Economia

Caso Wheaton: Morando sabe
que Cacheta Fiscal não resolve

  DANIEL LIMA - 23/04/2018

Há algumas verdades que precisam ser postas à mesa sobre o reforço de produção da Wheaton em São Bernardo, após adquirir uma fábrica em vias de desativação na Capital. O prefeito Orlando Morando tenta vender a ideia de que a Cacheta Fiscal ajudou nos negócios. E se anunciaram 500 contratações. Nenhuma coisa nem outra passam pelo crivo da realidade fática.

Nem o benefício fiscal pífio, que consiste em desconto do IPTU em paralelismo com o número de novos contratados, foi levado em consideração pela Wheaton e muito menos aquela indústria contratou 500 profissionais. Talvez o faça num futuro diluído, porque a economia nacional vai se restabelecer aos poucos e mesmo assim com engasgos. Nada, portanto, como resultado da operação. 

Em linguagem mais simples, diria que tudo não passa de lorota do prefeito e de um certo servilismo de executivos da empresa, doutrinada a ajudar Orlando Morando a vender gato por lebre. 

Simplificando o complexo 

Não vou repetir pela milésima vez porque fica até enfadonho, mas já que comecei vou terminar: a simplificação do futuro de desenvolvimento econômico de São Bernardo sobre as bases da Cacheta Fiscal é, até prova em contrário, o tamanho da capacidade da Administração do tucano em dar respostas ao esvaziamento da Capital Econômica da região. Uma cidadela que, conforme temos provado com análises, caiu na esparrela da quebra da mobilidade social que só não é exclusivamente espantosa porque também é inquietante. 

Passar à categoria de classe média-média em São Bernardo é uma tormenta para poucos. O rótulo de rico, então, é cada vez mais uma preciosidade. Só no ano passado São Bernardo fomentou sete novas famílias pobres em relação a cada uma de ricos. Uma barbaridade de reversão da ordem do passado. 

Proponho tanto ao prefeito Orlando Morando como aos executivos da Wheaton que provem a contratação líquida de 500 trabalhadores neste ano, bem como alguma análise das consultorias envolvidas nas negociações de compra da fábrica incorporada ao patrimônio da indústria de São Bernardo que realcem a importância da Cacheta Fiscal. Nem uma coisa nem outra serão apresentadas porque tanto uma quanto outra são fantasias de marketing do prefeito. 

A Secretaria de Desenvolvimento Econômico de São Bernardo é um ramal de proselitismos dos tucanos. Escolheram muito mal essa alternativa de marketing. Fontes oficiais que desnudam informações manquitolas existem e permitem investigações. 

Faço essas ponderações longe de qualquer ranço pessoal, político ou administrativo. Também o faço em relação a outros prefeitos atuais e o fiz com antecessores. E a razão é simples: a informação pública não pode passar exclusivamente pelo corredor de interesses políticos. 

Faturamento de R$ 1 bilhão

O noticiário da semana passada deu conta de que a fabricante brasileira de embalagens de vidros Wheaton acertara a compra da operação brasileira da Verescence. A incorporação, segundo o noticiário, garantiria um incremento de cerca de 28% para a Wheaton no Brasil. Com isso a empresa deverá faturar nesta temporada perto de R$ 1 bilhão. A Wheaton passará a constar da relação de uma das maiores operações globais de embalagens de vidros para perfumaria e cosméticos. A unidade da Verescence integrava a maior fabricante de embalagens de vidros para perfumes no mundo. 

Havia muito tempo a venda da operação brasileira da Verescence era algo esperado, segundo o noticiário setorial ao qual recorri cuidadosamente. O terreno no qual estava instalada a planta da empresa pertence ao grupo Saint Gobain, mas é ocupado, em sua maior parte, pela também fabricante de vidros Verália, antiga Santa Marina. A empresa deve construir uma nova fábrica em Jacutinga, no Interior Paulista, e deixará de ser locatária do terreno ocupado parcialmente pela Verescence.

Para completar a situação – afirmam várias fontes – o forno que abastecia as linhas de produção da empresa estava apresentando risco de vazamento. Por ser investimento bastante elevado, “da ordem de R$ 40 milhões”, é bem provável que a empresa teria dificuldades de convencer o fundo Osktree, controlador da Verescence, a realizar esse investimento num terreno do qual teriam que sair em breve – afirmam várias fontes jornalísticas.  

