Regionalidade

Uma agenda que escancara
região sem fibra e futuro (3)

  DANIEL LIMA - 12/06/2018

Completamos com esta edição a breve atualização da Reportagem de Capa de dezembro de 2013 da revista LivreMercado. Ali foram alinhavados 30 enunciados que procuraram, em forma de desafio às instituições locais, iluminar o caminho no novo século que mal se iniciara. Como constataram os leitores nas duas edições anteriores, e poderão reforçar a decepção agora com os 10 temários complementares, se já estávamos em situação dramática àquela ocasião, hoje é muito pior. 

É impressionante a incapacidade de o antigo Grande ABC, hoje Província do Grande ABC, passada uma década e meia, permanecer em estado de letargia. Mais que isso: ver deteriorar-se inquietantemente a qualidade de vida regional. 

Diferentemente do que pensam os simplistas, qualidade de vida é uma expressão muito mais elástica do que simplesmente referir-se isoladamente ou mesmo ao conjunto formado por meio ambiente, mobilidade urbana, indicadores de educação, de saúde e tantos outros mais. 

Qualidade de vida também tem porção abstrata, que se revela materialmente dimensionável quando o que chamamos de capital social se manifesta e faz a diferença. A Província do Grande ABC só tem capital social nestas páginas, como marca de uma publicação concebida em 2001 como newsletter. 

É importante ressaltar o papel do jornalismo que a revista LivreMercado e CapitalSocial exercem na região. Coloco o verbo no presente não como descuido, por conta da descontinuidade de LivreMercado. A publicação desapareceu da praça, mas o legado de quase duas décadas continua a ser resgatado por quem a criou e a comandou por tanto tempo. O conteúdo de LivreMercado segue sendo incorporado a este site. 

Daquela Reportagem de Capa que trouxemos à atualização com essa série de três análises, podemos pinçar também alguns trechos que revelam o papel da imprensa segundo os pressupostos deste jornalista. Leiam: 

 Avessa ao ziguezague editorial que as publicações nacionais praticam com teimosia e frequência sob o manto tosco de imparcialidade e neutralidade, LivreMercado toma a inédita iniciativa de escancarar sua missão editorial nem sempre perceptível, embora coerentemente sustentada ao longo dos anos. Ou seja: o que antes se entendia como pacote informal de agregados que dispensava ênfase ao espírito de independência, porque se considerava perceptível inclusive a olhos menos atentos, agora ganha embalagem própria, única e mais atrativa para quem pretende entender a correlação de compromissos e responsabilidade de um veículo de comunicação e o público ao qual se dirige. Nada surpreendente, portanto, porque a Editora Livre Mercado e CapitalSocial se manifestam como veículos de comunicação que transcendem vetores tradicionais de interlocução com o público leitor. Há muito a postura de considerar missão cumprida a simples propagação de informações de fontes nem sempre confiáveis foi atirada ao lixo dos conceitos desses veículos. 

Vamos, portanto, aos últimos 10 enunciados da agenda publicada há 15 anos nas páginas de LivreMercado, com as respectivas explicações e, agora, incorporando uma atualização mais que necessária de resultados. 

 Cobrar dos estabelecimentos de ensino mantidos com recursos públicos maior empenho e comprometimento com questões municipais e regionais. 

Exemplo: Tanto na Agência de Desenvolvimento Econômico quanto no Consórcio de Prefeitos, a presença de representantes de academias públicas da região está em desacordo com a importância do momento econômico e social do Grande ABC. Um novo modelo de intersecção dessas instituições poderia se tornar porta de entrada para a superação histórica do distanciamento entre as partes. Há uma reserva de mão-de-obra universitária muito mal explorada pelos organismos públicos da região. Bolsistas, por exemplo, poderiam retribuir a generosidade dos municípios com ações comunitárias no campo social e econômico. 

Resultado: nada de inovador ou mesmo de conservador nesse quesito. A Universidade Federal do Grande ABC chegou em 2006 e acrescentou à região uma porção de insatisfação por jamais se ter lançado à regionalidade em qualquer aspecto relevante, sobretudo na Economia. 

 Incentivar a inserção de instituições assistenciais entre as preocupações de responsabilidade social de organizações privadas, públicas e não governamentais. 

Exemplo: o convênio entre o Sebrae e Nossas Madres Terezas para a aplicação de cursos técnicos de gestão de entidades sociais é simbolicamente a comprovação de que bastam incentivo e boa-vontade para que ao voluntarismo se acrescente metodologia. Mais que nunca, a situação social da região exige que exemplos como o do Sebrae e Nossas Madres tenham ramificações e se convertam em importantes paradigmas de responsabilidade social. Inserir essa e outras eventuais experiências pode ganhar contornos de sinergia que em muito colaboraria para alterar nossa regionalidade. 

