Regionalidade

Alô, alô, prefeitos: leiam as
57 páginas da revista Exame

  DANIEL LIMA - 30/05/2018

A ignorância (somada ao individualismo) é o caminho à felicidade. O conhecimento relacionado ao coletivismo é um desgaste permanente a espicaçar a alma. Só não estou destroçado psicologicamente ao ler as 57 páginas que a revista Exame desta quinzena esfregou na cara de quem faz do triunfalismo verde-amarelo bandeira de comodismo, quando não de covardia implícita, porque já tenho conhecimento suficiente para cantar as caçapas nacional e regional.

Mas, mesmo assim, confesso, fiquei mais aturdido. Há muita coisa acontecendo no mundo econômico que não nos damos conta plenamente, e em sinergia, até que uma publicação competente preenche os espaços do jornalismo diário superficial.

A profundidade da revista Exame na abordagem da chamada Quarta Revolução Industrial me leva a recordar as matérias de fôlego que a revista LivreMercado produziu ao longo de duas décadas sobre a economia regional. Houve uma edição transformada em livro, por exemplo. Mas trataremos disso outro dia.

Denunciar e rezar

Afinal, o que fazer nesta Província dominada por medíocres no setor público e em grande escala por mandachuvas corporativos na área econômica, em associação com lideranças sociais retrógradas?

Por enquanto, denunciar e rezar. Pena que a maioria prefira mesmo navegar nas águas plácidas da irresponsabilidade coletiva. E coloca a regionalidade na lata do lixo, como tem feito o Clube dos Prefeitos sob a nefasta liderança do prefeito de São Bernardo, Orlando Morando. O mesmo prefeito badalado pela mídia regional em operações com múltiplas explicações, embora a principal seja mesmo a vocação a uma diplomacia de araque que jamais deveria constar do léxico jornalístico. Sobretudo numa região em frangalhos.

Os prefeitos da região (e todo o bando de assessores que não acrescentam nada na área econômica, praticamente relegada a quinto plano no organograma de atividades para valer) precisam ler as 57 páginas da revista Exame. Além de, claro, diariamente, todas as páginas de CapitalSocial. Acordem!

Para não me alongar sobre a reportagem da publicação da Editora Abril, reproduzo alguns dos muitos trechos selecionados em leitura atenta, meticulosa, digerida e ruminada. A conclusão é óbvia: se o Brasil vai de mal a pior no confronto internacional, o que esperar da região, jogada às traças e iludida com as ilhas de excelência da Doença Holandesa Automotiva? Acompanhem: 

Participação pífia 

 Como preparar a massa de empresas brasileiras para a Quarta Revolução Industrial e tornar mais comuns histórias de sucesso como a da Embraer? Há um bom caminho a percorrer até o Brasil atingir a maturidade de países como a Alemanha, onde mais de 40% das indústrias já passaram pela quarta revolução, segundo dados de 2016 divulgados pela Bitkom, associação alemã das empresas de tecnologia.

Políticas públicas

 As potências industriais do planeta têm criado políticas públicas para adequar suas fábricas ao padrão da quarta revolução. Há cinco anos o governo da Alemanha popularizou o termo indústria 4.0 ao divulgar na maior feira industrial do mundo, na cidade alemã de Hannover, um documento com medidas para tornar o país a maior referência global em manufatura até 2020.

Irlanda exemplar

 No longo prazo, os efeitos multiplicadores do investimento em manufatura inteligente podem beneficiar um país inteiro. É o caso da Irlanda, que até os anos 60 só exportava derivadas da pecuária local para o vizinho Reino Unido. Hoje, é o décimo país mais inovador do mundo digital, segundo o Global Innovation Index, e viu seu PIB crescer 7,8% em 2017, puxado principalmente pela pujança de pequenas e médias empresas com alto estágio de desenvolvimento.

Imagem embaçada

 A imagem do Brasil no mundo é pouco associada a inovação. Isso decorre do fato de poucas empresas brasileiras terem uma presença global. No ranking da revista Fortune, que lista as 500 maiores empresas do mundo, os Estados Unidos têm 130 empresas. A China, 20, O Brasil tem sete. Para um País enorme e repleto de oportunidades, é uma representação baixíssima, disse o indiano Soumitra Dutta, um dos responsáveis pelo Global Innovation Index, ranking de 127 nações de acordo com o apoio a políticas de fomento à ciência e tecnologia, no qual o Brasil é apenas o 69º colocado. 

Exemplo a ser seguido

 O Cimatec é o exemplo mais bem acabado de um arranjo público-privado que até agora vem dando bons resultados no fomento à inovação no País. Por meio dele, uma indústria pode dividir os custos do desenvolvimento de um projeto com 42 centros de pesquisa país afora –11 deles mantidos pelo Senai. 

Riscos brasileiros

 Se há quatro ou cinco apagões por dia, então a manufatura automatizada não vai funcionar. Portanto, é preciso preparar o terreno para uma infraestrutura confiável e acessível, e isso passa, necessariamente, pela eletrificação. Há também o desenvolvimento de infraestrutura de mobilidade, de transporte de pessoas e bens. Isso ajuda a reduzir a inflação porque elimina ineficiências. Muitas vezes, a inflação decorre da ineficiência, não do superaquecimento de uma economia. O que precisa ser construído pelo governo é apenas uma moldura regulatória. Não há necessidade de nos ajudar a fazer isso, afirmou o alemão Joe Kaeser, presidente mundial da Siemens, um gigante mundial com 380 mil funcionários.

Gente na frente

 As mudanças trazidas pelas habilidades do século 21 – aquelas demandadas pelas tecnologias disruptivas, transformadoras de setores e negócios – também estão virando de cabeça para baixo a gestão dos profissionais. Estejam eles nas fábricas, nos escritórios ou mesmo nas lojas. Da contratação ao treinamento, passando pela remuneração e pelo desenvolvimento de novas competências, as empresas começam a incorporar outros jeitos de lidar com os funcionários. “A indústria 4.0 depende basicamente de gente”, diz Rafael Lucchesi, diretor-geral do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

Produtividade baixa

 Em 1994, um trabalhador no Brasil gerava cerca de 25.000 dólares de riqueza por ano. O valor equivalia a 31% da produtividade americana na época de 82.000 dólares. De lá para cá, a distância aumentou. Em 2006, ano mais recente dos dados disponíveis, o brasileiro produziu o equivalente a apenas 25% do que o americano gerava. Enquanto a riqueza criada por trabalho aqui foi de 30.000 dólares, a contribuição de cada empregado norte-americano chegou a 121.000. Quando comparada à média da OCDE – o clube dos países mais ricos, nossa produtividade relativa caiu de 38% para 34% no mesmo período. 

Problema dobrado

 O problema de uma força de trabalho despreparada não se resume a quem vai ter ou não emprego no futuro – o que não é pouca coisa na esfera individual – mas se o país será capaz de fazer a transição para uma economia digitalizada. “Sem a qualificação da mão de obra, a implementação da indústria 4.0 não acontecerá na velocidade necessária e corre-se o risco de não se tirar o atraso da produtividade brasileira”, afirma o alemão Bjorn Hagemann, sócio da McKinsey (consultoria internacional).

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