Política

Até quando Marinho vai negar
candidatura contra Morando?

  DANIEL LIMA - 15/08/2018

Só os ingênuos de pai e mão acreditam que Luiz Marinho não é candidatíssimo à Prefeitura de São Bernardo em 2020 num embate com o prefeito Orlando Morando. Só os analfabetos políticos de pai e mãe desprezam a possibilidade de Luiz Marinho fugir da raia em 2020. Como se explica essa contradição? Simples, muito simples. Desde que o simples seja resultado bem analisado do complexo. Aliás, tudo que é aparentemente complicado fica simples caso não se recorra a simplificação simplória. Com perdão da redundância forçada. 

Que Luiz Marinho é candidatíssimo, não tenho dúvida. Convém lembrar, entretanto, que ele não quer voltar ao passado e assumir o ônus do outro lado do resultado, resultado do adversário dele em 2008, no caso Orlando Morando. 

Da mesma forma que Luiz Marinho não gostaria de ser Orlando Morando na disputa de quatro anos depois, em 2012. 

Trocado em miúdos: Luiz Marinho quer ser Luiz Marinho de 2008 e Luiz Marinho de 2012. Mas sabe que Orlando Morando pode ser Luiz Marinho de 2008 e Luiz Marinho de 2012. 

Cenários prováveis 

Antes de explicar o que se passou no passado, vou listar condicionantes que fariam Luiz Marinho abrir não da disputa em 2020. Isso explica porque Luiz Marinho afirma aos jornais que pretende repassar a bola para parceiros do partido, os quais em condições normais de pressão e temperatura não teriam a menor possibilidade de sucesso, casos específicos do deputado Luiz Fernando Teixeira e de qualquer sindicalista, Rafael Marques entre outros. Vamos às condicionantes:

1. Vitória de Geraldo Alckmin à presidência da República. 

2. Vitória de João Doria ao governo do Estado de São Paulo. 

Para potencializar a desistência de Luiz Marinho, basta que a primeira alternativa se realize. Se vier de bonificação a segunda (bonificação para os tucanos, claro) a situação ficará ainda pior. É claro que há relatividades que podem reduzir a carga de favoritismo de Orlando Morando e, portanto, inspirar Luiz Marinho à disputa. 

Se o eventual governo de Alckmin for uma porcaria nos dois primeiros anos (a tendência macroeconômica e macrossocial é de certa semelhança com a característica do concorrente, ou seja, uma espécie de chove-não-molha), Luiz Marinho poderá navegar na onda oposicionista de um País que tem pressa sem ter orçamento público e investidores suficientes para dar conta das demandas de infraestrutura social e material. 

Se os dois primeiros anos de eventual governo de Alckmin forem um sucesso (provavelmente passageiro porque não há como esticar demais a corda ante a compressão de receitas e o crescimento contínuo de despesas e da crise fiscal, algo que Dilma Rousseff desprezou e se ferrou), Luiz Marinho pensará mil vezes antes de se lançar à aventura. Provavelmente o PT recorreria a um camicase qualquer.

Olhos azuis do poder

Observaram os leitores que não coloquei como prioridade inicial a qualidade da administração do prefeito Orlando Morando? Pode parecer estranho, mas o conceito de bom administrador dependerá muito também do ambiente macronacional. Embora muitos acreditem que eleição municipal neutraliza o quadro estadual e nacional, especialistas no assunto chamam a atenção para a contaminação. Uma contaminação mais pesada, diria, nas regiões metropolitanas, sobremodo regiões metropolitanas provincianas, como a quase totalidade é.

Com Alckmin e com Doria, ou somente com Alckmin, Orlando Morando terminará o primeiro mandato possivelmente com nota elevada. A economia está melhorando muito abaixo do necessário após longos trimestres de recessão. E seguirá nesse ritmo. Será suficiente para Orlando Morando completar várias obras inacabadas durante a gestão de Luiz Marinho e a crise do governo Dilma Rousseff. 

Além disso, a imprensa regional é bastante generosa com o tucano. Morando conta com capacidade incrível de transformar os olhos azuis em sedução. Olhos azuis? Não interessa a cor dos olhos quando o vento venta a favor. Eles podem não ser azuis, mas parecerão azuis. 

