Regionalidade

Morando é o pior dos prefeitos
dos prefeitos. Qual é o custo?

  DANIEL LIMA - 04/06/2018

O prefeito Orlando Morando poderá ser ao final do mandato de quatro anos o melhor prefeito das últimas décadas em São Bernardo (o que duvido, embora a concorrência não seja lá essas coisas), mas já está configurado como o pior prefeito dos prefeitos da região em todos os tempos. Explico: o cargo de prefeito é uma coisa, o cargo de prefeito dos prefeitos é outra. Prefeito dos Prefeitos é quem preside o Clube dos Prefeitos. 

É o que chamaria de resumo da ópera da regionalidade. Quem não passa pela sabatina do Clube dos Prefeitos não fica para a história regional. O único que poderia honrar a distinção morreu faz tempo, e com ele praticamente tudo que se refere ao Clube dos Prefeitos. Estou falando, claro, de Celso Daniel. 

Celso Daniel foi melhor prefeito dos prefeitos do que prefeito, embora como prefeito tenha sido melhor que a maioria dos antecessores, todos navegando nos mares de uma Santo André então pujante, um “viveiro industrial”. Todos omissos em matéria de regionalidade. Tanto que a única regionalidade que deu certo na história da região é a Fundação do ABC, porque ali os acertos garantem tudo. 

Cabe um parêntese: esta é a primeira vez que minha cabecinha conseguiu encaixar com precisão irretocável o que foi Celso Daniel para Santo André e para a região, independente de aspectos deletérios de uma administração que, conforme provas, participou ativamente de um sistema de fortalecimento do caixa petista para chegar à presidência. Algo que – como já escrevi – desmonta de cara, sem piedade, a farsa do Ministério Público Estadual que enxergava Celso Daniel como um santo em meio a pecadores na fúria investigativa para transformar um crime comum em crime político. Mas isso é outra história. 

Situação indefensável  

Orlando Morando é indefensável como prefeito dos prefeitos. Diadema e Rio Grande da Serra já deram no pé da deserção. São Caetano abandonou o repasse orçamentário e só não formalizou o afastamento institucional por delicadeza político-partidária. Mauá de Atila Jacomussi caminhava para o mesmo objetivo até que a operação Prato Feito esfriou a movimentação rebelde. Resumo da ópera: Orlando Morando botou fogo no paiol da regionalidade.  

A atuação de Orlando Morando no Clube dos Prefeitos é indefensável. Nenhum outro prefeito dos prefeitos acumulou tantos equívocos. A situação é insustentável. Morando pulou a cerca da racionalidade, invadiu a grande área da estupidez, atravessou o farol do companheirismo, degolou o tratado do apartidarismo e ultrapassou os limites do bom-senso. 

Resumidamente, vou alinhar sete pontos mais visíveis que explicam e justificam os descaminhos da gestão de Orlando Morando no Clube dos Prefeitos.  

Primeiro pecado capital

Politização do comando técnico da instituição, com a indicação de um titular (Flavio Palacio) sem qualquer intimidade com regionalidade nos mais amplos vetores, exceto na fúria de candidatar-se a deputado estadual. Palacio entrou para a história de ato falho ao, preparando-se nos bastidores para uma entrevista a emissora de TV da Internet, produziu uma frase sarcástica sobre a importância da regionalidade.  O vazamento deixou a direção do Clube dos Prefeitos atônita, mas uma operação-abafa procurou e conseguiu reduzir os estragos.

Segundo pecado capital 

Redução das alíquotas de financiamento das prefeituras, a pretexto de enfrentamento ao quadro de quebra das receitas municipais. Um caminho inverso ao adotado com acerto pelo antecessor Luiz Marinho e, também, incongruente frente a imperiosidade de organizar os sete municípios sob conceitos de regionalidade. O recado subliminar da medida foi claro no sentido de minimizar a importância daquela associação. Um regionalista de verdade haveria de ter dado mais impulso ao Clube dos Prefeitos. Luiz Marinho, que passou distante da entidade no primeiro mandato, priorizou a presidência no mandato seguinte. 

