Sociedade

Uma sociedade em que vivos de
agora são os mortos de verdade

  DANIEL LIMA - 18/07/2018

A média de qualidade individual dos biologicamente mortos deste século na região (e também dos que seguem vivos, embora envelhecidos) é bem superior à média da qualidade individual dos vivos que cresceram neste novo século e dos envelhecidos neste século que seguem a mesma toada do século passado. 

Sou insuspeito para dizer uma loucura dessas. Primeiro porque estou vivo. Segundo porque cansei de criticar os vivos que já morreram ou os vivos alquebrados pelo tempo. Terceiro porque estou entre os vivos que cresceram nesse século e ainda não se consideram fora de combates renhidos. Estou levemente envelhecido, integrante do terceiro terço da vida, mas não estou carcomido intelectualmente. Nem fisicamente. 

Está certo que sou um vivo que já vinha crescidinho do século passado, mas continuo a crescer. Entendam crescer como algo muito maior que centimetragem física de quem é criança e vira jovem e de quem é jovem vira adulto. Crescer no caso é aquilo que você está pensando agora, depois da explicação no parágrafo anterior. 

Ninguém melhor (até porque único) para uma radiografia competente dos mortos que se foram e dos vivos que estão com um pé na cova do que o jornalista Ademir Medici na página do Diário do Grande ABC de cada dia. Ademi Medici registra por ofício e paixão os mortos que vieram do passado de algum brilho individual da região, ou seja, os mortos que morreram depois de viverem como adultos, ou dos vivos que já passaram de certa idade em que o que mais que se tem a fazer mesmo é curtir o tempo que lhes resta. 

Nosso Chico Xavier 

Ademir Medici é nosso maestro na missão de dizer quem é quem na geografia regional. E se não é melhor ainda nesse resgate fúnebre não lhe cabe responsabilidade. Ele tira leite de pedra de fontes de informações de uma região que perdeu completamente a cidadania em sincronismo desalentador com o rebaixamento econômico em todos os sentidos da expressão. 

Não fosse a dedicação de Ademir Medici, praticamente perderíamos a noção de quem já foi desta para outra vida e o quanto cada um representou na construção de nossa sociedade. Os mortos falam na página comandada por Ademir Medici. Diria que Ademir Medici é mais que um jornalista, é um Chico Xavier do jornalismo. E os vivos a caminho da eternidade também encontram espaço em relatos sempre emocionantes de Ademir Medici. 

Sei que ao escrever o que estou escrevendo (ou seja, que os mortos que viveram bastante na região, sobretudo em instituições diversas, deixaram um legado muito maior do que os vivos atuais, e que muitos vivos atuais que flertam com a morte também têm muito a ensinar) vou me indispor com alguns vivos demais que acham que todo o mundo é trouxa. 

Não é bem assim: temos uma cambada de vivos novos e envelhecidos inúteis em postos-chave que é praticamente impossível acreditar que sairemos desta inanição coletiva para algo melhor. Os vivos demais têm o poder entrecruzado de congelar tudo que os cerca, menos o tempo que os destruirá como lembrança de alguma coisa séria e transformadora. Os vivos demais vieram para morrer agarrados a comodidades e cumplicidades. 

Vivos que não acordam 

Já perdemos muitas individualidades de respeito que morreram principalmente depois de cumprirem jornadas biológicas extensas. O conceito de jornada biológica extensa carrega subjetividade porque se morrer antes de completar 94 anos, como indicou aquela cartomante, não vou dar sossego a ninguém. Aliás, não seria nada diferente do que sou hoje, não é verdade? 

Também perdemos entre os vivos já de longas caminhadas muito da vitalidade que a cidadania exige. Alguns servem de exemplos vivos aos vivos que não acordam. Nesse caso, não se trata de falha pedagógica – o que insistimos em persistir em matéria de incompetência e tudo o mais é na falta mesmo caráter da massa de oportunistas. 

Estava dizendo que perdemos muitas individualidades. E estamos sempre a uma nova edição de Ademir Medici para identificar um novo candidato a pé na cova. Toda vez que vejo uma notícia ou me chega uma informação da morte de alguém conhecido na região tenho a mania de confrontar o histórico do morto com alguém que esteja vivo e ocupe função semelhante. 

Na maioria dos casos a reposição coloca os vivos a dever barbaridade aos os mortos que se foram para valer ou dos vivos que, cansados, já entregaram a alma ao Poderoso, embora não se descuidem do corpo para levar adiante algumas novas primaveras. 

