fazer um contraponto à chamada “Carta do Grande ABC”, que marcou o lançamento oficial do Fórum da Cidadania em 28 de julho de 1994. Fiz na verdade contrapontos àquela iniciativa histórica de lideranças da região fora do mundo político. Escrevi: “Decidi reproduzir aquela Carta do Grande ABC entremeada pela Carta da Província do Grande ABC porque saltamos de um pretendido estágio de cidadania regional para um consolidado desastre de anomia. A Brasília mais desavergonhada do futuro é a Província do Grande ABC presente”. Claro que nem de longe passava a possibilidade de uma Lava Jato que, embora sem muito impacto, também chegou à região. 

Uma das principais razões de recuperar neste espaço textos do passado, quer de forma estanque, ou seja, apenas reproduzindo integralmente o material, ou de forma mais dinâmica, como esta, de contextualização, é que mais e mais leitores passaram a consumir este produto editorial na esteira de redes sociais. Como na maioria dos casos os novos leitores são apressadinhos, sinto-me na obrigação de trazê-los a estas páginas com mais vagar. E lhes mostrar o quanto de um passado preocupado com a região existe em cada parágrafo de quase seis mil matérias já editadas, parte das quais desde os tempos da revista LivreMercado, que criei e dirigi por quase duas décadas, e mesmo antes disso, atuando em outras publicações. 

Não é dispensável lembrar que a constatação de que a região tem aprofundado a capacidade de desligar-se do que em resumo se chamaria de cidadania não é salvo conduto para estimular e justificar a desativação de entidades que deveriam dar conta do recado de justificar os próprios estatutos. Sejam essas entidades o Clube dos Prefeitos, a Agência de Desenvolvimento Regional praticamente destruída e organizações supostamente coletivas como associações comerciais e industriais, subseções da Ordem dos Advogados do Brasil e tantas outras. Não é porque estamos no fundo do poço de comprometimento social que se perpetraria um mal maior ainda, a pregação de encerramento de atividades dessas organizações. Seria muito fácil, porque supostamente se atribuiria a terceiros de hoje e do passado o quadro atual de profunda decepção.

É nesse ponto que entra em campo algo superior, ou seja, a grandeza que se exige das lideranças no sentido de correção de rota. Não acreditamos nisso, porque não cometeríamos um segundo ato de estupidez, mas alguém ou um grupo de pessoas precisa aparecer para iniciar uma mudança radical. 

O texto que produzi em 2013 – repetindo, antes da Lava Jato surgir no horizonte de eficiência contra os bandidos sociais – segue logo abaixo incorporando uma lamentável constatação: mesmo aos olhos mais benevolentes, às mentes mais condescendentes e aos corações mais generosos, oferece-se como uma suave brisa do que temos de fato como um vendaval de irresponsabilidades coletivas dos formadores de opinião e, sobretudo, dos tomadores de decisões. Vamos àquele texto:  

Primeiros parágrafos de 2013 

A Província do Grande ABC está enredada aparentemente de forma irreversível no lamaçal da inexpressividade política. Em mais um ano decisivo para a vida brasileira, a Província atravessa, sem margem a dúvida, a etapa mais desestimulante de sua história política-administrativa desde os movimentos autonomistas dos anos 40 e 50. Nunca, nas últimas décadas, apesar de tudo de dantesco que já ocorreu, houve uma demanda tão desavergonhada com o deixa para lá porque não estou nem aí não só envolvendo os políticos da região como a sociedade como um todo. Somos a fermentação da Brasília de amanhã, a Brasília dos escândalos que se sucederam com o caradurismo de sempre. Nunca a Província do Grande ABC congregou um grupo de supostas lideranças empresariais, comunitárias, sindicais e classistas com tão alto grau de desinteresse coletivo sobre as necessidades locais, numa desavergonhada orquestração de salve-se-quem-puder que passa ao largo da baixa sensibilidade e do cansaço evidente da comunidade como um todo. A classe política e o entorno empresarial aproveitam-se desse vácuo de orfandade cidadã para deitarem e rolarem.  

Mais parágrafos de 2013 

Estruturado perigosamente no desenvolvimento industrial centrado na indústria automotiva, a Província do Grande ABC dos anos 1990 mais perdeu do que gerou de riqueza, atingida em cheio pela abertura econômica e pela descentralização de produção de veículos de passeio. O processo de crescimento econômico comprometido a partir dos anos 1980 atingiu ainda mais fundo a Província nas décadas seguintes. A ausência de planejamento estratégico que contemplasse interesses da região, em vez de especificidades municipais, cavou um buraco ainda maior de perdas, com evidentes prejuízos à sociedade. Até mesmo a decantada infraestrutura foi para o acostamento da competitividade, porque outras regiões do Estado e do País souberam se organizar para receber investimentos. A chegada do trecho sul do Rodoanel, cantada em verso e prova como salvadora da lavoura, não operou o milagre desejado entre outros motivos porque a Província não se preparou para tentar beneficiar-se do traçado fechado demais à inserção econômica tão provincianamente alardeada.  