Três últimas eleições 

O ex-prefeito Luiz Marinho sabe que não tem como ganhar as eleições ao governo do Estado, ao qual concorre porque assim quis o primeiro-amigo Lula da Silva. Entretanto, entre algo praticamente consumado e a confissão de que apenas concorre para marcar presença vai distância curitibana. 

Se dissesse agora que é candidato à Prefeitura de São Bernardo em 2020 o petista assinaria um atestado de burrice, porque admitiria publicamente que é muito menos que uma zebra nas eleições deste ano. Zebra costuma ter alguma porção de probabilidade, enquanto Luiz Marinho não tem nada que o credencie a superar os favoritos. 

Quando fiz referência à viabilidade de Luiz Marinho não pretender ser Orlando Morando de 2008, o que quis dizer é que Orlando Morando era o candidato do Paço, apoiado pelo prefeito Willian Dib, tucano como ele. Quem tem a máquina pública municipal tem tudo para fazer o sucessor. Basta que não seja mau prefeito. Willian Dib era considerado um bom prefeito e Orlando Morando um bom candidato. Havia uma terceira peça no jogo de xadrez, o deputado estadual Alex Manente, adversário histórico de Morando. 

Luiz Marinho apareceu no noticiário nacional como ministro do Trabalho e da Previdência Social do governo Lula da Silva. O mesmo Lula da Silva que estava na presidência com alto índice de aprovação. Não deu outra. Marinho largou o governo federal a pedido de Lula, tabelou com Manente no primeiro turno e foi ao segundo turno com Orlando Morando. 

Jogo combinado 

Claro que não faltou dinheiro petista e adjacentes. Manente jogou com Marinho e Marinho ganhou o jogo por larga vantagem no segundo tempo, após chegar 11 pontos percentuais à frente no primeiro turno. Contra a máquina municipal prevaleceu a máquina federal. Retomar o berço que embalou o petismo era questão de honra do presidente Lula da Silva. 

Nas eleições de quatro anos depois, em 2012, Luiz Marinho vivia o auge do prestígio graças sobretudo aos investimentos federais que fizeram de São Bernardo canteiro de obras (inacabadas). Resultado? Orlando Morando fugiu da raia e deixou a Alex Manente a condição de pobre sparing. Não foi necessário o segundo turno. 

Alex Manente fez o que tinha de fazer – ou seja, marcar o nome para a disputa à Câmara Federal dois anos depois. Orlando Morando derrotou em 2016 o indicado de Luiz Marinho (Tarcísio Secoli) e também Alex Manente porque o PT caíra em desgraça dupla: escândalo da Petrobrás e outros mais, além do impeachment de Dilma Rousseff.  

Morrendo na praia 

Para Luiz Marinho assumir publicamente (após as eleições de outubro, claro) que vai acabar com o reinado de Orlando Morando em São Bernardo (não haveria outro concorrente com maiores condições) é preciso que Geraldo Alckmin e João Doria nadem, nadem e morram na praia. 

Se além disso, der Paulo Skaf ou Márcio França em São Paulo e, principalmente, Fernando Haddad no governo federal, a situação de Orlando Morando em 2020 seria semelhante à de Orlando Morando em 2008. Com a diferença de que Orlando Morando não seria o indicado pelo prefeito de plantão, William Dib, mas por ele próprio, habilitado a um segundo mandato.

Sei que existem outras alternativas não necessariamente excludentes, mas os eixos principais que gerariam as condições mais plausíveis às eleições de 2020 em São Bernardo são esses.

Bem que adverti que, para chegar ao simples (com arrazoado de sensibilização e conexão) é preciso recorrer ao complexo. O noticiário simplório de que Luiz Marinho não será candidato do PT à Prefeitura de São Bernardo em 2020 e que o PT não sabe quem vai indicar para opor-se a Orlando Morando é o simples-simplório que engana os trouxas. 

Quem acredita que política é o caminho mais curto entre intenção e verdade desconhece a alma humana e, mais que isso, as ambições humanas sempre diferenciadas no mundo político. Por isso, duvide sempre de quem tem no horizonte próximo ou distante a busca do voto e do poder. 

Um fator que poderia embaralhar ainda mais o quadro não poderia ser descartado: os novos e permanentes efeitos da Operação Lava Jato.

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