Resultado: aquele foi um exemplo isolado do próprio Sebrae. A ordem unida é que cada um fique na sua. 

 Exigir dos governos estadual e federal participação permanente de interlocutores oficiais. 

Exemplo: a falta de um interlocutor oficial do governo Lula da Silva no Grande ABC e mesmo a pouco expressiva diplomacia preparada pelo governador Geraldo Alckmin ajudam a explicar por que a região não consegue poder de convencimento para as prioridades sociais e econômicas. Contar efetivamente, no dia a dia, com representantes do governo federal e do governo estadual concretamente, com assento nas mesas de decisões, pode parecer privilégio ao qual o Grande ABC pretende se dar ao luxo, mas não passa mesmo de decisões indispensáveis depois de uma década de tormentas.  

Resultado: todo o pouco que se fez nesse sentido, inclusive nestes dias no Clube dos Prefeitos, não conta com a efetividade necessária. As ações circunstanciais têm cunho mais político do que operacional. 

 Defender a constituição de um fundo de recursos financeiros oriundos de orçamentos municipais ou de doação de empresas privadas para a contratação de especialistas que atuariam no assessoramento das instituições de cunho regional e dos parlamentares conceituados como representantes do Grande ABC. 

Exemplo: os quadros técnicos de que dispõem as prefeituras e que atuam tanto na Agência de Desenvolvimento Econômico quanto no Consórcio de Prefeitos não têm, na maioria dos casos, visão negocial do espaço regional. Não são especialistas em competitividade. Essa qualificação é própria de consultorias especializadas, cujos profissionais, exatamente por não estarem vinculados política e administrativamente a interesses específicos das administrações locais, poderiam implementar medidas tecnicamente mais produtivas. 

Resultado: mais que desprezar essa alavanca desenvolvimentista, o atual presidente do Clube dos Prefeitos, Orlando Morando, decidiu politizar a entidade com medidas que contrariam inteiramente a construção de um modelo atualizado de fortalecimento econômico. A criação da Casa do Grande ABC em Brasília, cujo diretor-executivo não se segurou no cargo mais que três meses, é uma bobagem em amplas dimensões, tanto por falta de recursos federais como, principalmente, por não carregar no bojo de ações um Plano Estratégico Regional. 

 Exigir das instituições regionais calendário permanente de intercâmbio com organizações internacionais vocacionadas ao temário metropolitano. 

Exemplo: as temáticas regionalidade e metropolização são cruciais para que o Grande ABC ultrapasse definitivamente as fronteiras do provincianismo gerencial e administrativo que o fere de morte desde que se dividiu em sete pedaços. Por isso, nada mais interessante que oxigenar as veias municipais e regional com insumos de conhecimentos e experiências internacionais. Pioneiro no debate de regionalidade, tendo à frente o prefeito assassinado Celso Daniel, o Grande ABC dormiu nos próprios louros e acabou ultrapassado por outros municípios que agiram individual ou coletivamente. 

Resultado: incapaz de formular em âmbito municipal propostas e ações sobretudo no campo econômico, o que esperar de algo assemelhado à proposta? Regionalidade é um bicho do mato que não frequenta para valer os corredores dos poderosos de plantão na região.  Nesta temporada o Clube dos Prefeitos decidiu anunciar intercâmbio em mobilidade urbana com Turim, Itália. Nada que possa reduzir o déficit de atenção contínua com a regionalidade. 

 Considerar como membros das bancadas de deputados do Grande ABC na Assembleia Legislativa e em Brasília, todos os eleitos domiciliados na região, bem como tantos quantos tenham alcançado número de sufrágios decisivos a se instalarem acima da linha de corte. 

Exemplo: A definição do que eventualmente venha a se justificar como bancadas regionais na Assembleia Legislativa e em Brasília é o primeiro obstáculo a ser superado para que se definam os caminhos para avaliar o desempenho de cada parlamentar. Estabelecido o quadro de representantes, o monitoramento de suas atividades individuais e coletivas passará a ser submetido aos princípios de regionalidade e de metropolização, deslocando-se para o quarto de despejo questões pontuais que tanto mistificam a qualidade dos mandatos.  

Resultado: sobretudo porque a chamada Bancada do ABC tanto na Assembleia Legislativa como no Congresso Nacional não passou de balela, porque jamais houve sinergia entre os representantes locais, a mídia parece ter jogado na lata do lixo uma expressão que sugeria o contrário da realidade dos fatos. Seguimos com deputados que olham para o próprio umbigo e exercitam políticas clientelistas para agradar redutos eleitorais. Os grandes temas da região não passam por seus gabinetes. 