Mais parágrafos de 2013 

Todos sabem que o potencial econômico da Província do Grande ABC já não é o mesmo de outrora. Mais que isso: vivemos uma crise de perspectivas, porque não temos encontrado a saída para retomarmos o crescimento em ritmo que se assemelhe aos novos principais rivais por investimentos produtivos. Entretanto, essa mais que evidente queda não é percebida ou não é aceita pelas badaladas e quase sempre inúteis lideranças incrustradas na sociedade e no meio político-partidário. Vivemos num quase desértico terreno de alternativas à renovação física e intelectual de agentes da sociedade, situação que se manifesta claramente no imbricamento pecaminoso com administrações públicas. As entidades mais importantes da região sempre atuaram no sentido de convergirem interesses às águas mais rentáveis dos poderosos de plantão, manifestando-se na arena política de forma seletiva e interesseira, às vezes com algum pudor ideológico, mas, no fundo, desavergonhadamente. Nestes momentos atuais, nada está mais dominado que o grupo de organizações privadas e não governamentais pelos respectivos paços municipais.  

Mais parágrafos de 2013 

É exatamente porque se assiste hoje o suprassumo da anomia social, resultado entre outros do fracasso do Fórum da Cidadania do Grande ABC no passado não muito distante e do esfarelamento contínuo das representações de classe, que chegamos ao estágio de desencanto combinado com a acomodação geral e irrestrita. Chegamos ao extremo de não se identificar nem meia dúzia de lideranças sociais minimamente sensíveis a uma empreitada restauradora da mobilização social em busca de novos tempos. A sociedade civil da Província do Grande ABC já era no melhor passado que já teve apenas um ensaio elitista, imagine-se então nestes tempos de covardias explícitas em que todos fogem às responsabilidades inerentes ao traçado de novos caminhos a percorrer. 

Mais parágrafos de 2013 

O que encontramos diariamente na Província do Grande ABC são extratos condensados de rescaldos dos desvarios perpetrados ao longo de décadas sem que nos déssemos conta de que teríamos conta a acertar com o futuro. O evangelho da regionalidade está tão envelhecido e desrespeitado que não é por acaso que o que outrora era Grande ABC virou Província. O direcionamento original de metralhadoras críticas ao Executivo e ao Legislativo era apenas uma tentativa de estigmatizar dois setores de baixa produtividade técnica e de alta rotatividade de interesses escusos. Também a sociedade civil como um todo deve ser colocada no prato de débitos dessa balança de avaliação do que somos e queremos. Mais que isso: o ideal seria colocar a sociedade civil num tacho fervente de autocrítica para se evitar, novamente, que industrializadores de ilusões continuem a salvo dos descalabros coletivos por ação e por inação. Não mudamos nada, absolutamente nada, no modus operandi da política administrativa e da política partidária. Mais que isso, perpetuarmos e agravarmos delinquências que se tornaram rotina no País. Não somos diferentes da maioria dos microterritórios nacionais, mas vivemos situação mais grave porque perdemos o rumo do desenvolvimento econômico sustentável.  

Últimos parágrafos de 2013 

Estamos absolutamente esgotados em paciência e em esperança quando tratamos de questões que envolvem o enorme guarda-chuva da regionalidade na Província do Grande ABC. As experiências fracassadas no passado e a ausência de perspectiva no presente formam uma associação cujo baixo-astral não pode ser atirado sob o tapete da hipocrisia e de ajeitamentos deliberados a enganar o distinto público. Neste ponto, a revista digital CapitalSocial tem sido permanentemente o porto de garantias do manancial de coerência e de comprometimento com a sociedade que outras instâncias da mídia e da sociedade como um todo ignoram ou minimizam, agasalhando-se no silêncio ante a confluência de malversadores públicos, sociais e econômicos. Enquanto estivermos entregues ao controle ditatorial de formadores de opinião sem lastro e inteligência e, acima de tudo, com compromissos única e exclusivamente com os próprios bolsos, não temos a menor possibilidade de reagir ordenadamente. A Província do Grande ABC vive uma eterna ressaca do desalento deixado pelo Fórum da Cidadania, movimento que pretendia revolucionar as relações sociais na região mas que, por força de estocadas mortais de solapadores internos e externos, transformou-se em inexpugnável marco de decepção e atraso. 

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