Bem antes da lei 

Ainda segundo o noticiário, a aquisição reforçará a posição da Wheaton em três dos seus principais clientes e ampliará a liderança no mercado local, uma vez que a SGD, nome atual do braço da Verescence, era a vice-líder no mercado. “Com a operação, os moldes e todo o maquinário, incluindo a linha de pintura de frascos e os moldes da Verescence, serão transferidos para a planta da Wheaton em São Bernardo”. 

Acompanhem agora o que disse a uma revista especializada do setor o executivo Renato Massara, um dos convidados de Orlando Morando a comparecer ao Paço de São Bernardo para falar do investimento: “Estamos nos preparando para receber as linhas da Verescence desde agosto. Reformamos um forno que estava à disposição do mercado”. A Cacheta Fiscal de Orlando Morando só ganhou forma legal em dezembro do ano passado. Muito depois das declarações do executivo da empresa. 

Mais que isso: quem conhece o histórico de decisões que envolvem fusões e aquisições sabe que o tempo médio à consumação de negociações em muitos casos supera a 12 meses de tratativas. Não é à toa a abundância de consultorias especializadas nesse tipo de negócio. Tanto que a Wheaton recorreu a esse expediente. 

Aliás, um expediente de expertise que falta à região quando se fala em desenvolvimento econômico. Teimamos em nadar, nadar e morrer na praia porque os prefeitos em geral colocam gente despreparada para atuar na área.

Situação não se altera 

A situação do mercado de trabalho nesta temporada é favorável a saldos positivos no uso de carteiras assinadas. Quando projetou afluxo de novos trabalhadores, Orlando Morando não correu nenhum risco. Bastaria ouvir algum especialista ou acompanhar o noticiário. Daí, entretanto, de atrelar novos trabalhadores à Cacheta Fiscal do IPTU vai diferença imensa. 

Os dados mais recentes do Ministério do Trabalho provam a recuperação do mercado de trabalho. O que interessa mais diretamente neste texto é o comportamento do emprego com carteira assinada na região desde janeiro, quando se iniciou a contagem particularmente interessante a Orlando Morando, na esteira da Cacheta Fiscal. 

Nos três primeiros meses deste ano, já contabilizados, o saldo de empregos formais em São Bernardo, em todas as atividades econômicas, é de 0,63%. Ou seja: esse é o saldo positivo no estoque de trabalhadores em geral em relação a dezembro do ano passado. Em Santo André o resultado é mais modesto, de crescimento de 0,09%. Mas São Bernardo perde para São Caetano (0,71%), Mauá (0,79%) e Rio Grande da Serra (0,87%). Diadema registrou 0,40% e Ribeirão Pires o pior índice regional, 0,03%. 

Trocando em miúdos: a Cacheta Fiscal de São Bernardo, a única disponível na região e que pegou a contramão do regionalismo esperado (algo agravado porque Orlando Morando é prefeito dos prefeitos no Clube dos Prefeitos), não está funcionando. 

Dados comparativos 

Mais que isso: diante de eventual possibilidade de São Bernardo apresentar dados mais confortáveis de aquecimento do emprego formal durante a gestão de Orlando Morando, sempre em comparação com os demais municípios da região, será indispensável que se apresentem informações oficiais que contemplariam as empresas beneficiadas. Um programa público, qualquer que seja, não pode dispensar a transparência demandada pela sociedade mesmo desorganizada. 

Apenas a título de esclarecimento: foi na edição de 7 de dezembro do ano passado que identifiquei como Cacheta Fiscal o programa de incentivo a investimentos lançado pelo prefeito Orlando Morando. O título da matéria não deixava dúvidas sobre o que vai-se consumar quando se levar em conta, com seriedade, o estoque de empregos formais em confronto com outros municípios que não adotaram a medida: “Morando lança Cacheta Fiscal; Loto Fiscal de Celso Daniel fracassou”. 

Expliquei naquele artigo que “Cacheta é um jogo de cartas com regras simples. Loto é uma loteria hoje de regras também mais simples. Tanto num caso como no outro há pontuações a alcançar. Acho que a Cacheta do Orlando vai ter o mesmo fim da Loto de Celso Daniel; ou seja, representará quase nada em mudança da ordem das coisas” – escrevi e ratifico a qualquer tempo. 

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