Isso quer dizer que estamos em plena decadência geracional? Quem fez essa pergunta também tem a resposta: não tenho a menor dúvida. E repito: não sou suspeito por pensar assim, porque estou vivo e não tenho os pés na cova. 

Redes sociais enganadoras 

Tudo isso significa que estamos construindo uma Província cada vez menos importante no cenário nacional e, pior que isso, uma região cada vez mais relapsa com o futuro. 

As futuras gerações provavelmente serão piores que as atuais quando se levarem em conta (e é sobre isso que estou escrevendo) princípios, premissas, conceitos e condicionalidades do que chamo de regionalidade, um guarda-chuva imenso de indicadores institucionais com ressonância nas individualidades e nos coletivos. 

Talvez uma das explicações para o encruamento de atividades de protagonistas de qualidade na região (são vários os fatores, deixo bem claro) seja a falsidade democrática e participativa das redes sociais. Temos cada vez mais nas praças da região gente combatente, decidida a tudo para mudar o quadro institucional, mas que se limita exclusivamente às palavras, disseminadas entre semelhantes, principalmente. E, também, cada vez mais nacionalizadas, com temários estimulados pela grande mídia. 

Debates locais ganham a forma de ressentimentos partidários e político-administrativos. Palavras de ordem substituem propostas e ações coletivas. A barbeiragem do prefeito Paulinho Serra no caso do IPTU de Santo André mexeu com o bolso dos contribuintes e serve de exceção à regra. Outras iniciativas assemelhadas também revelam que o bolso pesa muito mais que o cérebro. 

Perda de regionalismo 

A tecnologia nos roubou o foco da regionalidade que já era escasso diante de um municipalismo arraigado e potencializado em meados do século passado com os desmembramentos dos municípios. Em muitos casos, bater em terceiros distantes é muito mais confortável do que em terceiros próximos, quando os interesses são outros. 

Querem um exemplo: experimente escrever sobre a Fundação do ABC, antro de politiquismo e partidarismo que se tornou cabide de emprego monumental a servir mandachuvas e mandachuvinhas do Executivo e do Legislativo. Até parece que a maioria dos ativistas das redes sociais na região tem vínculo empregatício direto ou indireto com a Fundação do ABC.  

Os mortos que se foram e que foram individualmente melhores que os vivos atuais e os vivos em fim de carreira não perderam muito tempo com redes sociais no sentido tecnológico de hoje. Era gente da comunicação direta, de bate-papos frontais, olho no olho. 

É verdade que a maioria também não soube conjugar diálogos que fugissem do quadradismo de relações corporativas, institucionais e pessoais. A regionalidade sempre ficou relegada a segundo plano na maioria das atividades. Mas era gente que tinha o que dizer e, principalmente, tinha o que fazer. Mesmo que o fazer fosse menos produtivo do que o desejado. 

Hoje temos baixa produtividade interpessoal. No campo das relações humanas, a tecnologia criou o que chamaria de vagabundagem resolutiva. Sempre considerando a regionalidade que tanto esgrimo. 

Defendendo quem merece 

Sei que alguns vão me chamar de saudosista. Corro esse risco, mas não tenho a menor preocupação com reações de terceiros que não comunguem com meus pensamentos. Ouço-as com atenção. Faço reflexões. Não as desclassifico jamais. Pelo menos até que o “jamais” seja o escrutínio de minha capacidade avaliativa. 

Defender os mortos e os vivos já fora de combate e bater nos vivos não seriam uma boa pedida. Os mortos não podem se manifestar em minha defesa enquanto os vivíssimos, metralhadoras de redes sociais em punho, podem partir para a ignorância. 

Que partam. Estou me lixando para isso. O que os vivos deveriam fazer mesmo é repensar o que fazem para dar à região a antiga e meritória qualificação de “Grande ABC”, pronunciada hoje apenas por ignorantes ou enganados. 

Os vivos destes tempos, em larga maioria, não têm estofo algum para gerar algum fato novo, alguma iniciativa, alguma guinada que retire a Província da mesmice de inapetência deste século. 

Chegamos ao fundo do poço a tal ponto que os mortos que tiveram alguma relação com o progresso da região, mesmo que o progresso pessoal ou corporativo apenas, devem estar revoltados nos túmulos – tanto quanto os vivos já envelhecidos e cansados de guerra. Afinal, eles devem saber que os mortos de fato são os vivos de agora. Vivíssimos, para ser mais claro.

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