Terceiro pecado capital

Extensão ao comando da entidade de condimentos idiossincráticos de partidarização. Morando desprezou um princípio básico da regionalidade, que consiste em evitar que a autonomia no âmbito municipal, com tudo que isso represente, não invada os interiores do Clube dos Prefeitos.  Quando não se obedecem a limites geográficos, acreditando-se senhor dos mares revoltos, o resultado geralmente é um desastre.  

Quarto pecado capital 

Prática de guerra fiscal à atratividade de empresas sediadas na região.  Uma indústria de Diadema foi transferida recentemente para São Bernardo e outras iniciativas semelhantes são a essência da Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Uma pasta ocupada por um agente político.  

Quinto pecado capital 

Constituição da Casa do Grande ABC em Brasília com conotação retaliatória ao deputado federal Alex Manente, além de busca de um palanque político que alçasse Orlando Morando a um patamar supostamente diferenciado na Província. Nada mais improvisado, sobretudo porque o projeto fracassou num período em que o governo federal mal conta com recursos para sair do encalacramento fiscal. Ou seja: a Casa do Grande ABC brigaria por migalhas e, sobretudo, sem o suporte de um planejamento estratégico que permitisse dar produtividade aos valores supostamente disponíveis. 

Sexto pecado capital 

Destruição da Agência de Desenvolvimento Econômico, instituição de suporte ao Clube dos Prefeitos que, mesmo longe de alcançar objetivos necessários, gerava expectativa de viabilidade de projetos mais focados nas atividades econômicas. 

Sétimo pecado capital

Desprezo completo a uma prioridade indescartável: a contratação de consultoria especializada em competitividade (como muitas cidades no mundo inteiro o fazem) para preparar Planejamento Econômico Estratégico que favorecesse medidas que iniciassem grande reviravolta regional. Aliás, essa deveria ser a primeira medida de Orlando Morando para formatar regras do jogo de uma ação profissional que se distanciasse do voluntarismo político-partidário.  

Remelexo complicado 

Por tudo isso, nem mesmo a possibilidade factível de que as prefeituras que se retiraram e outras que podem se retirar do Clube dos Prefeitos só o fariam também porque haveria forte conotação político-partidária a envolver a todos, contraporia a derrapagem da gestão de Orlando Morando. Aliás, tudo isso só confirma o equívoco de ingerências partidárias conflitivas numa casa que exige regionalidade multipartidária. Antipartidária, não, porque seria hipocrisia.  Orlando Morando não teve senso de articulação para modular partidariamente uma organização que só resistiu ao tempo, mesmo com fragilidades, exatamente porque equilibrou-se com razoável capacidade entre o municipal e o regional.  

Tenho fortes reservas quanto à possibilidade de, mesmo sem Orlando Morando na presidência, o Clube dos Prefeitos venha a se recompor nas duas próximas temporadas dos atuais prefeitos.  

Caminha-se, portanto, para o período quadrienal mais devastador da instituição. Numa dose dupla de prejuízos. A combinação de PIB deprimido e institucionalidade fragmentada causará prejuízos incalculáveis à sociedade regional. A agenda mínima necessária praticamente virou pó.  

Talvez a única salvação (e aí Morando daria um golpe que o redimiria em larga escala, com possibilidade de reagrupar todos os participantes) seja uma operação que traga as montadoras de veículos como fiadoras, financiadora e quem sabe até colaboradoras operacionais do Planejamento Econômico Estratégico, como sugerimos ainda outro dia. Morando teria a humildade de reconhecer-se a beira de um nocaute regional?  Não acredito. O custo será elevadíssimo. Aliás, já tem sido. O contraponto é que ele vai fazer parte (talvez majoritária) dos estragos. Nem poderia ser diferente. 

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