Imprensa

Nova série vai desvendar
traquinagens informativas

  DANIEL LIMA - 11/06/2018

Encontramos um substituto para o “Observatório de Promessas e Lorotas”, criado em 2013 para acompanhar os prefeitos dos sete municípios da região. Como se sabe, mais de uma centena de registros viraram matéria-prima desta revista digital. E, incrível, nenhum se consumou na prática. Os prefeitos petistas Luiz Marinho e Carlos Grana foram campeões em promessas e lorotas, exatamente nessa ordem. Agora, sob inspiração de dois tucanos, Paulinho Serra e Orlando Morando, igualmente prefeitos de Santo André e de São Bernardo, produziremos o que chamaremos ainda provisoriamente de “Como enganar o público com notícias manipuladas”. 

Haverá diferenças a separar uma coisa da outra. O Observatório de Promessas e Lorotas só tratava da agenda de agentes públicos. Desta feita, todos os agentes sociais, no sentido mais amplo da expressão, serão escrutinados por CapitalSocial. Notícias que se revelarem marqueteiras no sentido mais irresponsável ou oportunista do termo vão ser objeto de análises. Já temos engatilhada uma penca de peças publicitárias disfarçadas de informação. 

Também, diferentemente do Observatório de Promessas e Lorotas, a nova série não fixará alvo apenas em quem está em plena atividade como agente público ou privado. Vamos recorrer a ações anteriores para mostrar, em detalhes, como se comportaram agentes cujo abuso ultrapassou em muito os limites do razoável. 

Coletânea pedagógica 

O que pretendemos com isso? Simples, muito simples: queremos organizar uma coletânea que, quem sabe, possa servir de instrumento a leituras mais exigentes dos contribuintes em geral. Quem sabe esse material possa ganhar uma edição em formato de livro?  Por pensar nessa possibilidade, daremos a essa série tratamento jornalístico profundo. Fundamentaremos as observações para caracterizar os deslizes solidamente. 

Mas o mais importante mesmo é que os textos que serão editados nesta revista digital sejam multiplicados em diferentes plataformas nas redes sociais. Perdemos o controle da tiragem desta publicação na medida em que mais leitores compartilham conteúdo. Quer notícia melhor?

A desativação do Observatório de Promessas e Lorotas no início do ano passado foi compulsória, por falta de matéria-prima. A inovação que introduzimos no jornalismo brasileiro (quem até então ousou acompanhar meticulosamente cada anúncio de medida de prefeitos e cobrar resultados?) esgotou-se na medida em que a recessão econômica decepou orçamentos municipais, a maioria dos quais ligadíssima às transferências federais. 

Fartura interrompida 

Viveu-se na região durante o governo Lula da Silva e também durante o primeiro mandato de Dilma Rousseff uma enxurrada de notícias dando conta de investimentos federais, além de municipais e estaduais. Não sobrou nada para contar a história. Ou melhor: sobrou o acervo de CapitalSocial com detalhes de todas as promessas e lorotas. 

A vantagem da nova série sobre a anterior é que teremos, portanto, diversidade de agentes. No Observatório de Promessas e Lorotas contávamos com sete alvos, os prefeitos da região. Ao final, quem ganhou o título de campeão em promessas e lorotas foi Luiz Marinho, prefeito de São Bernardo. Vejam o que escrevi em dezembro de 2016: 

 “Luiz Marinho vai encerrar oito anos de comando da Prefeitura de São Bernardo ostentando um título à altura do esfacelamento do PT na Província do Grande ABC nas últimas eleições municipais. O primeiro-amigo do ex-presidente Lula da Silva é o ganhador do título de Rei das Lorotas entre os prefeitos da região. (...) Trata-se de uma métrica inovadora e revolucionária no jornalismo brasileiro. Medimos criteriosamente o que os administradores públicos da região apresentaram de propostas à sociedade desde que assumiram a chefia dos Executivos e o que efetivamente realizaram. Luiz Marinho contabiliza 11 das 26 propostas classificadas de “lorotas”. A diferença entre “promessas” e “lorotas” é que as primeiras são propostas com viabilidade de sucesso, enquanto as segundas são propostas praticamente impossíveis de execução. Por incrível que possa parecer, tanto umas quanto outras são invariavelmente publicadas e anunciadas na mídia da região sem reparos. O que os prefeitos dizem é tratado como sentença definitiva. Como se a sociedade fosse formada por bandos de desmemoriados. Na realidade, a maioria é mesmo desmemoriada. Por isso entramos em campo para, cuidadosamente, acondicionar e recuperar as informações mais suscetíveis a questionamentos” – escrevi na edição de dezembro desta revista digital.  

Fontes inspiradoras 

Tanto Paulinho Serra quanto Orlando Morando são as principais fontes de inspiração dessa nova investida jornalística em busca de uma regionalidade mais madura e serena. A gota d’água (que esmiuçaremos nesta semana, quando abriremos a série) está nos pontos de maior visibilidade urbana que empresas especializadas em outdoors exibem: a divulgação de números extraordinários de novos empreendedores que transformaram Santo André num oásis do capitalismo. Os leitores de CapitalSocial que recebem mensagens num dos aplicativos que a tecnologia coloca na praça sabem do que estamos tratando. 

O resumo da ópera é que a sociedade mais bem informada (ou mais disposta a ser bem informada, embora nem sempre o seja porque traquinagens pontuam informações jornalísticas por demandas de marqueteiros incrustrados nas prefeituras) terá um referencial importante para inquietar-se diante do noticiário. Há mais armadilhas marquetológicas do que imaginam os mais céticos. Quem é do ramo jornalístico tem obrigação de procurar desvendar as pegadinhas. 

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