 Cobrar das autoridades públicas, das entidades de classe empresarial e dos agentes comunitários empenho e determinação que tornem mais factível e suportável o financiamento de pequenas e médias empresas. 

Exemplo: o restabelecimento mesmo que parcial da força econômica do Grande ABC passa pela desativação de armadilhas preparadas ao longo dos anos pelos mais diversos agentes políticos e privados. Por isso, não é possível escapar da degola da mortalidade empresarial sem que se manifeste a massa crítica dos diversos atores da sociedade. Somente uma força-tarefa que se diferencie de tudo o que se encontra no modelo ultrapassado de lobbies permitirá que os pequenos negócios sejam reenquadrados nas linhas de financiamento. A ideia conservadora de que problemas empresariais devem ser resolvidos apenas pelos agentes empresariais é tão cômoda como entender que políticas públicas são responsabilidade exclusiva dos governos. A regra segue a mesma em termos de realidade dos fatos. Os pequenos negócios sofrem as durezas da escalonada quebra de vitalidade econômica e financeira que as colocam sempre distantes dos mecanismos de financiamento. 

 Defesa de um fundo metropolitano da Grande São Paulo para aplicação em políticas públicas direcionadas à competitividade econômica e social da região metropolitana. 

Exemplo: por mais que a geografia exclusivamente regional deva ser o núcleo das iniciativas para recolocar o Grande ABC na trilha do desenvolvimento, as características da Região Metropolitana de São Paulo são extremamente peculiares e sinérgicas para o bem e para o mal e recomendam, portanto, medidas integracionistas. A composição mesmo que informal de uma instância metropolitana gerida com a sociedade e representantes do mercado se coloca como ramal decisivo ao estancamento do quadro de atomização da qualidade de vida, seguido de políticas de recuperação. 

Resultado: não existe no ambiente político-partidário que permeia tanto o governo do Estado quanto as prefeituras metropolitanas, nada que permita acreditar que uma ação coletiva e, portanto, multipartidária, seria levada adiante. O ambiente político-institucional dos últimos anos levou a classe política à insônia com os desdobramentos da Operação Lava Jato. Mas o mal maior e que transcende todos os demais é que não existe vocação desenvolvimentista coletiva na alça de mira dos agentes públicos sempre em busca de votos. 

 Formação de um grupo multidisciplinar de profissionais reconhecidamente especialistas em Grande ABC para atuar informalmente como assessores de programas voltados à valorização da imagem institucional da região. 

Exemplo: experiências já consumadas quando o assunto marketing regional saiu da teoria para a prática mostraram que o desconhecimento sobre a matéria, geralmente confundida como apêndice de triunfalistas de plantão, tornou a emenda da mistificação pior que o soneto do rebaixamento da qualidade de vida. Entregar a imagem institucional do Grande ABC exclusivamente a publicitários ou profissionais de marketing tem efeito semelhante à guarda de galinhas por raposas. Importantes na formulação de campanhas de autoestima institucional, tanto os publicitários quanto os profissionais de marketing devem contar com parceiros como economistas, jornalistas, educadores e sociólogos, entre outros. 

Resultado: essa também é uma pauta onírica, porque seria consequência de uma união de esforços pró-regionalidade que ficou no passado durante o período em que o prefeito Celso Daniel acredita na empreitada. 

 Engrossar, com mobilizações permanentes, a corrente de apoio aos representantes municipais e regionais de atividades esportivas e culturais com maior potencial de divulgação doméstica, estadual e nacional, quando não internacional. 

Exemplo: as campanhas de nossas equipes de futebol profissional e das companhias ou individualidades no vasto campo da cultura devem merecer prioridade absoluta, numa espécie de corrente de propagação da regionalidade por meio de atividades mais apropriadas à sensibilização da comunidade, abrindo, portanto, alas para a massificação de outros temários menos populares. Uma comunidade orgulhosa de seus representantes artísticos está mais próxima da cidadania nas demais áreas, como contribuinte, consumidora e geradora de riquezas. 

Resultado: a permanente perda da identidade regional agrava-se na medida em que as redes sociais chegaram para valer e se dispersa em pautas prevalecentemente nacionais, sobretudo por conta dos efeitos da Lava Jato. Os agrupamentos de redes sociais locais centram fogo, também, em questões que lhes dizem mais respeito, tanto nas batalhas partidárias quanto nas demandas domésticas que mais os afligem diretamente. Raramente se observam interações que coloquem a regionalidade como prioridade. 

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