Política

Marinho testa candidatura de
olho na disputa com Morando

  DANIEL LIMA - 27/03/2018

Luiz Marinho quer voltar à Prefeitura de São Bernardo. O caminho tormentoso e dissimulado para aferir possibilidades começa neste ano com candidatura de azarão ao governo do Estado. O resultado final pouco interessa. O PT não tem nada a perder após a hecatombe das eleições municipais de dois anos atrás. Marinho deverá chegar com muita dificuldade a dois dígitos. É uma derrota mais que programada. Resta saber se o impacto será maior ou menor do que se antevê. 

O que o petista olha no horizonte próximo tem tudo a ver com o que pretende lá na frente: dimensionar o volume que lhe restou de capital eleitoral inicial para enfrentar Orlando Morando. É o eleitorado de São Bernardo que está na mira do petista. Foram oito anos de governo local, com resultados contraditórios, mas nem por isso desprezíveis. Marinho foi um obreiro incompleto e um estrategista frustrado por causa do governo de Dilma Rousseff. O saldo está longe de zero, mas também não é aquela maravilha que petistas propagam porque não falta marketing na política. Em todos os partidos. 

Votos em casa 

Qual será o percentual de votos de Luiz Marinho em São Bernardo em outubro próximo na corrida ao governo do Estado é a pergunta principal da operação que visa às eleições municipais de 2020. Se sair bem na fita em outubro próximo, Marinho ganhará impulso extraordinário. A cidadela poderá ser reconquistada. Ele chegaria ao terceiro mandato. Algo raro na política regional. 

Quem argumentar que eleições para o governo do Estado e para a Prefeitura de São Bernardo são como água e óleo estaria corretíssimo não fosse a particularidade chamada Luiz Marinho, estendida ao Partido dos Trabalhadores. Após a hemorragia de votos que tornou o PT um fracasso total nas últimas eleições municipais na região (não lhe restou sequer um dos bichos de sete cabeças e também, entre os paulistas, só ganhou a Prefeitura de Hortolândia, na Grande Campinas, entre 645 municípios), esta temporada é observada como um divisor de águas do passado recente de decomposição da sigla e um futuro próximo que acenaria para a ressurreição a partir da região, e mais especificamente de São Bernardo. 

Ainda é muito cedo para definir patamar de votos com os quais Luiz Marinho sairia fortalecido em São Bernardo às eleições de 2020. Os concorrentes João Doria e Márcio França não têm nada a ver com as disputas locais, como as que provavelmente Luiz Marinho terá dentro de mais de dois anos com Orlando Morando e Alex Manente. 

Batalhão ou exército? 

Entretanto, a divisão ideológica quando se trata do PT, sobretudo em São Bernardo, vai alinhavar projeção possível como plataforma de interpretação do que poderemos ter mais adiante. Quem votar no perdedor mais que escancarado Luiz Marinho em São Bernardo será um batalhão brancaleone ou um exército de resiliência incômoda?

Quero crer que a candidatura de Luiz Marinho à Prefeitura de São Bernardo é indigesta tanto para o atual prefeito como a um agora mais experiente concorrente, o deputado federal Alex Manente. Eles voltarão a se enfrentar após 12 anos. Em 2008, Marinho e Morando foram para o segundo turno e Manente alinhou-se ao petista na vitória. 

Naquela disputa, o PT de Luiz Marinho chegou à frente do PSDB de Orlando Morando ao final do primeiro turno. Foram 11 pontos percentuais de vantagem, ou três em cada 10 votos. Faltaram menos de dois pontos percentuais para o ex-ministro do Trabalho e da Previdência Social de Lula da Silva garantir a volta ao Paço Municipal. 

Alex Manente fortaleceu a candidatura de Luiz Marinho no segundo turno e a diferença de votos foi acachapante. Dos 194.966 votos obtidos no primeiro turno, Luiz Marinho subiu para 237.617 no segundo, ou 21,8% adicionais. Orlando Morando registrou pouco mais da metade de produtividade eleitoral, com 12,58% suplementar de votos válidos – saiu de 151.653 em 5 de outubro e chegou a 170.728 três semanas depois. Luiz Marinho alcançou 58,19% na etapa decisiva, pouco menos que 10 pontos percentuais acima dos 48,3% do primeiro turno. Orlando Morando subiu de 37,5% para 41,81%. 

Trio de volta?  

Quem diria que o trio poderia se enfrentar mais de uma década depois? E numa situação hoje complexa. Quem teria a certeza de que Orlando Morando seria o favorito que não foi no primeiro embate? Quem garante que desta vez Alex Manente priorizaria candidatura em vez de desacelerar a campanha na reta de chegada do primeiro turno para facilitar a vida de Luiz Marinho, embora não evitasse o segundo turno? 

Tudo vai passar pelos números de Luiz Marinho nesta temporada. Quanto menor o percentual do petista, mais Manente ganhará cacife para deixar de ser coadjuvante descartável como o foi em 2008 ou candidato marcado para perder em 2016, quando a sangria petista o contaminou? 

Resta saber qual é o planejamento de Luiz Marinho para este outubro em São Bernardo. Quem conhece o PT e a insistência com que o ex-presidente Lula da Silva bancou Marinho sabe que não existe um plano que se esgote na disputa governamental. A meta é mesmo São Bernardo e, suplementarmente, outras regiões industrializadas do Estado, nas quais o petista deverá ter maiores índices. 

Orlando Morando e Alex Manente estariam preocupados com a perspectiva de curto e médio prazo. Claro que curto prazo é outubro deste ano. E médio prazo é outubro de 2020. As cartas são favoráveis ao tucano não só porque detém o controle da Prefeitura, mas também porque há a perspectiva de João Doria tornar-se sucessor de Geraldo Alckmin. 

Máquina tucana 

A máquina estadual estaria, portanto, preservada. Bons de marketing, João Doria e Orlando Morando atuariam em conjunto nas eleições de 2020 para eliminar qualquer possibilidade de retorno do petista Luiz Marinho. Não se conceberia a oportunidade de recriação, segundo a linguagem tucana, de um criadouro de cascavéis tão próximo ao Palácio dos Bandeirantes. O ressurgimento do PT competitivo eleitoralmente a partir do retorno de Luiz Marinho seria um chute na canela das pretensões tucanas. 

É claro que existe um fator ainda pouco explorado que pode tornar a perspectiva petista menos sombria após o vendaval da Operação Lava Jato. Quanto mais os leitores entenderem que a Petrobras e outros estatais não eram exclusividade de assaltos petistas (embora a centralidade estratégico-eleitoral fosse coordenada pelo partido), mais os impactos que atingiram principalmente Lula e seus parceiros petistas serão menos intensos. 

Além disso, os petistas rezam para todos os santos para que os escândalos em São Paulo entrem para valer na rota de punições do Judiciário a partir do ramal do Ministério Público Federal, que está com um naco das trapalhadas tucanas. 

Dificilmente alguém seria capaz de sustentar que as empreiteiras que atuaram em terras bandeirantes no mesmo período e antes mesmo do governo federal petista trocavam a piscina de pecados das licitações e repartições de propinas nacionais pela sala de estar de purezas virginais dos paulistas. 

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